domingo, 10 de julho de 2016

Indulgência

Indulgência


“E se ao que quiser pleitear contigo, tirar-te o vestido, larga-lhe também a capa” – Jesus (Mateus, 5:40)

O dicionário nos diz que indulgente é a pessoa que tem disposição para desculpar ou perdoar. Clemente; benigno, tolerante; que perdoa facilmente. No Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. X “Bem Aventurados os Misericordiosos”, na mensagem de José, Espírito protetor, registra: “A indulgência não vê os defeitos alheios, e se os vê, evita comentá-los e divulgá-los. Oculta-os, pelo contrário, evitando que se propaguem e, se a malevolência os descobre, tem sempre uma desculpa à mão para os disfarçar, mas uma desculpa plausível, séria e não daquelas que, fingindo atenuar a falta, a fazem ressaltar com pérfida astúcia”.

A indulgência é um dos aspectos da caridade. Na questão 886, de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta: Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entende Jesus? Resposta: “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas”. Comentando essa resposta, Kardec considera: “A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola, mas abrange todas as relações com os nossos semelhantes, quer se trate de nossos inferiores, iguais ou superiores. Ela nos manda ser indulgentes porque temos necessidade de indulgência, e nos proíbe humilhar o infortúnio, ao contrário do que comumente se pratica (…)”.

Emmanuel, no Livro da Esperança, lição de n.° 27 (Na Luz da Indulgência), lembra que “todos nós reclamamos concurso e compaixão uns dos outros, mas nem sempre sabemos por nós mesmos, quando surgimos necessitados de semelhantes recursos”. O autor relaciona várias situações em que pessoas equivocadas, resvalando pelos despenhadeiros dos desequilíbrios e dos enganos, para serem ajudadas, reclamam, primeiro, compreensão e tolerância. Com atitudes condenatórias, com reprovações e exigências, nada se consegue. E conclui Emmanuel: “O próprio Criador espera as criaturas, no transcurso do tempo, tolerando-lhes as faltas e encorajando-lhes a esperança, embora lhes corrija todos os erros, através de leis eficientes e claras”. No estágio evolutivo em que nos achamos, muitas vezes, não conseguimos compreender essa afirmativa. Há pessoas que indagam: Por que Deus permite tantos crimes, tanta maldade, tanta injustiça? Homens que matam outros homens, roubam, enfim praticam atos que repugnam à razão. É que Deus tolera nossas faltas e ainda nos encoraja a esperança. O livre arbítrio da criatura é respeitado, mas ninguém se furta às conseqüências de suas ações. O Pai “corrige nossos erros, através de leis eficientes e claras”. Como essas correções se dão, muitas vezes, a médio e longo prazo, isto é, na vida futura, ou em outras existências, as pessoas que ainda não conhecem o processo evolutivo do Espírito não conseguem entender e aceitar o mecanismo da lei. De qualquer maneira, a indulgência do Pai para conosco, a tolerância em nosso favor é imensa, fato que ainda não percebemos.

Vale lembrar a parábola do “Credor Incompassivo”, contada por Jesus, e que está no Evangelho de Mateus, cap. XVIII, vers. de 21 a 35. Um rei resolveu ajustar contas com os seus servos. Chamou um que lhe devia dez mil talentos, e como o servo não tinha com que pagar, o rei ordenou que fossem vendidos ele, sua mulher, seus filhos e tudo quanto possuía, para pagar a dívida. Porém o servo, prostando-se diante do seu Senhor implorou paciência, prometendo tudo pagar. Seu Senhor teve compaixão daquele sevo, deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida. Saindo dali, aquele servo encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem denários (valor insignificante comparado ao montante da dívida que lhe fora perdoada) e passou a exigir, violentamente, o pagamento da dívida. O devedor também pediu paciência, mas nada conseguiu. Ao desdobrar-se aquela cena, os seus companheiros que haviam presenciado tudo o que se passara, indignaram-se e foram contar ao rei o acontecido. Daí a nova resolução do Senhor: entregou o servo malvado aos verdugos, a fim de que o fizessem trabalhar à força, até que lhe pagasse tudo o que lhe devia. Termina Jesus a parábola afirmando: “Assim também meu Pai Celestial vos fará se cada um de vós do íntimo do coração não perdoar a seu irmão”.




José Argemiro da Silveira
Autor do livro: Luzes do
Evangelho, Edições USE