segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A pecadora que ungiu os pés de Jesus (7 :36-50)

Morris, Leon L. Lucas – Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 2000, p.138-142




            Cada Evangelho tem uma história acerca de uma mulher que ungiu Jesus (Mt 26:6-13; Mc 14:3-9; Jo 12:1-8). Há boas razões para acreditar que os outros três estão descrevendo o mesmíssimo incidente, mas Lucas, um incidente diferente. Aqueles se referem a um incidente na última semana da vida de Jesus, e Lucas a um acontecimento muito anterior a ele. A "pecadora" do relato de Lucas molhou os pés de Jesus com suas lágrimas, enxugou-os com seus cabelos; beijou-os, e os ungiu, o que é diferente daquilo que os demais Evangelistas descrevem. E a discussão que se seguiu é diferente. Em Lucas, diz respeito ao amor e ao perdão, e nos demais, à venda do ungüento para fazer uma oferta aos pobres. Não há razão alguma para sustentar que a mulher nos demais Evangelhos fosse "uma pecadora" (João diz que era Maria de Betânia). Alguns têm sustentado que a "pecadora" em Lucas fosse Maria Madalena, mas isto é pura especulação.          .
36. Um fariseu chamado Simão (40) convidou Jesus a uma refeição. Em Mateus e Marcos o hospedeiro também é chamado Simão (Simão, o leproso), mas o nome era muito comum e não estabelece a identidade. É uma marca das largas simpatias de Jesus que jantou antes com um publicano (5 :29) e agora com um fariseu.
37,38. Uma mulher da cidade descrita como uma pecadora, que provavelmente significa uma prostituta, veio a saber disto, e entrou na casa. Uma refeição tal qual aquela da qual Jesus estava participando não era particular. As pessoas podiam entrar e ver o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, uma prostituta não seria benvinda na casa de Simão, de modo que exigia coragem chegar até lá. A mulher trouxe um vaso de alabastro com ungüento. A palavra alabastros denotava um recipiente globular para perfumes. Não tinha alças, e era dotado de um gargalho longo que era quebrado quando se queria usar o conteúdo (AG, LS). A despeito do nome, o recipiente nem sempre era feito de alabastro, mas Plínio diz que recipientes desta matéria eram os melhores (História Natural xili. 19, xxxvi.60). Podemos deduzir razoavelmente que este perfume era caro. As senhoras judias geralmente usavam um frasco de perfume pendurado em uma corda ao redor do pescoço, e tanto fazia parte delas que tinham licença de usá-lo no sábado (Shabbath 6 :3). O uso extensivo dos perfumes pode ser deduzido do fato de que os Sábios alocaram a certa mulher uma verba de 400 moedas de prata para perfume (Ketuboth 66b; mesmo assim, ela ficou insatisfeita!). Ungüento não é uma boa tradução, pois a referência diz respeito a um óleo perfumado, e não a um sólido. Tais óleos eram acompanhamentos comuns de ocasiões festivas. As pessoas não se sentavam à mesa, mas, sim, reclinavam-se em divãs baixos, apoiando-se no braço esquerdo, com a cabeça em direção à mesa, e o corpo esticado para fora desta. As sandálias eram removidas antes de reclinar-se. A mulher, portanto, não teria dificuldade em aproximar-se dos pés de Jesus. Decerto, pretendia ungi-los, mas enquanto ficava ali, suas emoções a dominavam, e suas lágrimas começavam a cair sobre os pés de Jesus. Imediatamente os enxugou com seus cabelos, uma ação significante, porque as senhoras judias não desatavam os cabelos em público. Claramente, estava totalmente esquecida da opinião pública, dominada como estava por sua forte emoção. Este fato também explicava por que beijava os pés de Jesus. Há exemplos de os pés de um rabino especialmente honrado serem beijados (e.g. Sanhedrin 27b), mas era longe de ser fato comum. Finalmente, ungiu os pés de Jesus com o ungüento. Normalmente, este teria sido derramado sobre a cabeça. Que ela o derramou nos pés é provavelmente uma marca de humildade. Tratar dos pés era uma tarefa menial que era atribuída a um escravo. É um conjectura razoável que Jesus fizera esta mulher voltar-se dos seus caminhos pecaminosos, e que tudo isto era a expressão do amor e da gratidão dela. Não fica claro se já conhecia Jesus pessoalmente. É possível que simplesmente estivesse entre as multidões que ouviam Seus ensinos, e que ficara tão convicta que sua vida foi transformada. Ou pode ter tido alguma conversa não registrada com Jesus. Não sabemos.
39. O hospedeiro viu tudo isto e teve uma pequena conversa de desaprovação consigo mesmo. A forma de frase condicional que empregou dá a entender em Grego (a) que Jesus não era profeta, e (b) que não sabia quem e qual era a mulher que lhe tocou.
40. Jesus passou a corrigir os dois conceitos falsos. O fariseu não falara em voz alta, mas Jesus respondeu aos pensamentos dele. Mostrou que sabia quem e que tipo de homem Simão era. Começou avisando que tinha uma coisa a dizer. Assim recebeu a atenção total de Simão. A resposta do fariseu: Dize-a, Mestre, é cortês mas não encorajadora.
41, 43. Jesus começou com uma pequena história de dois devedores cujas dívidas lhes foram perdoadas; o primeiro devia quinhentos denários, e o outro, cinqüenta (um denário era o salário diário de um trabalhador, Mt 20:2). Não era necessário muito entendimento para reconhecer quem amaria mais o benfeitor. Mesmo assim, a resposta de Simão é dada com um pouco de má vontade, com seu Suponho antes de mencionar aquele a quem mais foi perdoado. Jesus não comentou sobre isto, mas concordou que Simão dera a resposta certa.
44, 46. Depois chegou à aplicação. Voltou-se para a mulher e perguntou a Simão: Vês esta mulher? Via-a mesmo? A questão é interessante. " Simão não conseguiu ver aquela mulher conforme então era, porque olhava-a conforme tinha sido" (Morgan). Jesus passou a contrastar a atitude dela com a do Seu hospedeiro. Agora transparece que, embora Simão tivesse convidado Jesus ao seu lar, não Lhe dera o tratamento devido a um hóspede honrado. Era de se esperar que o hospedeiro tivesse fornecido água para os pés dos seus hóspedes (cf. Gn 18:4; Jz 19:21). Jesus não recebera este ato de cortesia. Mas Seus pés foram lavados pelas lágrimas da mulher. De modo semelhante, ao invés do beijo de boas-vindas que poderia ter esperado do Seu hospedeiro (cf. Gn 29:13;45:15), recebeu beijos nos Seus pés. E finalmente, ao passo que Simão omitira a unção da cabeça de Jesus (cf. SI 23:5; 141 :5), a mulher ungira Seus pés (óleo é azeite, que era abundante e barato; há um contraste com bálsamo, que era um perfume raro e caro).
47. Jesus passa a dizer a Simão que os pecados da mulher são perdoados. Ele não atenua aqueles pecados: são muitos. Mas é consistente com o ensino neotestamentário que não importa quantos ou quão grandes os pecados tenham sido, a graça de Deus pode perdoá-los. Devemos entender com cuidado as palavras porque ela muito amou. Jesus não está dizendo que as ações da mulher mereceram o perdão, nem sequer que seu amor o merecera. Em harmonia com Sua pequena parábola e com Suas palavras posteriores (50), Jesus está dizendo que o amor que ela demonstrou é prova de que já tinha sido perdoada. Era a resposta dela diante da graça de Deus. JB ressalta o significado, dizendo: "seus pecados, seus muitos pecados, decerto já lhe foram perdoados, senão, não teria demonstrado tão grande amor." Por contraste, aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. É natural pensar em Simão. Certamente demonstrara bem pouco amor, e a implicação é que não lhe fora perdoada muita coisa.
48-50. Jesus passa a dizer à mulher: Perdoados são os teus pecados (cf. 5:21-24). Lucas nos diz que isto provocou uma discussão entre os hóspedes. O perdão dos pecados era uma prerrogativa divina. Quem é este, perguntavam, portanto, que até perdoa pecados? Jesus, porém, não fez caso algum deles. Sua solicitude era dirigida à mulher. A tua fé te salvou, disse Ele. Isto é importante, pois demonstra que o amor do qual se falara antes era a conseqüência, e não a causa, da sua salvação. Como no restante do Novo Testamento, é a fé que é o meio de receber a boa dádiva de Deus. Jesus a despediu com as palavras: vai-te em paz (cf. 8:48). O Grego é literalmente "vai para dentro da paz" e talvez valha a pena notar que os rabinos sustentavam que "Vai em paz" era apropriado ao despedir-se dos mortos, mas aos vivos deve.se dizer, "Vai para dentro da paz" (Moed Katan 29a).