segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Não vim trazer a paz, mas a divisão



Palestra Virtual
Promovida pelo Canal #Espiritismo
http://www.irc-espiritismo.org.br
em conjunto com o Centro Espírita Léon Denis http://www.celd.org.br
Palestrante: Lúcia Moreira
Rio de Janeiro
30/10/1998

Organizadores da palestra:

Moderador: "Luno" (nick: Moderador)
"Médium digitador": Carlos Filipe (nick: Lucia_Moreira)

Oração Inicial:

<jaja> Senhor Jesus, aqui estamos, mais uma vez, reunidos em Teu nome, para estudarmos os Teus ensinamentos à luz da Doutrina Espírita. Que possamos, Senhor, compreender de forma mais clara, as Tuas palavras que são de extrema importância para as nossa vidas. Que possamos, Mestre querido, buscar aplicar esses ensinamentos em nossa vida diária, fazendo com que o convívio com nossos companheiros de jornada possa ser cada vez melhor. Agradecemos pela oportunidade que nos é renovada hoje. Agradecemos a Ti, a Deus e aos amigos espirituais por se fazerem presentes aqui hoje para nos apoiar nesta tarefa. Graças a Deus!

Apresentação do palestrante:

<Lucia_Moreira> Meu nome é Maria Lúcia da Costa Moreira. Tive a grande felicidade de ter nascido em um lar espírita. Há 23 anos atuo na Casa Espírita Léon Denis, e pela sua meta de trabalho e estudo, foi uma das grandes benções que recebi de Jesus. As palestras, as atuações nos encontros, o trabalho assistencial no Núcleo Antônio de Aquino (Mallet), os trabalhos mediúnicos dos quais participo têm servido muito para meu aprendizado espiritual, e, principalmente, o convívio amigo e fraterno entre os companheiros do CELD têm me enriquecido muito.(t)

Considerações iniciais do palestrante:

<Lucia_Moreira> Interessante que Kardec em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" colocou este versículo de Mateus, capítulo 10 (vv 34:36) como a "Estranha Moral", por que realmente nos causa admiração que sendo o Senhor Jesus a personificação da doçura e da bondade tenha proferido estas palavras. Realmente foram proferidas por Ele. Mas, quando as analisamos em Espírito e não somente na letra, entendemos perfeitamente a profundidade de Sua sabedoria. Trazia Ele para a Humanidade da Terra (planeta de provas e expiações), aonde há predominância dos valores materiais sobre os Espirituais, que a Sua filosofia de amor, perdão e solidariedade iria causar inúmeras divergências, separações, divisões e até mesmo "guerras". (t)

Perguntas/Respostas:

<Moderador> [1] <Caminheiro> De que maneira a "divisão" pode ser útil na divulgação do Evangelho de Jesus, se levarmos em conta que essa divisão acaba fazendo com que pessoas de diferentes pontos de vista, graus evolutivos, inteligências diferenciadas e capacidades para compreensão acabem se voltando para Deus?
<Lucia_Moreira> O Senhor Jesus tem o conhecimento da formação da Humanidade do Planeta Terra. Ele sabia e sabe que espíritos de diversas categorias estão encarnados aqui na face da Terra, e que, logicamente, a sua doutrina atuou como um batismo de fogo para a Humanidade. O papel do fogo é purificar. A Doutrina do Cristo tinha a finalidade de acabar com os abusos, preconceitos e tradições, na época sustentada pelos Romanos, escribas e sacerdotes orgulhosos. Hoje ainda sustentada por muitos. A divisão, a separação que Ele alude é a possibilidade de assimilação e de entendimento de cada um. Dia chegará em que não haverá essa "divisão", por que todos terão alcançado o grau de entendimento, de amor e fraternidade.(t)
<Moderador> [2] <jaja> Como agir com nossos familiares quando eles não aceitam a opção religiosa que fizemos?
<Lucia_Moreira> O senhor Jesus nos deu um exemplo muito nítido do procedimento a seguir: Ele nunca impôs os seus conceitos a ninguém. Respeitou os Romanos que dominavam o mundo; respeitou os Cesares que dominavam Roma; respeitou os Fariseus, os Escribas, os sacerdotes que zombavam dos seus ensinamentos e prosseguiu com o seu exemplo vencendo a todos eles não pela violência, nem pela imposição, mas sim pelo seu exemplo, pela sua autoridade moral, pela paz interior por ele conquistada. O comportamento que devemos ter diante daqueles que não aceitam a nossa opção religiosa é o da não violência, e aí nos lembramos de Ghandi, aquele grande pacifista indiano que conquistou dos ingleses a libertação da Índia com a "não violência". (t)
<Moderador> [3] <Caminheiro> Essas palavras: "Não vim trazer a paz, mas a divisão" parecem em desacordo com a doutrina pregada pela Boa Nova de Jesus. Parecem não terem sido ditas pelo Mestre doce e elevado de Nazaré! Seriam palavras "acrescidas" ao texto evangélico pelos copistas da Idade Medieval, que sabemos tanto terem modificado as escrituras da Boa Nova?
<Lucia_Moreira> Essas palavras foram ditas realmente por Jesus, como já dissemos. Toda idéia nova forçosamente encontra oposições, e nenhuma há que se implante sem lutas, e as resistências, as lutas, são proporcionais à importância dos conceitos, por que quanto maior ela for tanto mais são os interesses que ferem o ser humano. Quando são palavras sem importância, elas passam até despercebidas. A importância de uma idéia nova como a que o Senhor veio trazer "Amar à Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", "amai aos vossos inimigos", "fazei bem aos que vos perseguem", quem mata pela espada, pela espada perecerá". Isto veio causar um "reboliço" na mente humana, por que o homem teria que expurgar o orgulho, a vaidade, o egoísmo de dentro de si mesmo.(t)
<Moderador> [4] <jaja> Se o casamento se apresenta ameaçado pelas discordâncias em termos de religião que se instala no lar, deve um dos cônjuges abrir mão de sua convicção religiosa para evitar maiores problemas? Digo isso para o caso de um dizer para o outro assim: "Escolha: ou a religião ou eu!"
<Lucia_Moreira> O Senhor Jesus, antes de "morrer", fez um testamento: A Deus legou o seu Espírito; a José de Arimatéia legou o Seu corpo; aos soldados Suas vestes; Maria, Sua mãe, Ele deixou aos cuidados de João; aos seus discípulos sinceros, ele falou: "A minha paz vos deixo, a minha paz vos dou". A paz do Senhor Jesus é a nossa consciência tranqüila, que é baseada no equilíbrio da nossa razão e do nosso livre-arbítrio. Se você se acha com capacidade psíquica para fazer a sua esposa feliz, não vejo motivo para se terminar um casamento por divergências religiosas. Procure conversar com ela sobre respeito, tolerância e amor.(t)
<Moderador> [5] <Caminheiro> Por falar em divisão, o que podemos esperar do movimento de "unificação" dentro do Espiritismo?
<Lucia_Moreira> O movimento de unificação não é dentro do Espiritismo. O movimento de unificação é da Humanidade. Todos nós um dia chegaremos, de acordo com a lei de progresso e de evolução, que é uma lei natural, à compreensão de que precisamos nos unir; precisamos de solidariedade e de fraternidade. Martin Luther King, pacifista negro e norte-americano nos adverte: "ou aprendemos a viver juntos como irmãos, ou pereceremos como loucos". Steven Spilberg, no seu mais recente filme, "O Resgate do Soldado Ryan", nos mostra a necessidade do homem estabelecer a solidariedade. Esta solidariedade só poderá ser estabelecida cultivando-se os sentimentos de fraternidade indiscriminada, sem barreiras, sem fronteiras e sem limites.(t)
<Moderador> [6] <Caminheiro> Como agir com nossos filhos adolescentes, quando se deixam encantar por movimentos religiosos diferentes de nosso ideal Espírita?
<Lucia_Moreira> O Senhor Jesus falou: "não vim trazer a paz, mas a divisão; porquanto vim separar de seu pai o filho, de sua mãe a filha e de sua sogra a nora. E o homem terá por inimigos os de sua própria casa". (Mateus, cap. X vv 34:36) Não esqueça, meu amigo, de que nossos filhos, como nós são espíritos que possuem as suas individualidades. A separação, a "divisão" dita pelo Senhor Jesus é justamente essa proporcionalidade do crescimento espiritual de cada um. Lembre-se de que todos nós um dia chegaremos à era da razão, não nos afobemos com as opiniões contrárias de nossos filhos. Eles viverão, adquirirão as suas experiências; racionalizarão a sua fé; e "um dia" estaremos todos unidos com a mesma idéia, a idéia de que fomos criados por Deus, de que somos espíritos imortais, de que somente a fé raciocinada e não fanatizada nos conduzirá à felicidade e à paz.(t)

Considerações finais do palestrante:

<Lucia_Moreira> A palavra hebraica para a paz é "Shalon", que significa plenitude do amor divino, consumação de todos os valores morais. Por isso o Senhor Jesus falou; "Não pensais que Eu tenha vindo trazer a paz, mas sim a divisão." Kardec nos diz que essas palavras do Senhor Jesus devem entender-se como referência às cóleras que a sua doutrina provocaria, aos conflitos momentâneos a que iria dar causa, às lutas que teria de enfrentar antes de se firmar, e não como decorrentes de um designo premeditado de sua parte de semear a desordem e a confusão. O mal viria dos homens, e não d'Ele. "É como o médico que se apresenta para curar e cujos remédios provocam uma crise salutar, atacando os maus humores".(t)

Oração Final:

<Moderador> Pai amado, agradecemos mais esta oportunidade de estarmos todos juntos no meio virtual estudando suas leis. Esperamos que possamos ter alcançado nosso objetivo de maneira satisfatória. Pedimos que continue a iluminar nossa amiga Lúcia, para que ela possa continuar a nos instruir com sua palavra doce e amiga. Com a tua permissão damos por encerrada a palestra virtual de hoje. Esteja conosco, agora e sempre. Que assim seja!

Não Vim Trazer a Paz mas a Espada - Sérgio



Paz – do lat. pax, pacis – é a tranqüilidade da ordem. É a aspiração fundamental de cada homem e de toda a humanidade, a ponto de seu conceito quase ser confundido com o de felicidade. Espada – do gr. spáthe, pelo lat. spatha – é a arma branca, formada de uma lâmina comprida e pontiaguda, de um ou dois gumes. Símbolo do Estado Militar e de sua virtude. Relacionada com a balança, significa justiça: separa o bem do mal, julga o culpado.
A paz e a espada representam um ensinamento transmitido por Jesus. São Mateus, no cap. X, v. 34 a 36, narra essa passagem evangélica nos seguintes termos: "Não penseis que eu vim trazer paz sobre a Terra; eu não vim trazer a paz, mas a espada; porque eu vim separar o homem de seu pai, a filha de sua mãe e a nora de sua sogra; e o homem terá por inimigos os de sua casa". São Lucas, no cap. XII, v. 49 a 53, trata do mesmo assunto, acrescentando que Jesus viera lançar fogo sobre a Terra e tinha pressa que ele se acendesse.
O ensinamento da paz e da espada, como tantos outros ensinamentos trazidos por Jesus, possui conteúdo alegórico. A interpretação do referido trecho varia de seita para seita. A espada do Cristo, que era de fraternidade, passa a ser instrumento de violência e opressão nas mãos dos propagadores de determinadas seitas. Os próprios cristãos, de perseguidos, passam a ser perseguidores. Não é, pois, de se estranhar que as guerras religiosas destruíram mais do que as guerras políticas.
Toda a idéia nova gera oposição. Eis a correta interpretação dessa passagem evangélica. O "novo", quando fundamentado na lógica e na razão, fere interesses pessoais. Isso acontece na Ciência, na Filosofia e, também, na Religião. Por isso a importância da nova idéia é proporcional à resistência encontrada. Pois, se julgada sem conseqüência, deixá-la-iam passar, mas, como se sentem ameaçados, fazem de tudo para dificultar a sua propagação.
O Espiritismo, à semelhança do Socratismo e do Cristianismo, traz um novo paradigma para a humanidade, e pode ser interpretado como uma nova espada. Não será aceita sem lutas, controvérsias e oposições. Sua pujança não está nas disputas sangrentas, mas na modificação interior que proporciona a cada um de seus adeptos. A questão da espada será muito mais uma guerra de cada um contra si mesmo e contra todo o mal, fazendo com que possamos ser "promotores da paz".
A paz não é sinônimo de beatitude. É um estado de tranqüilidade de consciência durante e após a luta contra o comodismo pessoal, as injustiças e as desigualdades sociais.
São Paulo, Dezembro de 1999

Eu Não Vim Trazer A Paz, Mas A Espada


 06/10/2008

José Medrado 

Em Mateus, no cap. X, v v. 34 a 36, narra essa passagem evangélica nos seguintes termos: " Não penseis que eu vim trazer paz sobre a Terra; eu não vim trazer a paz, mas a espada.” . Naturalmente, se se nos apresenta um ponto de aparente inquietude, pois como o príncipe do amor e da paz fala de em não paz. É certo , todavia, que muito foi mexido e remexido nos textos que sequer pertenceram, foram escritos pessoalmente por Jesus, mas se levando em conta que assim foi, não há dúvidas que o sentido é alegórico.

Penso que o Senhor falava do novo da sua mensagem, o que iria incomodar, gerar perseguições, dissensões, polêmicas ou coisas que o valham.

Hoje mais do que antes tenho entendido este princípio.

Jesus contrariou ensinamentos de cabrestos, propôs novos conceitos em suas pregações, inclusive trabalhando nos sábados, o que era proibido pelas leis mosaicas; afrontou os sacerdotes intocáveis do sinédrio, posicionou-se quanto aos poderosos de então; não seguiu cartilhas; não imitou, não copiou para ser aceito. Firmou-se em sua moral e conhecimento e devassou o mundo da hipocrisia e das falácias.

"Toda a idéia nova gera oposição. Eis a correta interpretação dessa passagem evangélica. O "novo", quando fundamentado na lógica e na razão, fere interesses pessoais. Isso acontece na Ciência, na Filosofia e, também, na Religião. Por isso a importância da nova idéia é proporcional à resistência encontrada. Pois, se julgada sem conseqüência, deixá-la-iam passar, mas, como sentem-se ameaçados, fazem de tudo para dificultar a sua propagação."

Ah! Como sinto isto no meu dia-a-dia... Atenção! Antes que os de má-fé já digam que estou me comparando a Jesus, NÃO! Falo das resistências que alguns põem à minha forma muito própria de pregar o Espiritismo, sem imitar, sem copiar, mas passando o Evangelho de Jesus, os princípios espíritas com naturalidade, ao meu modo. Nada se tem a dizer quanto à minha conduta, ao trabalho que realizo com os meus colaboradores da Cidade da Luz, pois lá se trabalha e muito. Foram mais de 250.000 atendimentos sociais em 2005, como não se tem o que falar da realização da caridade, vamos atacar estilo, formas... Pobres espíritos enfermos, atêm-se a forma e se esquecem do conteúdo, do fazer. Normalmente esses não guardam folha corrida alguma no Bem.

É por isso que sou o que sou, ponto de partida para sair da demagogia, da hipocrisia, do aparentar ser, pois qualquer vida para ser bem aceita é indispensável assumir o que fizemos até agora, aceitar o nosso passado, a nossa trajetória, os caminhos percorridos, com todas as suas implicações, aceitar o que nos ajudou e o que nos complicou, o que consideramos acertos e erros, aceitando-nos como pessoas no seu conjunto. Aí estaremos, sim, convictos de que estamos passando verdades, ainda, é claro, que sejam as nossas e quem nos ouvir, ler, que faça o aceite do que apraz a sua consciência discernitiva.

A verdade é que só nos engajamos, verdadeiramente, no processo de crescimento espiritual real quando despimos as nossas máscaras, "quando conseguimos integrar o passado e o presente, o individual e o grupal, o material e o espiritual, o trabalho e o lazer, o presencial e o virtual, o tradicional e o inovador, o que está organizado e o que está desestruturado. Evoluímos mais quando integramos nosso "eu" dividido; quando aceitamos nossas contradições, nossos diversos papéis, expectativas e realizações, nossas qualidades e defeitos


José Medrado

NÃO VIM TRAZER A PAZ, MAS A ESPADA.



Campos do Jordão - SP


Os que estão acostumados a ler nos Evangelhos palavras de brandura, de tolerância e de amor, estranham quando Jesus muda o teor de sua mensagem e imprime maior vigor e energia quando proclama que não veio trazer paz à Terra, mas, sim, a espada. Na mesma oportunidade afirmou que veio lançar fogo sobre a Terra e tinha pressa que ele se acendesse.    Essa mudança de um pólo a outro parece paradoxal, se não abandonarmos a letra que mata para divisar apenas o espírito que vivifica.

Por mais adiantado que esteja à inteligência humana, somos compelidos a reconhecer que a humanidade ainda não dispõe de capacidade suficiente para avaliar a grandeza do Espírito Jesus. Isto porque muitas religiões, conscientes ou inconscientemente, ignoram a inapreciável contribuição deixada por Ele no campo da ciência, da filosofia, da medicina e do direito, procurando limitá-lo as pequenas dimensões de apenas uma religião, dentre tantas outras religiões criadas pelos homens. Suas orientações se seguidas, por si só, já deveria ser considerada uma religião.

Jesus marcou de forma a não deixar dúvida quanto à sua presença e sua missão neste mundo. Ele não teve, sequer, onde reclinar a cabeça. Nada possuiu de material, nenhuma propriedade, nenhum dinheiro. Cercou-se de pessoas incultas, de um povo social e politicamente subjugado. Reuniu em torno de Si amigos rudes e iletrados, da região mais pobre do Império Romano. Falou sempre na linguagem mais simples, não deixando nada escrito por Ele próprio. Tudo foi registrado no coração e na memória dos que Lhe ouviram a palavra e testemunharam o exemplo. Nunca freqüentou uma escola e foi coroado apenas com espinhos, foi açoitado publicamente e finalmente pregado numa cruz infamante como se fosse um ladrão.

Foi assim se apresentando e agindo que dividiu as eras terrestres em antes e depois d’Ele, permanecendo para sempre como a maior presença, a mais elevada expressão de toda a história humana em todas as épocas do mundo, o ser mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo, questão 625 do Livro dos Espíritos.

Quanto mais o tempo passa, mais é lembrado, mais é amado, mais fortemente se faz o centro vivo de todas as civilizações e filosofias. Seu nome e seus ensinos ao invés de morrerem na pobre Palestina e com o próprio tempo que a tudo destrói, só lhe acrescentam honras divinas.

Jesus cresce a cada dia, diante dos olhos e do coração dos homens, exatamente porque só a pouco e pouco, à medida que os homens evoluem, vão podendo melhor entendê-Lo e melhor senti-Lo. Somente à medida que vamos crescendo em inteligência, em ciência e em tecnologia, vamos podendo, vagarosa, mas efetivamente melhor compreendendo e sentindo o Espírito e a mensagem de Jesus.

A Doutrina Espírita, o Consolador Prometido por Jesus chegou na hora assinalada por Ele, quando a humanidade atingia a maturidade para melhor avaliar a realidade dos fatos, para que a verdade e a justiça prevaleçam no interesse de toda a humanidade. O fogo mencionado por Ele nada mais é do que a revolução que seus ensinamentos causariam consumindo os erros e os preconceitos. Como se põe fogo num campo para destruir as ervas daninhas. Ele tinha pressa, para que a depuração se desse mais rapidamente, pois dele sairá triunfante a verdade.

Jesus afirmou que: “não vim trazer a paz, mas a espada; porque vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe e a nora de sua sogra”. Se naquela época não O puderam compreender, agora no tempo do Consolador Prometido, a Doutrina Espírita, sua mensagem já pode ser compreendida e assimilada sem pressa, sem traumas ou imposições, capaz de enriquecer-nos para sempre!

Ao fazer aquela afirmativa Ele falava, em tom profético, das desavenças de crenças até no seio das famílias, pois com o correr do tempo várias ramificações foram surgindo no Cristianismo e hoje o mundo está dividido em muitas religiões e seitas, existindo em uma única família várias opiniões diferentes, chegando a brigarem entre si, por considerar, cada um, que à sua religião é a certa, e a levantar a espada da discórdia, permanecendo na escuridão do orgulho e do fanatismo, isso por que não compreenderam as palavras de Jesus, na maioria velada por alegorias e expressões figuradas.

A espada referida por Jesus, não seria utilizada pelos adeptos da Doutrina, mas por aqueles que a ela se oporiam, separando-os de tudo quanto amassem e que usariam seu nome, inclusive, como pretextos para as guerras e disputas.

Toda idéia nova encontra oposição. Nenhuma se implantou sem divergência. Quanto mais inovadoras, maior será a luta pelo número de interesses ameaçados. Entretanto, se para a edificação do Espírito nós nos incompatibilizarmos com os outros, especialmente com os familiares, por causa de Jesus, na realidade não O estaremos seguindo.

Jesus não veio ao mundo para transigir com as fraquezas dos homens, mas para trazer a centelha da luz para que a criatura humana se ilumine para os planos Divinos. E a lição sublime de Jesus sempre será reconhecida como a espada renovadora com a qual deve o homem lutar consigo mesmo, contra suas inferioridades, extirpando os velhos inimigos de seu coração dirigidos pela ignorância, pela vaidade, pelo egoísmo e pelo orgulho.

Com a Doutrina Espírita começamos a compreender que o importante é amar a Deus e ao próximo e vivenciarmos seus ensinamentos quotidianamente. Ainda existem guerras e perseguições associadas a religiões distintas, mas são mais raras que no passado. Já se aproxima os tempos de harmonia entre os homens, até que há de chegar o dia em que todas as religiões se resumirão apenas em duas palavras: amor e caridade expandindo-se para alem dos limites das religiões.

Jesus veio até nós para que melhor possamos compreender que somente pela luta interior em prol do aprimoramento moral e espiritual a humanidade poderá equacionar seus problemas milenares e sair do estado caótico em que se encontra.

E o Evangelho é a solução!

Não Vim Trazer a Paz, Mas a Espada - ESE



9. Não julgueis que vim trazer paz à Terra; não vim trazer-lhe paz, mas espada; porque vim separar o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e os inimigos do homem serão os seus mesmos domésticos. (Mateus, X: 34-36).
10. Eu vim trazer fogo à Terra, e que quero eu, senão que ele se acenda? Eu, pois, tenho de ser batizado num batismo, e quão grande não é a minha angústia, até que ele se cumpra? Vós cuidais que eu vim trazer paz à Terra? Não, vos digo eu, mas separação; porque de hoje em diante haverá, numa mesma casa, cinco pessoas divididas, três contra duas e duas contra três. Estarão divididas: o pai contra o filho, e o filho contra seu pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. (Lucas, XII, 49-53).
11. Foi mesmo Jesus, a personificação da doçura e da bondade, ele que não cessava de pregar o amor do próximo, quem disse estas palavras: Eu não vim trazer a paz, mas a espada; vim separar o filho do pai, o marido da mulher, vim lançar fogo na Terra e tenho pressa que ele se acenda? Essas palavras não estão em flagrante contradição com o seu ensino? Não é uma blasfêmia atribuir-lhe a linguagem de um conquistador sanguinário e devastador? Não, não há blasfêmia nem contradição nessas palavras, porque foi ele mesmo quem as pronunciou, e elas atestam a sua elevada sabedoria. Somente a forma, um tanto equívoca, não exprime exatamente o seu pensamento, o que provocou alguns enganos quanto ao seu verdadeiro sentido. Tomadas ao pé da letra, elas tenderiam a transformar a sua missão, inteiramente pacífica, numa missão de turbulências e discórdias, conseqüência absurda, que o bom senso rejeita, pois Jesus não podia contradizer-se. (Ver cap. XIV, nº 6).
12. Toda idéia nova encontra forçosamente oposição, e não houve uma única que se implantasse sem lutas. A resistência, nesses casos, está sempre na razão da importância dos resultados previstos, pois quanto maior ela for, maior será o número de interesses ameaçados. Se for uma idéia notoriamente falsa, considerada sem conseqüências, ninguém se perturba com ela, e a deixam passar, confiantes na sua falta de vitalidade. Mas se é verdadeira, se está assentada em bases sólidas, se é possível entrever-lhe o futuro, um secreto pressentimento adverte os seus antagonistas de que se trata de um perigo para eles, para a ordem de coisas por cuja manutenção se interessam. E é por isso que se lançam contra ela e os seus adeptos. A medida da importância e das conseqüências de uma idéia nova nos é dada, portanto, pela emoção que o seu aparecimento provoca, pela violência da oposição que desperta, e pela intensidade e a persistência da cólera dos seus adversários.
13. Jesus vinha proclamar um doutrina que minava pelas bases a situação de abusos em que viviam os Fariseus, os Escribas e os Sacerdotes do seu tempo. Por isso o fizeram morrer, julgando matar a idéia com a morte do homem. Mas a idéia sobreviveu, porque era verdadeira; desenvolveu-se, porque estava nos desígnios de Deus; e nascida numa pequena vila da Judéia, foi plantar a sua bandeira na própria capital do mundo pagão, em face dos seus inimigos mais encarniçados, daqueles que tinham o maior interesse em combatê-la, porque ela subvertia as crenças seculares, a que muitos se apegavam, mais por interesse do que por convicção. Era lá que as lutas mais terríveis esperavam os seus apóstolos; as vítimas foram inumeráveis; mas a idéia cresceu sempre e saiu triunfante, porque superava, como verdade, as suas antecessoras.
14. Observe-se que o Cristianismo apareceu quando o Paganismo declinava, debatendo-se contra as luzes da razão. Convencionalmente ainda o praticavam, mas a crença já havia desaparecido, de maneira que apenas o interesse pessoal o sustinha. Ora, o interesse é tenaz, não cede nunca à evidência, e irrita-se tanto mais, quanto mais peremptórios são os raciocínios que se lhe opõem e que melhor demonstram o seu erro. Bem sabe que está errado, mas isso pouco lhe importa, pois a verdadeira fé não lhe interessa; pelo contrário, o que mais o amedronta é a luz que esclarece os cegos. O erro lhe é proveitoso, e por isso a ele se aferra, e o defende.
Sócrates não formulara também uma doutrina, até certo ponto, semelhante à do Cristo? Por que, então, não prevaleceu naquela época, no seio de um dos povos mais inteligentes da Terra? Porque os tempos ainda não haviam chegado. Ele semeou em terreno não preparado: o Paganismo não estava suficientemente gasto. Cristo recebeu a sua missão providencial no tempo devido. Nem todos os homens do seu tempo estavam à altura das idéias cristãs, mas havia um clima geral de aptidão para assimilá-las, porque já se fazia sentir o vazio que as crenças vulgares deixavam na alma. Sócrates e Platão abriram o caminho e prepararam os Espíritos. (Ver na Introdução, parágrafo IV: Sócrates e Platão, precursores da idéia cristã e do Espiritismo).
15. Os adeptos da nova doutrina, infelizmente, não se entenderam sobre a interpretação das palavras do Mestre, na maioria veladas por alegorias e expressões figuradas. Daí surgirem, desde o princípio, as numerosas seitas que pretendiam, todas elas, a posse exclusiva da verdade, e que dezoito séculos não conseguiram por de acordo. Esquecendo o mais importante dos preceitos divinos, aquele de que Jesus havia feito pedra angular do seu edifício e a condição expressa da salvação: a caridade, a fraternidade e o amor do próximo, essas seitas se anatematizaram reciprocamente, arremeteram-se umas contra as outras, as mais fortes esmagando as mais fracas, afogando-as em sangue, ou nas torturas e nas chamas das fogueiras. Os cristãos vencedores do Paganismo, passaram de perseguidos a perseguidores. Foi a ferro e fogo que plantaram a cruz do cordeiro sem mácula nos dois mundos. É um fato comprovado que as guerras de religião foram mais cruéis e fizeram maior número de vítimas que as guerras políticas, e que em nenhuma outra se cometeram tantos atos de atrocidade e de barbárie.
Seria a culpa da doutrina do Cristo? Não, por certo, pois ela condena formalmente toda violência. Disse ele em algum momento aos seus discípulos: Ide matar, queimar, massacrar os que não acreditarem como vós? Não, pois que lhes disse o contrário. Todos os homens são irmãos, e Deus é soberanamente misericordioso; amai o vosso próximo; amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos perseguem. E lhes disse ainda: Quem matar com a espada perecerá pela espada. A responsabilidade, portanto, não é da doutrina de Jesus, mas daqueles que a interpretaram falsamente, transformando-a num instrumento a serviço das suas paixões. Daqueles que ignoraram estas palavras: O meu Reino não é deste mundo.
Jesus, na sua profunda sabedoria, previu o que devia acontecer. Mas essas coisas eram inevitáveis, porque decorriam da própria inferioridade da natureza humana, que não podia ser transformada subitamente. Era necessário que o Cristianismo passasse por essa prova demorada e cruel, de dezoito séculos, para demonstrar toda a sua pujança: porque, apesar de todo o mal cometido em seu nome, ele saiu dela puro, e jamais esteve em causa. A censura sempre caiu sobre os que dele abusaram, pois a cada ato de intolerância sempre se disse: Se o Cristianismo fosse melhor compreendido e melhor praticado, isso não teria acontecido.
16. Quando Jesus disse: Não penseis que vim trazer a paz, mas a divisão _ seu pensamento era o seguinte:
"Não penseis que a minha doutrina se estabeleça pacificamente. Ela trará lutas sangrentas, para as quais o meu nome servirá de pretexto. Porque os homens não me haverão compreendido, ou não terão querido compreender-me. Os irmãos, separados pelas suas crenças, lançarão a espada um contra o outro, e a divisão se fará entre os membros de uma mesma família, que não terão a mesma fé. Vim lançar o fogo na terra, para consumir os erros e os preconceitos, como se põe fogo num campo para destruir as ervas daninhas, e anseio porque se acenda, para que a depuração se faça mais rapidamente, pois dela sairá triunfante a verdade. À guerra sucederá a paz; ao ódio dos partidos, a fraternidade universal; às trevas do fanatismo, a luz da fé esclarecida.
Então, quando o campo estiver preparado, eu vos enviarei o Consolador, o Espírito da Verdade, que virá restabelecer todas as coisas, ou seja, que dando a conhecer o verdadeiro sentido das minhas palavras, que os homens mais esclarecidos poderão enfim compreender, porá termo à luta fratricida que divide os filhos de um mesmo Deus. Cansados, afinal, de um combate sem solução, que só carreta desolação e leva o distúrbio até mesmo ao seio das famílias, os homens reconhecerão onde se encontram os seus verdadeiros interesses, no tocante a este e ao outro mundo, e verão de que lado se acham os amigos e os inimigos da sua tranqüilidade. Nesse momento, todos virão abrigar-se sob a mesma bandeira: a da caridade, e as coisas serão restabelecidas na Terra, segundo a verdade e os princípios que vos ensinei".
17. O Espiritismo vem realizar, no tempo determinado, as promessas do Cristo. Não o pode fazer, entretanto, sem destruir os erros. Como Jesus, ele se defronta com o orgulho, o egoísmo, a ambição, a cupidez, o fanatismo cego, que, cercados nos seus últimos redutos, tentam ainda barrar-lhe o caminho, e levantam contra ele entraves e perseguições. Eis porque ele também é forçado a combater. Mas a época das lutas e perseguições sangrentas já passou, e as que ele tem de suportar são todas de ordem moral, sendo que o fim de todas elas se aproxima. As primeiras duraram séculos; as de agora durarão apenas alguns anos, porque a luz não parte de um só foco, mas irrompe de todos os pontos do globo, e abrirá mais depressa os olhos aos cegos.
18. Aquelas palavras de Jesus devem ser entendidas, portanto, como referentes à cólera que, segundo previa, a sua doutrina iria suscitar; aos conflitos momentâneos, que surgiriam como conseqüência; às lutas que teria de sustentar, antes de se firmar, como aconteceu com os hebreus antes de sua entrada na Terra Prometida; e não como um desígnio premeditado, de sua parte, de semear a desordem e a confusão. O mal devia provir dos homens, e não dele. A sua posição era a do médico que veio curar, mas cujos remédios provocam uma crise salutar, revolvendo os humores malignos do enfermo.

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Não Vim Trazer a Paz, mas a Divisão

Não se lê a Bíblia literalmente...

Não penseis que eu tenha vindo trazer paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada; – porquanto vim separar de seu pai o filho, de sua mãe a filha, de sua sogra a nora; – e o homem terá por inimigos os de sua própria casa. (S. MATEUS, 10:34 a 36.)


Vim para lançar fogo à Terra; e que é o que desejo senão que ele se acenda? – Tenho de ser batizado com um batismo e quanto me sinto desejoso de que ele se cumpra! Julgais que eu tenha vindo trazer paz à Terra? Não, eu vos afirmo; ao contrário, vim trazer a divisão; – pois, doravante, se se acharem numa casa cinco pessoas, estarão elas divididas umas contra as outras: três contra duas e duas contra três. – O pai estará em divisão com o filho e o filho com o pai, a mãe com a filha e a filha com a mãe, a sogra com a nora e a nora com a sogra. (S. LUCAS, 12:49 a 53.)



Resumo: Inicialmente, Kardec destaca que as palavras são de Jesus, apesar de a forma não favorecer o entendimento claro do pensamento que ele exprimia, já que sua missão era toda de paz. Destaca ainda que uma ideia nova encontra oposição, tanto maior quanto a importância dos resultados previstos. Assim, Jesus trazia uma ideia nova, toda de amor e bondade, que ia de encontro aos abusos dos fariseus, escribas e sacerdotes, gerando uma oposição que culminou com a morte de Jesus. Essa ideia, porém, sobreviveu à sua morte, pois que era verdadeira, engrandeceu-se e espalhou-se, enfrentando grandes lutas. Considera ainda que o Cristianismo surgiu na época propícia, quando o Paganismo já se apresentava exaurido. Quando as mesmas ideias foram trazidas por Sócrates, o povo, apesar de muito inteligente, ainda não estava preparado. Na época de Jesus, o caminho já estava aberto e os espíritos predispostos a essas ideias. Essas ideias, no entanto, também não foram bem compreendidas, gerando numerosas seitas que se lançaram em guerra umas contra as outras, por não compreender a ideia central do Cristo, que é a Caridade. Jesus quis dizer que sua doutrina não se estabeleceria pacificamente, que traria lutas sangrentas porque os homens não a teriam compreendido. Mas, de toda essa confusão, sairia triunfante a verdade. Assim, quando o campo estivesse preparado, seria enviado o Consolador, que restabeleceria todas as coisas, Kardec destaca ainda que o Espiritismo vem, na época prevista, realizar as promessas de Jesus, e, da mesma forma, enfrenta oposições, que agora não são mais sanguinolentas e sim de ordem moral, e que durarão menos do que as que o Cristianismo teve de enfrentar. Essas palavras de Jesus devem entender-se portanto, como a cólera que sua doutrina provocaria, em conflitos momentâneos, e não de uma ideia premeditada de causar confusão. O mal viria dos homens.
(Resumo de "O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 23, itens 9 a 18)


Explicação da passagem evangélica: Carlos Torres Pastorino, na obra Sabedoria do Evangelho, volume 3, explica que: “A doutrina pregada por Jesus torna-se, pois, a ocasião (embora não a causa) desses conflitos, que terminarão em perseguições violentas e sanguinárias, e “os inimigos do homem são os de sua própria casa", fato explicado com pormenores alguns séculos antes pela Bhagavad-Gita.


(...) A individualidade (Jesus) declara ter vindo "lançar fogo sobre a Terra". Com efeito, a matéria inerte e mesmo a vivificada pela força da vida animal e psíquica, pode considerar-se apagada se não tiver em si o "fogo" do Espírito desperto, consciente de si, a trabalhar pela evolução. Quem lança esse fogo nos seres humanos é a individualidade, ao assumir seu legítimo posto de supremacia na criatura humana. Para lançar, porém, esse fogo espiritual, a individualidade necessita mergulhar no corpo físico, encarcerando-se na carne; e durante toda a sua permanência nesse mergulho, vive angustiada (synéchomai), ansiosa por libertação, a fim de voar livre em seu mundo próprio.


O Espírito, individualização da Centelha Divina, quando consegue comunicar seu fogo próprio espiritual (o "mergulho de fogo", conforme Mt 3:11; Mc 1:8; Lc 3:16) ao ser humano, sente em si a alegria de vê-lo arder na espiritualização integral; no entanto, seu aprisionamento lhe faz sofrer todas as restrições de um cárcere cheio de lutas. Com efeito, o domínio da individualidade numa criatura lança-a em lutas titânicas externas, embora garantindo uma paz interior inabalável.


Mas a "descida" da individualidade traz, não a paz, à personalidade, mas a divisão em dois, a "dicotomia" entre matéria e espírito. Se bem que a matéria nada mais seja que a condensação (congelamento) do espírito, ocorre que, no momento de a individualidade assumir o comando, a personalidade adquire a consciência de uma dualidade, da nítida separação (dicotomia), com a característica de oposição entre espírito e matéria. Centenas, e talvez milhares de autores já se referiram a essa luta entre os dois pólos "opostos" (positivo e negativo, Sistema e Anti-Sistema, alma e corpo). Há pois razões ponderosas de afirmar que, no mergulho na carne, a individualidade vem produzir, de início, a dicotomia entre espírito e matéria.


Essa divisão, todavia, não reside unicamente nas extremidades opostas. Também os planos intermediários estarão sujeitos a ela. Assim, numa "casa” (ou seja, numa pessoa humana), onde há cinco pessoas (o pai: o espírito; a mãe: a inteligência; o filho: o corpo astral; com sua esposa: o duplo etérico; a filha: a carne), a luta entre os elementos é grande e contínua. O pai ("espirito") quer impor-se ao filho (corpo astral, emoções), mas estas se opõem a ele; a mãe (inteligência) quer superar a filha (a carne), mas esta se rebela e não quer obedecer a ela, vencendo-a com o sono, o cansaço, etc.; a sogra (ainda a inteligência) busca dominar a nora (as sensações físicas), mas estas são mais poderosas e levam de vencida a inteligência. Quem não conhece a dificuldade de a inteligência desarraigar hábitos (vícios) como de fumo, de bebidas, de gula, de preguiça, etc"? Ou os obstáculos causados à inteligência pela fadiga do corpo? Ou o descontrole que o espírito sofre, perturbado pelas emoções da cólera e da raiva, do amor descontrolado e do ciúme, etc.?



Bem razão tem a individualidade de proclamar que não veio "lançar a paz, mas a espada". E por isso, "os inimigos do homem são os de sua própria casa", isto é, as máximas lutas que uma criatura tem que enfrentar são, realmente, contra seus próprios veículos inferiores, que causam os maiores distúrbios e perturbações, obstáculos e embaraços na caminhada da senda evolutiva. Muito mais fácil derrotar um inimigo externo que a si mesmo: "vencedor verdadeiro é o que vence a si mesmo", lemos algures. Indispensável, pois, harmonizar os veículos entre si e depois sintonizá-los com o Espírito.


Daí a conclusão: não é digno do Espírito, do Cristo Interno, quem "mais ama seu pai ou sua mãe, seu filho ou sua filha". No sentido em que estamos examinando a questão, essas palavras exprimem os veículos mais densos (da personalidade): seu intelecto, suas emoções, suas sensações, seu comodismo.


Quem mais ama essas partes personalísticas do que ao Cristo Interno, não é digno do Cristo Interno: está voltado para as falsas realidades transitórias terrenas, externas a seu verdadeiro EU, ao invés de apegar-se à realidade real perene, eterna, infinita. Não é digno da realidade, quem se apega às aparências. Não é digno da individualidade eterna, quem valoriza mais a personalidade momentânea. Não é digno do Espírito quem lhe prefere a matéria. Não é digno do Cristo, quem lhe antepõe o mundo e suas ilusões.”


Bons estudos!
Carla e Hendrio

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O ADVERSÁRIO INVISÍVEL

À frente do Senhor, nos arredores de Sídon, quatro dos discípulos, após viagem longa por diferentes caminhos, a serviço da Boa Nova, relatavam os sucessos do dia, observados pelo Divino Amigo, em silêncio:
- Eu – dizia Pedro sob impressão forte -, surpreendido por quadro constrangedor. Impiedoso capataz batia, cruel, sobre o dorso nu de três mães escravas, cujos filhinhos choravam, estarrecidos. Um pensamento imperioso de auxílio dominou-me. Quis correr, sem detença, e, em nome da Boa Nova, socorrer aquelas mulheres desamparadas. Certo, não entraria em luta corporal com o desalmado fiscal de serviço, mas poderia, com a súplica, ajudá-lo a raciocinar. Quantas vezes, um simples pedido que nasce do coração aplaca o furor da ira?
O apostolo fixou um gesto significativo e acentuou:
- No entanto, tive receio de entrar na questão, que me pareceu intrincada...Que diria o perverso disciplinador? Minha intromissão poderia criar dificuldades até mesmo para nós...
Silenciando Pedro, falou Tiago, filho de Zebedeu:
- No trilho de vinda para cá, fui interpelado por jovem mulher com uma criança ao colo. Arrastava-se quase, deixando perceber profundo abatimento... Pediu-me socorro em voz pungente e, francamente, muito me condoí da infeliz, que se declarava infortunada viúva dum vinhateiro. Sem dúvida, era dolorosa a posição em que se colocara e, num movimento instintivo de solidariedade, ia oferecer-lhe o braço amigo e fraterno, para que se apoiasse; mas, recordei, de súbito, que não longe dali estava uma colônia de trabalho ativo...
O companheiro interrompeu-se, um tanto desapontado, e prosseguiu:
- E se alguém me visse em companhia de semelhante mulher? Poderiam dizer que ensino os princípios da Boa Nova e, ao mesmo tempo, sou motivo de escândalo. A opinião do mundo é descaridosa...
Outro aprendiz adiantou-se.
Era Bartolomeu, que contou, espantadiço:
- Em minha jornada para cá, não me faltou desejo à sementeira do bem. Todavia, que querem? Apenas lobriguei conhecido ladrão. Vi-o a gemer sob duas figueiras farfalhudas, durante longos minutos, no transcurso dos quais me inclinei a prestar-lhe assistência rápida... Pareceu-me ferido no peito, em razão do sangue e porejar-lhe da túnica; mas tive receio de inesperada incursão das autoridades pelo sítio e fugi... Se me pilhassem, ao lado dele, que seria de mim?
Calando-se Bartolomeu, falou Filipe:
- Comigo, os acontecimentos foram diversos... Quase ao chegar a Sídon, fui cercado por uma assembléia de trinta pessoas, rogando conselhos sobre a senda de perfeição. Desejavam ser instruídas quanto às novas idéias do Reino de Deus e dirigiam-se a mim, ansiosamente. Contemplavam-me, simples e confiantes; todavia, ponderei as minhas próprias imperfeições e senti escrúpulos... Vendo-me roído de tantos pecados e escabrosos defeitos, julguei mais prudente evitar a critica dos outros. A ironia é um chicote inconsciente. Por isso, emudeci e aqui estou.
Continuava Jesus silencioso, mas Simão Pedro caminhou para ele e indagou:
- Mestre, que dizes? Desejamos efetivamente praticar o bem, mas como agir dentro das normas de amor que nos traças, se nos achamos, em toda parte do mundo, rodados de inimigos?
O Amigo Celeste, porém, considerou, breve:
- Pedro, todos os fracassos do dia constituem a resultante da ação de um só adversário que muitos acalentam. Esse adversário invisível é o medo. Tiveste medo da opinião dos outros, Tiago sentiu medo da reprovação alheia, Bartolomeu asilou o medo da perseguição e Felipe guardou o medo da crítica...
Aflito, o pescador de Cafarnaum interrogou:
- Senhor, como nos livraremos de semelhante inimigo?
O Mestre sorriu compassivo e respondeu:
- Quando o tempo e a dor difundirem, entre os homens, a legítima compreensão da vida e o verdadeiro amor ao próximo, ninguém mais temerá.
Em seguida, talvez porque o silêncio pesasse em excesso, afastou-se sozinho, na direção do mar.


Pelo espírito: Irmão X

Livro: Pontos e Contos Psicografia Francisco Cândido Xavier