domingo, 3 de julho de 2016

EDUARDO AUGUSTO LOURENÇO

EDUARDO AUGUSTO LOURENÇO
eduardoalourenco@hotmail.com
Americana, São Paulo (Brasil)


A pureza do coração
 
“Mas o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque eu o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (Samuel 16:7).


Entre os antigos egípcios, o coração simbolizava a dimensão moral e espiritual que, aliás, se complementam, sendo identificado como órgão único da vida material e também como centro da vida espiritual. É do coração que jorra a fonte cristalina da vida, segundo um texto gravado em uma pirâmide do Alto Império. Por isso que no ritual de mumificação dos mortos era o único órgão preservado e, depois, recolocado no corpo. Como centro da vida moral, as ações humanas nascem do coração e lá também se depositam para o bem, ou para o mal. Tanto que o nosso coração necessita ser purificado através das boas emoções pautadas no amor e na caridade cristã, como vemos nos Salmos: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito estável” (51:10).

Os egípcios diziam que a mente/alma (BA) era uma entidade invisível e imortal que seria julgada após a morte do corpo pelos seus atos durante a vida. O coração, órgão que servia de sede para a alma, era capaz de recordar tudo o que foi feito enquanto vivo. Na morte, o coração seria pesado contra uma pluma e conforme seu peso a pessoa seria julgada culpada ou inocente. Durante a cerimônia da pesagem do coração era decidido se o sujeito seria mandado para o paraíso ou serviria de alimento para a figura mitológica parecida com um crocodilo chamado de Devorador.

Para os antigos semitas, o coração não é somente o órgão indispensável para a vida do corpo: ele é o centro de toda vida psicológica e moral, da vida interior.

Sendo o foco das faculdades espirituais e da vida moral, o coração é sede da sabedoria, da memória, da vontade, das disposições da alma, das paixões e sentimentos, dos desejos, da consciência. No sentido transcendental e religioso, é pelo coração que o homem forma e constitui o reino celestial, ligando-se ao Criador e com todo o universo, fazendo morada dos nobres sentimentos. Toda a mensagem do Cristo se resume no amor e o coração é o símbolo máximo do Cristianismo. Os nossos corações podem encontrar paz em saber que tudo está sob o controle do Criador, diz o apostolo amado João Evangelista: “Nisto conheceremos que somos da verdade, e diante dele tranquilizaremos o nosso coração; porque se o coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas” (3:19-20).

Já os gregos antigos, por meio de textos como os de Homero, Hesíodo e Ésquilo, observando o cardiocêntrica, em que o termo kardia coloca o universo expressando o movimento e ação em constante transformação e evolução, identificam o indivíduo na sua integralidade.

Aristóteles (384-322 a.C.) afirmava que o coração era o órgão do pensamento, das percepções e do sentimento, enquanto o cérebro seria importante para a manutenção da temperatura corporal, agindo como um agente refrigerador. Segundo ele, os nutrientes subiriam pelos vasos sanguíneos e, uma parte deles, uma espécie de refugo, seria resfriada no cérebro, transformando-se em líquido, de uma forma semelhante à que ocorre com a água na natureza, quando se forma a chuva. Ao contrário, o filósofo Platão dizia que a alma se encontrava no cérebro.

Platão colocava que é pelo cérebro que se experimenta de maneira sensível a ação de pensar, atividade superior por excelência e definidora da essência humana, enquanto ser racional. Já o coração, Platão dizia que é a “alma sensitiva” ou “emocional”, o princípio dos sentimentos e paixões como a cólera ou a coragem.  Tal noção significou um divisor de águas na história das concepções sobre o coração humano.
 
Allan Kardec, na obra “O Livro dos Espíritos”, na questão 146, pergunta: A alma tem, no corpo, uma sede determinada e circunscrita?

Resposta: Não. Mas ela se situa mais particularmente na cabeça, entre os grandes gênios e todos aqueles que usam bastante o pensamento, e no coração dos que sentem bastante, dedicando todas as suas ações à humanidade.

Tanto Platão como Aristóteles tinham razão, a alma se encontra mais particularmente nos órgãos que servem para as manifestações intelectuais e morais, contribuindo assim para o progresso da humanidade, repartindo seus talentos para o bem-estar do próximo.

A verdade é que a evolução só ocorre com a dedicação da caridade de todo nosso coração. O apóstolo Paulo diz: “Mas graças a Deus que, embora tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” (Romanos 6:17). Ainda acrescenta: “Mas, como está escrito: As coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” (Coríntios, 2:9).

Santo Agostinho, em suas reflexões filosóficas e teológicas, diz que o coração tende a ser compreendido em um sentido metafórico enquanto imagem de alma ou espírito, na esfera mais existencial e mística de sua obra, particularmente em suas Confissões, o termo coração aparece com insistente frequência, significando a intimidade mais profunda da pessoa, a palavra “pela qual se define a individualidade de nosso ser”. Tanto que ele diz: “Com o coração se pede. Com o coração se procura. Com o coração se bate e é com o coração que a porta se abre”.
O coração renovado é um ser reformado, regenerado e transformado; não nos referimos ao órgão do corpo humano, mas sim à alma, sede das emoções, dos sentimentos, pensamentos e vontade. Um coração sem culpa, trauma, dor, ressentimento, mágoa e tristeza. Os Upanishades, escrituras hindus, dizem que: “Quando o uso dos sentimentos é purificado, o coração se purifica. Quando o coração é purificado, existe uma constante lembrança do Eu superior. Quando existe uma constante lembrança do Eu superior, todos os vínculos são desfeitos e a liberdade espiritual é alcançada”. O hinduísmo ainda diz que: “Dentro da cidade de Brahman, que é o corpo, existe o coração, e dentro do coração existe uma pequena casa. Essa casa é como um lótus. Dentro dela mora aquilo que deve ser procurado, investigado e percebido”.

Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no capítulo VIII, item 7, temos que: “a pureza de coração e a pureza de pensamentos caminham juntas. Só é puro de coração quem é puro de pensamentos. Se o pensamento é torpe, o coração não pode ser puro. Significa dizer que a pureza, reflexo de um sentimento acrisolado, teve seu nascedouro no pensamento puro”.

Por isso diz Jesus em seu Evangelho: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus” (Mateus 5:8); a palavra “puro” na língua grega tem a mesma raiz da palavra “catarse”. Quando entramos num processo de catarse, passamos por uma experiência bela e profunda, num mecanismo de autoanálise, como se fizéssemos uma faxina, limpando e removendo qualquer impureza e toda sujeira mental impregnada nas entranhas da alma.

Para termos um coração puro, um coração purificado pela reforma que regenera nosso modo de vida, mais do que um corpo puro, Jesus exige um coração puro, uma mente pura, liberta das escravidões. Por isso ele dizia: “Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele... Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias” (Mateus 15,10: 19). Os puros de coração agem por amor, pelas virtudes nobres, verão a Deus porque reconheceram suas leis, ou seja, receberão o dom da Inteligência, ou melhor, da sabedoria divina.

O coração para muitas correntes espiritualistas é tido como o centro da personalidade, sendo a sede dos afetos, das emoções e da boa vontade, criando o homem na sua totalidade. Jesus dizia que a pureza através da mansidão deveria fazer parte da rota que guia nossas vidas, começando em cada pequena atitude, como em nossos pensamentos, emoções, motivações, desejos e vontade.

Do coração também procedem todas as nossas dificuldades; o Mestre dizia: “Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15:19). O meio ambiente pode nos influenciar, quando a nossa alma é tendenciosa.

Procedem também do coração todas as belezas, a justiça, a misericórdia, o amor e a caridade; o coração é fonte da nobreza altruísta, é luz que ilumina o desânimo, a descrença, a discórdia, a revolta e a frustração. O homem deve guardar em seu coração a pureza, a mansidão, a humildade, cultivando a prece e vigiando seu comportamento perante o próximo. O rei Davi orou: “Que as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença”.

Às vezes vemos a prática de alguns comportamentos que parecem ser puros, mas no fundo esta pureza exterior pode ser apenas aparente, mascarando nossas verdadeiras intenções, mas Deus não vê a aparência, e sim o coração. Jesus condenou a hipocrisia dos fariseus que mantinham uma santidade exterior, mas eram impuros por dentro. Limpavam o exterior do copo, mas havia sujeira dentro. Eram como sepulcros caiados (Mateus 23:25, 27). Os fariseus eram bons apenas na aparência. Por isso Jesus disse: “Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no Reino dos céus” (Mateus 5:20).

O coração é morada do Criador, dele procede o maior espetáculo da vida, chamado amor. O corpo é o templo do espírito, o coração é o palco sagrado da caridade. “Deus habita com o abatido e contrito de coração” (Isaías 57:15). “O coração puro é o paraíso de Deus, onde ele se deleita em habitar” (Efésios 3:17).

O codificador Allan Kardec, na obra “O Livro dos Espíritos”, na questão 108, pergunta: Qual é a sede da alma?

– A alma não está, como geralmente se crê, localizada num particular do corpo; ela forma com o perispírito um conjunto fluídico, penetrável, assimilando-se ao corpo inteiro, com o qual ela constitui um ser complexo, do qual a morte não é, de alguma sorte, mais que um desdobramento. Podemos figuradamente supor dois corpos semelhantes na forma, um encaixado no outro, confundidos durante a vida e separados depois da morte. Nessa ocasião um deles é destruído, ao passo que o outro subsiste. Durante a vida a alma age mais especialmente sobre os órgãos do pensamento e do sentimento. Ela é, ao mesmo tempo, interna e externa, isto é, irradia exteriormente, podendo mesmo isolar-se do corpo, transportar-se ao longe e aí manifestar sua presença, como o provam a observação e os fenômenos sonambúlicos.