sábado, 9 de julho de 2016

O Cisco e a Trave

O Cisco e a Trave

Escrito por Maria Antonia Paduan

“Por que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, vós que não vedes uma trave no vosso olho? Ou como dizeis ao vosso irmão: Deixai-me tirar um argueiro do vosso olho, vós que tendes uma trave no vosso? Hipócritas, tirai primeiramente a trave do vosso olho, e então vereis como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão.” (Capítulo 10, item 9 - O Evangelho segundo o Espiritismo)

O desenvolvimento do ser espiritual se processa em grande parte por meio da comunicação e podemos nos comunicar pelo pensamento, pelas palavras e gestos, pela escrita, etc.. A nossa comunicação revela o que somos intimamente. Sendo assim, é importante o autoconhecimento, como já vimos, para que nossas relações interpessoais e espirituais se deem de forma saudável.

Aprendemos com Hammed que comunicamos pelo conteúdo que temos, conteúdo esse adquirido das experiências das vidas passadas e do pretérito nesta atual encarnação. Também aprendemos que ao recebermos estímulos, oriundos de fatos, situações, pessoas ou espíritos, nós os captamos, os decodificamos e internamente provocam emoções para, a seguir, expressá-las de alguma forma (instintivamente ou sob controle).

Quanto mais noção e percepção tivermos sobre essas emoções, maior será o nosso nível de consciência a nosso respeito. Isto significa autoconhecimento.

Refere Hammed que “os indivíduos em plenitude não negam suas emoções; permitem que elas venham à tona, e, como elas estão sob seu controle, reconhecem o que estão lhes mostrando sobre seus sentimentos, suas inclinações e suas relações com as pessoas”.

Para nos melhorarmos por meio dessa autoconsciência, propõe o autor que devemos integrar as nossas emoções, ou seja – senti-las, a seguir julgá-las, que é pensar sobre nossas necessidade e desejos, verificando sua adequação e suas consequências e após, tomar atitude.

Salienta Hammed, “emoções são muito importantes. Através delas é que nos individualizamos e nos diferenciamos uns dos outros. Ninguém sente, pois, exatamente igual, isto é, com a mesma potência e intensidade, seja no entusiasmo em uma situação prazerosa, seja na frustração ao observar uma meta perdida”.

Podemos pensar igual aos outros, mas para um mesmo pensamento criaturas diversas têm múltiplas reações emocionais.

Assim considerando, emoções não são certas ou erradas, boas ou impróprias, mas apenas energias que dependem do direcionamento que dermos a elas. Reconhecê-las ou admiti-las não significa, de modo algum, que vamos sempre agir de acordo com elas.

Quando percebemos nossos sentimentos e os julgamos impróprios, ou por alguma razão não os aceitamos, nossa tendência é reprimi-lo, adotando mecanismos de defesas como a negação.

“Emoções quando negadas ou reprimidas, não desaparecem como por encanto; ao contrário, sendo energias, elas se alojarão em determinados órgãos e congestionarão as entranhas mais íntimas da estrutura psicossomática dos indivíduos.

Ao abafarmos as emoções, podemos gerar uma grande variedade de doenças autodestrutivas.

Abafá-las pode também nos levar a reações muito exacerbadas ou à completa ausência de reações, a apatia”.

Outro aspecto comum a considerar quando não reconhecemos nossas emoções diante dos fatos é que, em geral, colocamos as responsabilidades e a culpa das ocorrências no outro.

A tendência que certos indivíduos têm, de atribuir falhas e erros a outras pessoas ou coisas, não enxergando e não admitindo como sendo suas, denomina-se projeção. Às vezes, tentamos fazer nossas emoções desaparecer, porque as tememos.

“Reconhecer o que realmente sentimos exigiria ação, mudança e decisão de nossa parte, e muitas vezes seríamos colocados face a face com verdades inadmissíveis e inconcebíveis por nós mesmos; e assim, tentamos projetá-las como sendo emoções não nossas, mas dos outros”.

Jesus reconhecia a universalidade desse processo psicológico, a projeção, e, como sempre, asseverava a necessidade da busca de si mesmo, para não transferirmos nossos traços de personalidade desconhecidos às coisas, às situações e aos outros.

Hammed conclui “o Mestre nos inspirava ao mergulho em nossa própria intimidade, a fim de que pudéssemos enxergar o lado obscuro de nossa personalidade. Ao tomarmos esse contato imprescindível com nossas sombras, a consciência se torna mais lúcida, crítica e responsável, descortinando amplos e novos horizontes para o seu desenvolvimento e plenitude espiritual”.

Lembremos sempre que as condutas alheias que mais nos incomodam são aquelas que não admitimos em nós mesmos. O outro nos serve de espelho, para que realmente possamos nos reconhecer.

Fonte: Renovando Atitudes – Francisco de Espirito Santo Neto – Ditado por Hammed - Boa Nova Editora – 1997 Catanduva, SP.