sexta-feira, 18 de julho de 2014

Retorno à simplicidade

SIMONE M. DE ALMEIDA PRADO
simone.aprado@yahoo.com
Orlândia, SP (Brasil)


Retorno à simplicidade

“Homens fracos, que compreendeis as trevas de vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina coloca entre vossas mãos para iluminar vosso caminho e vos conduzir, filhos perdidos, ao regaço do Pai.” (O Espírito de Verdade)


Quando Jesus veio ter conosco, trouxe consigo poderosa ferramenta de instrução: a simplicidade. Não poderia ser de outra forma. Na condição de Espírito puro, optou pela simplicidade desde o berço. Não nasceu entre os poderosos, não buscou títulos terrenos. Não exigiu aplausos ou cobrou impostos de gratidão e reconhecimento. Falava em tom pacífico, sereno, por vezes enérgico, franco, mas não menos caridoso ou desabrido. Mesmo usando de linguagem muitas vezes simbólica, Jesus não prescindiu da simplicidade nos atos e nas palavras. Consciente das inúmeras controvérsias que adviriam da letra humana, e compreendendo que a humanidade levaria séculos para assimilar a verdade de seus ensinamentos, o Mestre transmitiu a sabedoria divina de forma simples, na mais clara intenção de preservá-la pelos séculos porvindouros. A essência moral da mensagem evangélica prevaleceu e, no tempo certo, o Consolador prometido veio lembrar a beleza e a profundidade  das palavras de vida eterna, demonstrando a realidade do Espírito imortal, sempre amparado pela Misericórdia Divina.

"Que ouçam os que têm ouvidos para ouvir”, disse o Mestre. O Espiritismo é a chave que abre novos e vastos horizontes, fazendo luz nas sombras, falando ao coração e à razão. Seu advento marcou o retorno à simplicidade e à pureza do Cristianismo primitivo, desfigurado por interpretações mitológicas e ilusórias práticas de dominação e poder.

“O Espiritismo não criou igrejas, não precisa de templos suntuosos e tribunas luxuosas com pregadores enfatuados. Não tem rituais, não dispensa bênçãos, não promete lugar celeste a ninguém, não confere honrarias em títulos ou diplomas especiais, não disputa regalias oficiais. Sua única missão é esclarecer, orientar, indicar o caminho da autenticidade humana e da verdade espiritual do homem. Se não compreendermos isso e nisso não nos integrarmos, estaremos sendo pedras de tropeço para os que desejam realmente evoluir, não por fora, mas por dentro.” (PIRES, J. H.)

"Estamos convencidos, segundo as afirmativas dos nossos Benfeitores Espirituais, que a mais elevada função da Doutrina Espírita é a de restaurar os ensinamentos de Jesus com as elucidações de Allan Kardec, para a felicidade real das criaturas." (XAVIER, F. C./EMMANUEL)

O Espiritismo esclarece e confirma que na pureza dos ensinamentos de Jesus encontramos o caminho, a Verdade e a vida. Segundo Kardec, o verdadeiro espírita e o verdadeiro cristão são a mesma coisa. Como explicar então as estranhas práticas que temos aceitado, em nome do Espiritismo, e que vão de encontro à simplicidade adotada pelo Mestre? Por que permitir a introdução, nas casas espíritas, das chamadas terapias alternativas, sabendo que a casa espírita deve zelar pela pureza doutrinária, com vistas à transformação do ser humano de dentro para fora, e não o contrário?

Por qual motivo temos adotado métodos estranhos, advindos de outras crenças, nos trabalhos de desobsessão, ou aderindo a rituais e cerimônias com o fim de realizar casamentos entre adeptos da Doutrina, sabendo que tais posturas são totalmente incoerentes com a proposta espírita?

Por que temos esquecido de estudar as obras fundamentais de Allan Kardec para deitarmos os olhos em livros pobres no conteúdo e na forma, publicados sem qualquer cuidado e prudência, e muitas vezes em total desacordo com os conceitos espíritas?

Como justificar a exploração, o abuso e a vulgarização da mediunidade a pretexto de favorecer instituições de beneficência?

Praticamos o Espiritismo verdadeiro quando cobramos para divulgar a palavra evangélica, promovendo encontros e eventos dispendiosos, condicionando a participação dos ouvintes ao pagamento pelos benefícios espirituais que deverão receber? Onde a responsabilidade em manter acesa a chama do amor, da fé e da esperança, à maneira como nos foi passada pelo Mestre, a todos e ao alcance de todos?

Se o Consolador prometido nos relembra os ensinamentos  de Jesus, pautados na simplicidade que ilumina e eleva o Espírito acima de todos os interesses puramente terrenos, como reconhecê-lo na ausência de clareza e naturalidade nas tribunas, ou ofertando a palavra apenas a um grupo seleto de intelectuais, em desarmonia com a maioria do auditório? A simplicidade que marcou o verdadeiro Cristianismo e que o Espiritismo incorpora e apresenta na sua feição de Evangelho redivivo precisa ser estendida a todos os atos relacionados à sua prática e divulgação, nos mais diversos setores da seara.

Se o que nos move, dentro dos princípios que abraçamos, é a caridade desinteressada, lembremos “que a boa intenção passará sem maior benefício, caso não se ligue à esfera da realidade imediata na ação reta”. (XAVIER, F. C.)

Jesus está no leme, mas o espírita assume grave compromisso perante sua consciência. "O patrimônio inestimável dos postulados espíritas está em nossas mãos." (VIEIRA, W.)

“(...) temos deveres intransferíveis para com a Doutrina Espírita (...) precisamos guardar-lhe a limpidez e a simplicidade com dedicação sem intransigência e zelo sem fanatismo.” (XAVIER, F. C. /EMMANUEL e BARBOSA, E.)

Ontem, desvirtuamos o Cristianismo e arcamos com as consequências do nosso despreparo e imaturidade; hoje, nossa responsabilidade é bem maior: manter acesa a luz da Verdade, evitando que os velhos erros se repitam. Erros que atrasaram o progresso em muitos anos, por rejeitarem a simplicidade grandiosa exemplificada pelo Cristo.


Referências bibliográficas:

PIRES, J. H. Curso Dinâmico de Espiritismo. O Grande Desconhecido. Ed.: Paideia, São Paulo, SP, 2000, cap. IV;

Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo: Ed.: IDE, Araras, SP, 2010, cap. VI;

VIEIRA, W. Conduta Espírita. Ed.: FEB, Rio de Janeiro, RJ, 2009, p. 63;

XAVIER, F. C./EMMANUEL. A Terra e o Semeador. Entrevistas. Ed.: IDE, Araras, SP, 2005, p.76;

XAVIER, F. C./EMMANUEL;  BARBOSA, E. No mundo de Chico Xavier. Entrevistas. Ed.: IDE, Araras, SP, 2005, p. 95;

XAVIER, F. C. Pão Nosso, por Emmanuel. Ed.: FEB, Rio de Janeiro, RJ, 2009, lição 86.



Se não vos fizerdes como crianças… - Morel

“Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” Mateus 18:3

Toda a nossa evolução como espíritos imortais, todos os nossos conhecimentos e experiências estão dentro de nós. Tudo o que já vivemos, tudo o que já passamos, nesta e em outras reencarnações, está dentro de nós. Faz parte do nosso arquivo espiritual.

Nessa trajetória milenar você já animou inúmeras personagens, já experimentou situações e condições as mais diversas. Mas em todas as suas reencarnações há períodos em que você se faz mais próximo de Deus. Me refiro à infância.

A criança sente mais e pensa menos. É maravilhoso saber, compreender através do intelecto. Dou muito valor ao conhecimento intelectual. Podemos, num esforço de inteligência, tentar compreender Deus. E até podemos alcançar isso, por alguns instantes, mesmo que muito imperfeitamente.

Mas é pretensão demais querer compreender Deus intelectualmente com os escassos conhecimentos que temos. Nos achamos muito adiantados por causa da nossa tecnologia, mas esquecemos que somos espíritos presos a um grãozinho azul num ponto discreto do Espaço. Não temos capacidade de compreender Deus. Mas podemos sentir Deus.

Nunca tentei convencer um ateu da existência de Deus. Se ele não quer ou não consegue compreender através do intelecto, que é a parte mais fácil e acessível, como querer que ele sinta Deus?

As crianças sentem Deus com mais facilidade. Não o concebem pelo intelecto, não formulam conceitos e teorias. Mas sentem que existem, e que fazem parte de algo muito grandioso e bom. As crianças ainda não se deixaram envolver em raciocínios, não se deixaram enredar em pensamentos complexos dos quais é difícil de sair.

Quanto mais nos intelectualizamos, mais é difícil deixar de pensar. E para sentir Deus é preciso não pensar. É preciso apenas sentir, apenas ser e sentir que se é. Porque Deus é, Deus não está. Nós estamos, nós somos transitórios em nosso ego. Quando nós sentimos Deus, nós somos com Ele. Nós estamos enquanto seres transitoriamente encarnados, animando um corpo físico associado a um nome. Mas quando nós sentimos Deus, somos parte dEle, Ele é em nós, então, deixamos de estar para ser.

Para sentir Deus devemos ser iguais às crianças. Deixar de lado a racionalização, a lógica, o intelecto, e apenas ser. Nossa bagagem milenar está dentro de cada um de nós. Inclusive a criança que somos.

A criança que você foi está em você. Você é a criança que você foi um dia. Você se desfez de algumas coisas, acrescentou outras, mas em essência você permanece sendo a mesma criança, aberta à Vida, receptiva e sensível.

Não sei que idade você tem. Mas se você já se afastou um pouco da sua infância, fica mais fácil pra você analisar o que você pensava, o que você falava e o que você fazia quando era criança. Fica mais fácil pra você passar por cima das coisas que você não gostaria de ter feito e fez e das coisas que você gostaria de ter feito e não fez.

Você compreende a criança que você foi como se a criança fosse outra pessoa. E é mais fácil compreender e perdoar outra pessoa do que compreender e perdoar a si mesmo.  Você lembra bem da criança que você foi? Dos seus medos e dos seus fracassos? Dos seus sonhos e das coisas que lhe faziam feliz? Você é uma criança que cresceu. Adquiriu conhecimentos, assumiu responsabilidades, mas continua, em essência, a mesma criança simples e sensível.

Ame a criança que você é. É muito mais fácil encontrar Deus na simplicidade da criança que você é do que na complexidade intelectual do adulto que você se tornou.

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Bem-aventurados os Pobres de Espírito

Bem-aventurados os Pobres de Espírito

ESE, Capítulo VII

Estudo apresentado na Sociedade Espírita Irmão Francisco de Assis, Duas Barras, RJ, em 16 de abril de 2005

Renato Costa

Recordações

No poético e magnífico manual de vida que o Mestre nos legou, chamado pela tradição de “O Sermão da Montanha”, lembramos ter lido que, no elenco das bem-aventuranças, Jesus nos ensinou:

“Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”

Acreditando estar ouvindo tal afirmação vinda de Jesus, nosso entendimento atual fica, de imediato, confuso. Sem aceitar a primeira impressão que ela nos dá, recorremos ao Aurélio e, no verbete próprio, lemos a seguinte definição para a expressão “pobre de espírito”:

Pobre de espírito. Pessoa simplória, ingênua, parva, tola.

“O que é isso?”, nos perguntamos, surpresos.? É evidente, para nós, que o Mestre dos Mestres não estaria a dizer que o Reino dos Céus pertence aos parvos, aos tolos ou ingênuos. Somos espíritas e, como tal, nada deve ser aceito por nós como chega aos nossos sentidos, sem que antes analisemos a informação percebida usando da razão e do bom-senso. Desse modo, se a informação que nos chega nos parece absurda, cabe a nós investigarmos mais aprofundadamente a questão até que o sentido se faça. Façamo-lo, pois, sem mais delongas..

O que diz a Codificação

O Capítulo VII de O Evangelho Segundo o Espiritismo leva o título que demos ao nosso estudo, isto é, “Bem-aventurados os pobres de espírito”.

Como era de se esperar, dados a lógica impecável e o bom-senso lapidar do Consolador, ele abre o capítulo com o tema “O que se deve entender por pobres de espírito”, iniciando seus comentários com as seguintes sábias palavras:

“A incredulidade zombou desta máxima: Bem-aventurados os pobres de espírito, como tem zombado de muitas outras coisas que não compreende. Por pobres de espírito Jesus não entende os baldos de inteligência, mas os humildes, tanto que diz ser para estes o reino dos céus e não para os orgulhosos”.

e os concluindo com estas, não menos sábias:

“Dizendo que o reino dos céus é dos simples, quis Jesus significar que a ninguém é concedida entrada nesse reino, sem a simplicidade de coração e humildade de espírito; que o ignorante possuidor dessas qualidades será preferido ao sábio que mais crê em si do que em Deus. Em todas as  circunstâncias, Jesus põe a humildade na categoria das virtudes que aproximam de Deus e o orgulho entre os vícios que dele afastam a criatura, e  isso por uma razão muito natural: a de ser a humildade um ato de submissão a Deus, ao passo que o orgulho é a revolta contra ele. Mais vale, pois, que o homem, para felicidade do seu futuro, seja pobre em espírito, conforme o entende o mundo, e rico em qualidades morais.”

A explicação de Kardec é clara e faz total sentido, dando às palavras de Jesus o caráter que se pode esperar delas. Fica, no entanto, a dúvida. Se Jesus quis se referir aos humildes de espírito e aos simples de coração, por que ele usou a expressão “pobres de espírito” e não outra mais adequada?

Mas ... será que Jesus usou mesmo a expressão “pobres de espírito”?

Para conferir se a expressão usada pelo Mestre foi mesmo “pobres de espírito”, consultamos três edições da Bíblia em Português e uma na sua versão em Francês. Vejamos o resultado de nossa consulta:

Recorremos, primeiramente, uma edição feita pela Enciclopédia Barsa de uma das Bíblias católicas mais utilizadas no Brasil, isto é, a tradução feita pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo no século XVIII, com base na Vulgata Latina, tradução feita por Jerônimo no Século V. A outra tradução mais usada no Brasil é aquela feita pelo Padre Matos Soares, em 1930, igualmente a partir da Vulgata latina.

Como veremos abaixo, a fala de Jesus aparece transcrita nas traduções da Vulgata de forma idêntica a como aparece em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Essa constatação confirma o que era de se esperar, isto é, que a Bíblia em francês utilizada por Kardec era, também ela, uma tradução da Vulgata. Dizemos isso porque a comunidade católica, durante séculos, desde o Concílio de Trento, em 1546, até algum tempo após 1943, ano em que o Papa Pio XII liberou  oficialmente que novas traduções fossem feitas a partir dos originais, só tinha à sua disposição para consulta e estudo a Vulgata ou traduções da Vulgata para suas línguas nativas. E o que será que diz a Vulgata?

“Bem aventurados os pobres de espírito: porque deles é o reino dos céus”

Jesus (Mt: 5.3)

A expressão “pobres de espírito” foi traduzida para o português como para vários outros idiomas, tendo como base a tradução do grego existente na Vulgata latina, feita por Jerônimo, no final do século IV, quando os manuscritos originais hoje disponíveis, mais antigos e confiáveis, ainda não haviam sido encontrados. Divulgada por séculos em toda a comunidade católica como a única versão aceita pela Igreja, a Vulgata acabou imprimindo na memória dos milhões de Espíritos que reencarnaram nas comunidades católicas ao longo desse imenso período, a lembrança de Jesus ter dito que o reino dos céus seria herdado pelos pobres de espírito. Não é por outro motivo que muitos estudos atuais sobre o tema, mesmo em meios espíritas, costumam manter a tradução proveniente da Vulgata latina, ignorando ser ela tida pelos estudiosos da Bíblia como das menos confiáveis.

A segunda Bíblia que consultamos foi uma edição em português, pela Editora Ave Maria, da tradução feita pelos Monges de Mardesous. Esta tradução foi feita para o francês a partir dos originais em hebraico e grego, tendo já contado com manuscritos descobertos mais recentemente. Foi publicada somente em 1957. Mais confiável, pelas razões expostas, que as traduções feitas a partir da Vulgata, veremos que ela  dá um significado compreensível às palavras de Jesus:

“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é  o reino dos céus!”

Jesus (Mt: 5.3)

Quem tem um coração de pobre são os humildes. E que os humildes venham a herdar o reino dos céus faz sentido, apesar de ainda nos parecer uma afirmação um tanto vaga para ter vindo do Mestre dos mestres. Afinal, um pobre pode ter o coração humilde externado no seu comportamento social, mas pode, por outro lado, ser revoltado com sua situação e, desse modo, não possuir humildade moral.

A terceira Bíblia consultada foi uma edição digital da chamada edição revisada de Almeida. A tradução para o português iniciada por João Ferreira de Almeida no século XVII não seguiu à Vulgata, pois o autor se havia convertido à fé protestante, tendo ele e seus sucessores se baseado nos originais em aramaico e grego disponíveis então. A chamada “edição revisada de João Ferreira de Almeida”, publicada em 1967, seguiu os melhores manuscritos originais hoje conhecidos, gozando, assim, de boa consideração pelos estudiosos atuais. A transcrição dela é a seguinte:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus”

Jesus (Mt: 5.3)

A expressão “humildes de espírito” nos parece precisa, pois o adjetivo humilde, como vimos, pode ser entendido como acanhado, tímido, mas, quando ouvimos falar em “humilde de espírito”, sabemos que estamos falando de uma qualidade moral e não de um aspecto comportamental.

A Bíblia de Jerusalém, preparada a partir dos anos da segunda guerra e que teve sua primeira versão brasileira publicada em 1981 pela Editora Paulina, foi por nós consultada em sua versão revisada, editada em francês em 1973. Diz ela:

“Felizes os pobres em espírito, pois o reino dos céus a eles pertence”

O pobre em espírito certamente é humilde pois se sabe necessitando de ajuda para crescer. Mais que isso, ele sabe que a ajuda que necessita é espiritual pois é nesse aspecto que está sua pobreza. Resta certo, portanto, que ele ora a Deus e aos bons Espíritos suplicando tal ajuda ao mesmo tempo em que se esforça para enriquecer seu espírito com as virtudes das quais se vê carente.

Vejamos, finalmente, o que nos ensina o Professor Pastorino em A Sabedoria do Evangelho:

“Uma variedade imensa de traduções tem sido dada às palavras de Mateus ptôchoi tôi pnéumati. Vamos analisá-las. O primeiro elemento, ptóchos, significa, exatamente, ”aquele que caminha humilde a mendigar". Sua construção normal com acusativo de relação poderia significar o que costumam dar as traduções correntes: "mendigos (pobres, humildes) no (quanto ao) espírito".

Acontece, porém, que aí aparece construído com dativo. à semelhança de tapeinoús tôi pnéumati (Salmo 34: 18), "submissos ao Espírito"; ou zéôn tôi pnéumati (At. 18:25), "fervorosos para com Espírito"; ou hagía kai tôi sôrnati kaì tôi pnéumati (1 Cor. 7:34), "santos tanto para o corpo, como para com o espírito".

Após havermos considerando numerosas traduções, aceitamos a que propôs José de Oiticica, MENDIGOS DE ESPIRITO, por ser mais conforme ao original grego, e por ser a mais lógica e racional: pois realmente são felizes aqueles que mendigam o Espírito; aqueles que, algemados ainda no cárcere da carne, buscam espiritualizar-se por todos os meios ao seu alcance, pedem, imploram, mendigam esse Espírito que neles reside, mas que tão oculto se acha.”

Humildes de espírito, hunldes em espírito ou mendigos de espírito são traduções que levam, em nossa opinião, ao mesmo entendimento, pois aquele que é humilde de espírito ou em espírito sabe-se no início da jornada e tem consciência da ajuda que precisa da Espiritualidade, a ela recorrendo com freqüência em suas preces.

O que Jesus quis nos ensinar, portanto, é que o reino dos céus, aquele estado que está no mais íntimo do nosso ser e que nós, no mais das vezes, desconhecemos, só será atingido pelos humildes que, com paciência e perseverança buscam as coisas do espírito, procurando, a cada dia, sem cessar, ser um pouco melhores que no dia anterior, aceitando as expiações e provações por que passam como lições a serem aprendidas, jamais se revoltando contra a vida ou contra Deus e constantemente orando à Espiritualidade Maior para que os ajude nessa empreitada.

Como podemos ver, mesmo com a tradução precária que Kardec tinha nas mãos, o Codificador soube, inspirado pela falange de Espíritos de escol, liderada por Jesus, utilizar a razão e o bom-senso para captar a verdadeira mensagem do Mestre.

Os Dois Caminhos da Humildade

Sabemos, da Codificação, que o Espírito necessita evoluir em Conhecimento e Bondade para alcançar a perfeição.

A evolução predominante em uma das sendas evolutivas, com descaso pela outra, causa distorção, não sendo dela que estamos falando. Espíritos que evoluem em conhecimento, negligenciando a bondade, revelam-se como os grandes líderes das trevas que tanto mal fazem à humanidade antes de se darem conta de sua distorção evolutiva e tomarem o caminho do bem. Espíritos que ignoram a necessidade de conhecimento, julgando que, para evoluírem, só precisam ser bons, ignoram oportunidades preciosas de praticar o bem por serem incapazes de identificá-las, devido à sua falta de conhecimento, até que, frustrados pelo pouco que logram realizar, aceitam instruir-se, compreendendo que o conhecimento é necessário para melhor praticar a bondade para com o próximo.

Por outro lado, é de se esperar que, aquele que evoluiu notadamente em conhecimento, mas sem deixar de evoluir em bondade, demonstre a mesma humildade que aquele outro que tenha evoluído de forma destacada na senda da bondade, tampouco deixando de evoluir em conhecimento. Vejamos se é assim que acontece.

A Humildade na Senda do Conhecimento

Sócrates, o grande pensador grego da antiguidade, nos legou o ensinamento:

“O sábio é aquele que sabe que nada sabe”.

A humildade é uma característica de quem estuda muito, pois aquele que estuda pouco e fica satisfeito, o faz por julgar que tudo sabe, ao passo que quem deseja realmente entender um campo do saber, jamais para de estudá-lo por perceber que, quanto mais o estuda, mais se lhe abre a compreensão do quanto ainda falta estudar.

Isaac Newton é considerado o Pai da Física Moderna. Incluído pela história entre os grandes Gênios da Humanidade, quando, uma vez, o cobriam de elogios pela sua obra, ele afirmou:

“Se pude ver mais longe é porque me ergui sobre os ombros de gigantes.”

A humildade refletida por essa frase de Newton está no entendimento de que ninguém, sozinho, descobre coisa alguma, inventa nada, cria o que quer que seja. Toda conquista do saber humano é uma obra coletiva, uns partindo de onde outros pararam e parando onde outros irão começar.

Albert Einstein, inquestionavelmente, o maior gênio do século XX, era, segundo aqueles que o conheceram, totalmente imune a louvores, ofensas, sucessos ou fracassos. Nada disso, que tanto abala a maioria dos homens, tinha significado algum para o seu estado emocional.

A humildade de Einstein nos ensina que devemos nos manter imperturbáveis quando em busca do saber, conscientes de que, sempre que erramos, poderemos, mais tarde, reparar o erro e ir e frente e que, sempre que nos elogiam ou nos ofendem, isso em nada irá alterar para melhor ou para pior nossas chances de obter sucesso se nos dedicarmos a tal.

Em seu exemplar de 12 de dezembro de 2004, o periódico americano “The New York Times” trouxe a público uma entrevista com o Professor Stephen Hawking. Nessa entrevista, uma pergunta feita ao notável físico inglês merece especial atenção para o proveito de nosso estudo.

“Como podemos saber se o senhor se qualifica como um físico genial, como invariavelmente o descrevem?”, perguntou a entrevistadora.

Ao que o Prof. Hawking respondeu:

“A mídia tem necessidade de super-heróis na ciência, como em todas as esferas da vida, mas o que existe, na verdade, é uma faixa contínua de habilidades, sem qualquer linha divisória clara.”

Aqui, vemos outro aspecto da humildade na senda do conhecimento. Não existem gênios, pessoas medianas e indivíduos parvos. A estratificação da raça humana em classes é necessária para nossa melhor compreensão, mas não corresponde à realidade. Uma faixa contínua de habilidades, sim. Com humildade devemos perceber que, se somos muito bons em uma área do conhecimento, nada sabemos de uma outra que, por certo, é dominada por outra pessoa. Logo, nem nós nem a outra pessoa somos gênios, apenas pontos discretos num imenso mapa de saber onde se espalha toda a humanidade.

A Humildade na Senda da Bondade

Uma vez, orando fervorosamente defronte a um crucifixo na velha capela abandonada de São Damião, na cidade de Assis, Francisco ouviu a exortação de Jesus:

“Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Restaurá-a para mim!”.

Em sua humildade, aquele grande Espírito pensou que o Mestre se referia à capela abandonada onde ele estava a orar e, de pronto, com suas próprias mãos, começou a restaurá-la. Na verdade, Jesus se referia à Igreja como instituição, convertida que se tinha em uma sociedade política e militar, tendo abandonado por completo os ensinamentos que Ele nos havia trazido. Ao longo dos anos seguintes, Francisco se engajou de corpo e alma na tarefa de trazer essa Igreja de volta ao rumo certo. Mas o fez desposando-se da pobreza, sempre humilde, sabendo ser a cada instante, como Jesus nos havia ensinado:

“... aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos”.

A Humildade Conquistada em Um e no Outro Caminho São Excludentes?

A separação que fizemos entre a humildade conquistada no caminho do conhecimento e aquela conquistada no caminho da bondade tem o propósito, exclusivamente, didático. Ë inconcebível que um Espírito de grande adiantamento intelectual, que tenha chegado ao estágio de ser humilde em relação ao seu conhecimento, se ufane de atos de bondade que porventura pratique. Do mesmo modo, é impensável que um Espírito seja capaz de um imenso amor pelo semelhante  sem disto se jactar e, ao mesmo tempo, se envaideça do seu conhecimento em alguma área do saber.

A corroborar o que acabamos de dizer, veremos, analisando os homens da ciência citados mais acima, que os três demonstraram evolução moral e entendimento das questões espirituais, ingredientes suficientes para os sabermos humildes na senda da bondade.

Segundo registra a história, Newton, na fase mais criativa de sua produção científica, teve sua atenção voltada para as questões espirituais. Rejeitando os ensinamentos religiosos de então, pesquisou obras teológicas antigas e a alquimia em busca de uma exegese bíblica que fizesse sentido para o seu gênio inquiridor. Tornou-se um unitariano, reedição inglesa do século XVIII do arianismo, doutrina que negava a Trindade, pregando a unicidade de Deus, e que havia sido condenada pelo Concílio de Nicéia, no ano de 325. Como podemos ver, Newton tinha preocupações de ordem espiritual. Ao longo de sua vida, ele fez o melhor que pode para conciliar seu conhecimento científico com o entendimento das coisas espirituais, para tanto indo buscar, na sabedoria antiga, valores que a religião dita do Cristo há muito havia abandonado.

Einstein procurou Deus na natureza que, com tanto amor, ele estudou. Para ele, Deus se expressava na natureza através de suas leis. Einstein acreditava em Deus como a alma do Universo, sendo, por isso, julgado ateu por muitos de seus contemporâneos, acostumados ao deus pessoal que cuida de cada uma de nossas necessidades pessoais. Quão próximo é esse entendimento de Einstein daquele expresso pela resposta à primeira questão de O Livro dos Espíritos!

Uma frase magistral de Einstein precisa ser analisada neste estudo. Disse ele uma vez: “Deus resiste aos soberbos mas dá Sua graça aos humildes.” Quanta sabedoria nessa frase!  A experiência pessoal de cada um de nós já nos deve ter mostrado que, quando nos ensoberbamos, julgando que o sucesso nos será certo, devido à nossa capacidade intelectual e dedicação, ele nos escapa, enquanto que, nas ocasiões em que nos fizemos humildes e, além de darmos tudo de nós, oramos pela ajuda divina, o sucesso nos vem sem demora.

Na mesma entrevista citada mais acima, a repórter do New York Times perguntou a Stephen Hawkin:

Você acredita em Deus?

Ao que Stephen Hawking respondeu:

Eu não acredito em um Deus pessoal.

O Prof. Hawkin, como maioria dos cientistas, sobretudo os físicos, é um agnóstico. Isso não impede, no entanto, que quando ele pondera sobre Deus fora da sua atividade científica, ele o faça utilizando seu raciocínio e o faz, como se vê, negando a possibilidade de um Deus pessoal e mostrando, assim, estar em total sintonia com o entendimento espírita nessa questão. Afinal, como nos ensinaram os Espíritos, Deus é a Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas. Nada pode ser tão diferente de um Deus pessoal, não é mesmo?

Para quem tem dificuldade em ver o adiantamento moral do Professor Hawking, basta conhecer sua figura imóvel e contorcida, sentado em uma cadeira de rodas e falando através de um sintetizador de voz. Acometido de uma doença neurológica chamada de esclerose lateral amiotrópica, quando ainda na faculdade, Hawking conta em suas biografias que se sentiu feliz por ter escolhido física teórica como campo de estudo, o que não lhe requereria qualquer esforço físico. Sempre bem humorado e extremamente produtivo como pesquisador, Hawking é uma demonstração viva de que como é possível superar as limitações do corpo físico e ter uma vida plena, cumprindo a missão que se traz ao mundo.

Para melhor entendermos o porque de a humildade intelectual e a humildade moral estarem sempre juntas, é bom recorrermos a O Livro dos Espíritos. Na Questão 780, Kardec perguntou aos Espíritos:

780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

ao que os Espíritos responderam:

“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.”

Continuou o Codificador:

a)        Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?

Tendo esclarecido os Espíritos:

“Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”

Por último Kardec quis saber:

b)        Como é, nesse caso, que, muitas vezes, sucede serem os povos mais instruídos os mais pervertidos também?

Tendo os Espíritos respondido:

“O progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. O moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.”

Quem se revela humilde na senda do saber já avançou bastante moralmente para perseguir o progresso na senda da bondade e o faz com a humildade já conquistada.

A conquista da humildade é, portanto, o ponto de equilíbrio entre a inteligência e a moral.

 Jesus, Humilde em Espírito por Excelência

 Contam os evangelhos canônicos (Mc 10, 17 e Lu 18, 18) que, em dada ocasião, aproximou-se um jovem de Jesus e perguntou:

“Bom Mestre, o que é preciso que eu faça para adquirir a vida eterna?”

Ao que o Mestre respondeu:

“Por que me chamais bom? Só Deus é bom.”

Jesus foi o exemplo maior de humildade. De Si nunca disse nem mais nem menos do que realmente era.

Quando afirmou, conforme relata João, “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 14, 11) ou “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim.” (Jo 14, 14), nada falava além da verdade que tão bem conhecemos. A quantos milhões de anos Jesus tem cuidado de nós, jamais abandonando a uma só de suas amadas ovelhas? Mais do que o sofrimento no Gólgota, é essa dedicação contínua por nós que mostra o quanto Jesus tem dado a vida por nós. E quem tem dúvida de que Jesus, ao longo desse tempo imenso, conhece a cada um de nós na mais profunda intimidade?

Quando Jesus disse “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida...” (Jo 14,6) , cada atributo desses reflete a mais pura verdade. Jesus é, de fato, o caminho, sendo por todos sabido que quem segue os Seus passos chegará mais cedo à perfeição. É, sem dúvida, a verdade, uma vez que nada que saiu de Sua boca jamais deixou de representar a verdade em sua mais pura essência. É, sem sombra de dúvida, a vida, a verdadeira vida, pois seu exemplo nos mostra como estar neste mundo sem a ele pertencer, como aproveitar ao máximo o nosso potencial de  “vivos”, no entender profundo do termo, representando aqueles que despertaram para o sentido da existência. Tudo o que Jesus disse de si foi exatamente o que Ele é, sem aumentar nem diminuir nada.

Espírito de imensa envergadura, responsável maior pelo nosso orbe e pela humanidade terrena, Jesus poderia ter escolhido nascer em berço de ouro, filho, talvez, do poderoso imperador romano. No entanto, preferiu nascer em um estábulo, na simplicidade de uma classe humilde e em uma nação dominada.

Questionado pelos poderosos da época quanto ao fato de se misturar com os excluídos, chamados de pecadores por aqueles que se julgavam sem culpa, o Mestre replicava “Os sãos não precisam de médicos e, sim, os doentes.” (Mt 9,12; Mc 2, 17 e Lu 5, 31). Quando queriam, ora endeusá-lo, ora condená-lo pelos notáveis prodígios que fazia, Ele apenas respondia que as obras que fazia era o Pai que fazia através d’Ele, exortando-nos a fazer obras iguais ou até maiores, como relata João (Jo 14, 12).

Toda a vida de Jesus entre nós foi uma aula de humildade. Jesus poderia ter sido rei na Terra, mas Ele não tinha vindo para isso. Poderia ter sido um grande rabino de seu tempo, o maior de todos, mas não era essa a missão a que se tinha proposto. Poderia ter sido um mago, respeitado e temido por todos, mas tal não era a sua natureza.

Quanto mais evoluído um Espírito menos ele valoriza seu estágio evolutivo diante dos homens, pois, ao evoluir, todos os sentimentos ligados ao ego vão sendo abandonados.

Aquele que se Eleva será Rebaixado

Tendo esclarecido o que o Mestre queria dizer por Pobres de Espírito no sermão das Bem-aventuranças, Kardec apresenta, na seqüência de O Evangelho Segundo o Espiritismo, três passagens, que abaixo transcrevemos, realçando a mensagem que devemos fixar:

Por essa ocasião, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram:“Quem é o maior no reino dos céus?” - Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: “Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus. - Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus - e aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe.” (Mateus, XVIII, 1 a 5.)

Então, a mãe dos filhos de Zebedeu se aproximou dele com seus dois filhos e o adorou, dando a entender que lhe queria pedir alguma coisa. - Disse-lhe ele: “Que queres?” “Manda, disse ela, que estes meus dois filhos tenham assento no teu reino, um à sua direita e o outro à sua esquerda.” - Mas, Jesus respondeu, “Não sabes o que pedes; podeis vós ambos beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: Podemos.” - Jesus lhes replicou: “É certo que bebereis o cálice que eu beber; mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o tem preparado.” - Ouvindo isso, os dez outros apóstolos se encheram de indignação contra os dois irmãos. - Jesus, chamando-os para perto de si, lhes disse: “Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes os tratam com império. - Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; - do mesmo modo que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos.” (Mateus, XX, 20 a 28)

Jesus entrou em dia de sábado na casa de um dos principais fariseus para aí fazer a sua refeição. Os que lá estavam o observaram. - Então, notando que os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola, dizendo: “Quando fordes convidados para bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada do que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-vos: dai o vosso lugar a este, e vos vejais constrangidos a ocupar, cheios de vergonha, o último lugar. - Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa; - porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado." (Lucas, XIV, 1 e 7 a 11.)

Como o reino dos céus não se encontra ali ou acolá, mas no mais íntimo de nós, ser grande no reino dos céus não significa uma posição de destaque em relação aos outros, um parâmetro com que possamos nos avaliar melhores ou maiores que alguma outra pessoa. Ser grande no reino dos céus é uma vitória íntima que relaciona, entre os inimigos derrotados, o orgulho, a vaidade, a inveja, o desdém e todos os sentimentos negativos que nos fazem avaliar os outros com base em nós mesmos e a nós mesmos com base nos demais.

A busca humilde do reino dos céus exige disciplina e força de vontade. Assim, a postura que assumimos diante dos outros deve ser objeto constante de nossa vigilância. A postura que temos em lugar público, em nosso lar ou no movimento espírita deve ser a de humilde servidor. Se isso nos é difícil assumir no íntimo, que, pelo menos, nos esforcemos para que tal seja nosso comportamento exterior. De tanto nos disciplinarmos para não externar emoções negativas, elas aos poucos vão desaparecendo do nosso psiquismo. Sim, porque a vaidade e o orgulho se alimentam de elogios, agradecimentos efusivos, comemorações. Quando não externamos vaidade, quando não deixamos transparecer o prazer que nos dão os elogios, as outras pessoas, aos poucos, deixam de nos louvar as qualidades e, em persistindo nossa determinação, com o tempo, nosso sentimento se vai modificando para melhor.

Podemos estar com o coração inflado de orgulho pelos nossos feitos, mas, já que nossos sentimentos se encontram camuflados em um corpo físico, saibamos usar dessa facilidade para não externarmos nossas emoções. Mantenhamos o rosto sereno perante elogios que se nos dirijam, evitando responder com agradecimentos efusivos ou contestações veementes, que, no fundo, somente realçam o que foi dito por aquele que nos enalteceu. Se, em qualquer ocasião formos elogiados, saibamos sorrir discretamente, fazer uma pequena mesura com a cabeça ou algum outro gesto sutil que demonstre educação, simpatia, mas não revele concordância com o que foi dito e deixe claro que a manifestação não nos perturbou.

Podemos nos considerar importantes pela nossa posição na sociedade, mas saibamos ser gentis e prestativos para com quem quer que seja, principalmente, porém, para com aqueles que a sociedade vê como párias, destituídos, estropiados. O adiantamento moral de um indivíduo não se revela em sua indumentária, na sua profissão ou na educação que possui. Sejamos servos de todos, dos que nos são superiores na vida social, dos que nos são subordinados e daqueles outros com que travamos contato ao longo da existência. Servir com humildade não é baixar a cabeça, estar todo o tempo a olhar para o chão, sentar sempre no canto mais escuro e frio de uma sala. Não, servir com humildade é manter a cabeça erguida, mas sem jamais olhar os outros de cima para baixo. Servir com humildade é olhar nos olhos de todos com serenidade, sejam eles os poderosos do mundo ou os mais humildes rejeitados e, ma medida de nossas possibilidades, tudo fazermos para ajudá-los em sua senda evolutiva. Servir com humildade é sentar, sempre que possível, perto de um irmão ou irmã que precise de nosso apoio, seja na forma de um ouvido amigo a escutar suas lamentações e a lhe aconselhar no que for possível, seja na de um companheiro silencioso, em prece compenetrada  enviando vibrações de amor para lhe acalmar a mente confusa.

Toda vez que prestarmos um serviço fraterno a quem quer que seja, se, no íntimo, nosso coração aceitar o agradecimento sincero da boca do beneficiado, que nossas palavras e a expressão de nosso rosto não traiam essa nossa fraqueza e saibamos, sabedores da vontade do Pai, retrucar com simplicidade: “somos nós que agradecemos pela oportunidade de sermos úteis”. Martelemos esse entendimento em nossa mente até que ela ali se fixe, pois ele reflete a mais pura realidade. Cada pessoa que, aparentemente, necessita de nossa ajuda, está, na realidade, a nos ajudar, pois é ajudando a quem necessita que resgatamos nossas dívidas para com a harmonia do Universo.

No movimento espírita não procuremos um lugar de honra. Quem fica na memória do povo não é aquele alto dirigente de grande instituição, mas, antes, o outro, humilde trabalhador da seara de Jesus. Não estamos falando em tese, estamos? Aprendamos com o passado para sabermos evitar a repetição de nossos erros. Lembremo-nos sempre do que Jesus nos ensinou:

“aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; e,
aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo”

Mistérios Ocultos aos Doutos e aos Prudentes

Disse, então, Jesus estas palavras: "Graças te rendo, meu Pai, Senhor do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos." (Mateus, XI, 25.)

Na seqüência de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec interpreta as palavras de Jesus na passagem acima transcrita, identificando os doutos e prudentes da fala do Mestre com os “orgulhosos, envaidecidos do seu saber mundano, os quais se julgam prudentes porque negam e tratam a Deus de igual para igual, quando não se recusam a admiti-lo, porquanto, na antigüidade, douto era sinônimo de sábio”.

Mais adiante, ele, também, associa aos doutos da fala de Jesus, os incrédulos, que exigem provas das propostas espíritas do modo que lhes convém, jamais descendo do pedestal a que se alçam para, humildemente, investigar os fatos e concluírem por eles mesmos o que não aceitam quando proveniente do raciocínio alheio. Julgam estarem corretos pelo fato de assunto de tal importância demandar prudência. Como se sermos prudentes significasse tudo fazermos segundo nossos critérios, tomando os mesmos como infalíveis e aplicáveis a quaisquer problemas.

Sejam, portanto, os que se recusam por completo a considerar as questões espíritas ou aqueles que apenas concedem considerá-las segundo seus critérios de análise, todos podem ser relacionados com os doutos e prudentes da fala do Mestre. Não é a verdade que se esconde deles mas antes eles que, não aceitando a verdade quando a mesma é proclamada por outros, tampouco procuram investigar o que é afirmado, em postura orgulhosa que lhes fecha os olhos ao saber.

No mundo atual ainda encontramos as duas espécies de posturas mencionadas. Entre os primeiros estão, por exemplo, os que se põem a provocar os espíritas perguntando o porque de não se demonstrar os fatos mediúnicos naTV. Por mais que se lhes explique que os Espíritos sérios não se prestam a espetáculos, convidando-os a investigar os fenômenos onde o mesmo habitualmente ocorre, fingem que nada ouvem, repisando cansativamente na mesma tecla. No segundo grupo vemos certos autoproclamados investigadores da parapsicologia, que montam experiências segundo suas próprias idéias com o intuito de provar que os fatos espíritas são uma fraude. Ora, mesmo em se aceitando que tais experiências sejam honestas, devemos ponderar quanto ao tipo de Espírito que se prestará a tais experiências. Serão Espíritos interessados na evolução humana?  Pelas conclusões a que tais pesquisadores chegam, acreditamos que não. Afinal, se levarmos ao pé da letra tais conclusões, tudo o que podemos aceitar como válido é matéria, algo que a própria ciência já aceita não corresponder à realidade.

Como pudemos ver em nosso estudo das duas sendas da humildade, os verdadeiros sábios são humildes. Então, que sábios são esses a quem a verdade é ocultada? Uma breve leitura da Escala Espírita nos fornece a resposta a essa indagação. Na Oitava Classe da Terceira Ordem (Espíritos Imperfeitos), encontramos:

Espíritos Pseudo-Sábios - Dispõem de conhecimentos bastante amplos, porém, crêem saber mais do que realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles aparenta um cunho de seriedade, de natureza a iludir com respeito às suas capacidades e luzes. Mas, em geral, isso não passa de reflexo dos preconceitos e idéias sistemáticas que nutriam na vida terrena. É uma mistura de algumas verdades com os erros mais polpudos, através dos quais penetram a presunção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não puderam despir-se.

Bibliografia

OLIVEIRA, Therezinha. Na Luz do Evangelho. Campinas: Editora Allan Kardec, 2004.

PASTORINO, Carlos Torres. A Sabedoria do Evangelho. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1965.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 112 Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

Id. O Livro dos Espíritos. 76 Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

KFOURI, Lúcia Amaral. Um Homem chamado Einstein. In Tribuna Espírita, Ano XX!!, no 123, Jan/Fev 2005. João Pessoa.

ZENGO, Zakeu A. A Bíblia é Confiável, apesar de Tudo. Obtido de  http://www.zzengo.hpg.ig.com.br/biblia_ciencia.htm em 13 de março de 2005.

A Bíblia Sagrada. Versão de João Ferreira de Almeida,  Revista e Atualizada. Obtido de http://www.bibliaonline.org em 22 de julho de 2004.

Bíblia Sagrada. Tradução dos Monges de Maredsous. 112 Ed. São Paulo: Ave Mara, 1997.

Bíblia Sagrada. Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo. Barsa, 1967.

Newton, Pai da Física Moderna. Série Gênios da Ciência. Scientific American Brasil. São Paulo: Ediouro, 2005.

Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

Versões da Bíblia. Obtido de http://www.pilb.hpg.ig.com.br/versoesBiblias.htm em 13 de março de 2005.

Aquele que se Eleva será Rebaixado

Aquele que se Eleva será Rebaixado

3. Por essa ocasião, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram: “Quem é o maior no reino dos céus?” – Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: “Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus. – Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus – e aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe.” (S. MATEUS, cap. XVIII, vv. 1 a 5.)
4. Então, a mãe dos filhos de Zebedeu se aproximou dele com seus dois filhos e o adorou, dando a entender que lhe queria pedir alguma coisa. – Disse-lhe ele: “Que queres?” “Manda, disse ela, que estes meus dois filhos tenham assento no teu reino, um à sua direita e o outro à sua esquerda.” – Mas, Jesus respondeu, “Não sabes o que pedes; podeis vós ambos beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos.” – Jesus lhes replicou: “É certo que bebereis o cálice que eu beber; mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o tem preparado.” – Ouvindo isso, os dez outros apóstolos se encheram de indignação contra os dois irmãos. – Jesus, chamando-os para perto de si, lhes disse: “Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes os tratam com império. – Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; – e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; – do mesmo modo que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos.”
(S. MATEUS, capítulo XX, vv. 20 a 28.)
5. Jesus entrou em dia de sábado na casa de um dos principais fariseus para aí fazer a sua refeição. Os que lá estavam o observaram. – Então, notando que os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola, dizendo: “Quando fordes convidados para bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada do que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-vos: dai o vosso lugar a este, e vos vejais constrangidos a ocupar, cheios de vergonha, o último lugar. – Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa; – porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado.” (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 1 e 7 a 11.)
6. Estas máximas decorrem do princípio de humildade que Jesus não cessa de apresentar como condição essencial da felicidade prometida aos eleitos do Senhor e que ele formulou assim: “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que o reino dos céus lhes pertence.” Ele toma uma criança como tipo da simplicidade de coração e diz: Será o maior no reino dos céus aquele que se humilhar e se fizer pequeno como uma criança, isto é, que nenhuma pretensão alimentar à superioridade ou à infalibilidade.
A mesma idéia fundamental se nos depara nesta outra máxima: Seja vosso servidor aquele que quiser tornar-se o maior, e nesta outra: Aquele que se humilhar será exalçado e aquele que se elevar será rebaixado.
O Espiritismo sanciona pelo exemplo a teoria, mostrando-nos na posição de grandes no mundo dos Espíritos os que eram pequenos na Terra; e bem pequenos, muitas vezes, os que na Terra eram os maiores e os mais poderosos. E que os primeiros, ao morrerem, levaram consigo aquilo que faz a verdadeira grandeza no céu e que não se perde nunca: as virtudes, ao passo que os outros tiveram de deixar aqui o que lhes constituía a grandeza terrena e que se não leva para a outra vida: a riqueza, os títulos, a glória, a nobreza do nascimento. Nada mais possuindo senão isso, chegam ao outro mundo privados de tudo, como náufragos que tudo perderam, até as próprias roupas. Conservaram apenas o orgulho que mais humilhante lhes torna a nova posição, porquanto vêem colocados acima de si e resplandecentes de glória os que eles na Terra espezinharam.
O Espiritismo aponta-nos outra aplicação do mesmo princípio nas encarnações sucessivas, mediante as quais os que, numa existência, ocuparam as mais elevadas posições, descem, em existência seguinte, às mais ínfimas condições, desde que os tenham dominado o orgulho e a ambição. Não procureis, pois, na Terra, os primeiros lugares, nem vos colocar acima dos outros, se não quiserdes ser obrigados a descer. Buscai, ao contrário, o lugar mais humilde e mais modesto, porquanto Deus saberá dar-vos um mais elevado no céu, se o merecerdes.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VII itens de 3 a 5.

Bem-aventurados os pobres de espírito

Bem-aventurados os pobres de espírito

O que se deve entender por pobres de espírito - Aquele que se eleva será rebaixado - Mistérios ocultos aos doutos e aos prudentes - Instruções dos espíritos - O orgulho e a humildade - Missão do homem inteligente na Terra

O que se deve entender por pobres de espírito

1. Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o reino dos céus. (S. MATEUS, cap. V, v. 3.)

2. A incredulidade zombou desta máxima: Bem-aventurados os pobres de espírito, como tem zombado de muitas outras coisas que não compreende. Por pobres de espírito Jesus não entende os baldos de inteligência, mas os humildes, tanto que diz ser para estes o reino dos céus e não para os orgulhosos.

Os homens de saber e de espírito, no entender do mundo, formam geralmente tão alto conceito de si próprios e da sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de lhes merecer a atenção. Concentrando sobre si mesmos os seus olhares, eles não os podem elevar até Deus. Essa tendência, de se acreditarem superiores a tudo, muito amiúde os leva a negar aquilo que, estando-lhes acima, os depreciaria, a negar até mesmo a Divindade. Ou, se condescendem em admiti-la, contestam-lhe um dos mais belos atributos: a ação providencial sobre as coisas deste mundo, persuadidos de que eles são suficientes para bem governá-lo. Tomando a inteligência que possuem para medida da inteligência universal, e julgando-se aptos a tudo compreender, não podem crer na possibilidade do que não compreendem. Consideram sem apelação as sentenças que proferem.

Se se recusam a admitir o mundo invisível e uma potência extra-humana, não é que isso lhes esteja fora do alcance; é que o orgulho se lhes revolta à idéia de uma coisa acima da qual não possam colocar-se e que os faria descer do pedestal onde se contemplam. Dai o só terem sorrisos de mofa para tudo o que não pertence ao mundo visível e tangível. Eles se atribuem espírito e saber em tão grande cópia, que não podem crer em coisas, segundo pensam, boas apenas para gente simples, tendo por pobres de espírito os que as tomam a sério.

Entretanto, digam o que disserem, forçoso lhes será entrar, como os outros, nesse mundo invisível de que escarnecem. E lá que os olhos se lhes abrirão e eles reconhecerão o erro em que caíram. Deus, porém, que é justo, não pode receber da mesma forma aquele que lhe desconheceu a majestade e outro que humildemente se lhe submeteu às leis, nem os aquinhoar em partes iguais.

Dizendo que o reino dos céus é dos simples, quis Jesus significar que a ninguém é concedida entrada nesse reino, sem a simplicidade de coração e humildade de espírito; que o ignorante possuidor dessas qualidades será preferido ao sábio que mais crê em si do que em Deus. Em todas as circunstâncias, Jesus põe a humildade na categoria das virtudes que aproximam de Deus e o orgulho entre os vícios que dele afastam a criatura, e isso por uma razão multo natural: a de ser a humildade um ato de submissão a Deus, ao passo que o orgulho é a revolta contra ele. Mais vale, pois, que o homem, para felicidade do seu futuro, seja pobre em espírito, conforme o entende o mundo, e rico em qualidades morais.

Aquele que se eleva será rebaixado

3. Por essa ocasião, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram: "Quem é o maior no reino dos céus?" - Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: "Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus. - Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus - e aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe." (S. MATEUS, cap. XVIII, vv. 1 a 5.)

4. Então, a mãe dos filhos de Zebedeu se aproximou dele com seus dois filhos e o adorou, dando a entender que lhe queria pedir alguma coisa. - Disse-lhe ele: "Que queres?" "Manda, disse ela, que estes meus dois filhos tenham assento no teu reino, um à sua direita e o outro à sua esquerda." - Mas, Jesus respondeu, "Não sabes o que pedes; podeis vós ambos beber o cálice que eu vou beber?" Eles responderam: "Podemos." -Jesus lhes replicou: "É certo que bebereis o cálice que eu beber; mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o tem preparado." - Ouvindo isso, os dez outros apóstolos se encheram de indignação contra os dois irmãos. - Jesus, chamando-os para perto de si, lhes disse: "Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes os tratam com império. - Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; - do mesmo modo que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos." (S. MATEUS, capítulo XX, vv. 20 a 28.)

5. Jesus entrou em dia de sábado na casa de um dos principais fariseus para aí fazer a sua refeição. Os que lá estavam o observaram. - Então, notando que os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola, dizendo: "Quando fordes convidados para bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada do que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-vos: dai o vosso lugar a este, e vos vejais constrangidos a ocupar, cheios de vergonha, o último lugar. - Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa; - porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado." (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 1 e 7 a 11.)

6. Estas máximas decorrem do princípio de humildade que Jesus não cessa de apresentar como condição essencial da felicidade prometida aos eleitos do Senhor e que ele formulou assim: "Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que o reino dos céus lhes pertence." Ele toma uma criança como tipo da simplicidade de coração e diz: "Será o maior no reino dos céus aquele que se humilhar e se fizer pequeno como uma criança, isto é, que nenhuma pretensão alimentar à superioridade ou à infalibilidade.

A mesma idéia fundamental se nos depara nesta outra máxima: Seja vosso servidor aquele que quiser tornar-se o maior, e nesta outra: Aquele que se humilhar será exalçado e aquele que se elevar será rebaixado.

O Espiritismo sanciona pelo exemplo a teoria, mostrando-nos na posição de grandes no mundo dos Espíritos os que eram pequenos na Terra; e bem pequenos, muitas vezes, os que na Terra eram os maiores e os mais poderosos. E que os primeiros, ao morrerem, levaram consigo aquilo que faz a verdadeira grandeza no céu e que não se perde nunca: as virtudes, ao passo que os outros tiveram de deixar aqui o que lhes constituía a grandeza terrena e que se não leva para a outra vida: a riqueza, os títulos, a glória, a nobreza do nascimento. Nada mais possuindo senão isso, chegam ao outro mundo privados de tudo, como náufragos que tudo perderam, até as próprias roupas. Conservaram apenas o orgulho que mais humilhante lhes torna a nova posição, porquanto vêem colocados acima de si e resplandecentes de glória os que eles na Terra espezinharam.

O Espiritismo aponta-nos outra aplicação do mesmo princípio nas encarnações sucessivas, mediante as quais os que, numa existência, ocuparam as mais elevadas posições, descem, em existência seguinte, às mais ínfimas condições, desde que os tenham dominado o orgulho e a ambição. Não procureis, pois, na Terra, os primeiros lugares, nem vos colocar acima dos outros, se não quiserdes ser obrigados a descer. Buscai, ao contrário, o lugar mais humilde e mais modesto, porquanto Deus saberá dar-vos um mais elevado no céu, se o merecerdes.

Mistérios ocultos aos doutos e aos prudentes

7. Disse, então, Jesus estas palavras: "Graças te rendo, meu Pai, Senhor do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos." (S. MATEUS, cap. XI, v. 25.)

8. Pode parecer singular que Jesus renda graças a Deus, por haver revelado estas coisas aos simples e aos pequenos, que são os pobres de espírito, e por as ter ocultado aos doutos e aos prudentes, mais aptos, na aparência, a compreendê-las. E que cumpre se entenda que os primeiros são os humildes, são os que se humilham diante de Deus e não se consideram superiores a toda a gente. Os segundos são os orgulhosos, envaidecidos do seu saber mundano, os quais se julgam prudentes porque negam e tratam a Deus de igual para igual, quando não se recusam a admiti-lo, porquanto, na antigüidade, douto era sinônimo de sábio. Por isso é que Deus lhes deixa a pesquisa dos segredos da Terra e revela os do céu aos simples e aos humildes que diante dEle se prostram.

9. O mesmo se dá hoje com as grandes verdades que o Espiritismo revelou, Alguns incrédulos se admiram de que os Espíritos tão poucos esforços façam para os convencer. A razão está em que estes últimos cuidam preferentemente dos que procuram, de boa fé e com humildade, a luz, do que daqueles que se supõem na posse de toda a luz e imaginam, talvez, que Deus deveria dar-se por muito feliz em atraí-los a si, provando-lhes a sua existência.

O poder de Deus se manifesta nas mais pequeninas coisas, como nas maiores. Ele não põe a luz debaixo do alqueire, por isso que a derrama em ondas por toda a parte, de tal sorte que só cegos não a vêem. A esses não quer Deus abrir à força os olhos, dado que lhes apraz tê-los fechados. A vez deles chegará, mas é preciso que, antes, sintam as angústias das trevas e reconheçam que é a Divindade e não o acaso quem lhes fere o orgulho. Para vencer a incredulidade, Deus emprega os meios mais convenientes, conforme os indivíduos. Não é à incredulidade que compete prescrever-lhe o que deva fazer, nem lhe cabe dizer: "Se me queres convencer, tens de proceder dessa ou daquela maneira, em tal ocasião e não em tal outra, porque essa ocasião é a que mais me convém."

Não se espantem, pois, os incrédulos de que nem Deus, nem os Espíritos, que são os executores da sua vontade, se lhes submetam às exigências. Inquiram de si mesmos o que diriam, se o último de seus servidores se lembrasse de lhes prescrever fosse o que fosse. Deus impõe condições e não aceita as que lhe queiram impor. Escuta, bondoso, os que a Ele se dirigem humildemente e não os que se julgam mais do que Ele.

10. Perguntar-se-á: não poderia Deus tocá-los pessoalmente, por meio de manifestações retumbantes, diante das quais se inclinassem os mais obstinados incrédulos? E fora de toda dúvida que o poderia; mas, então, que mérito teriam eles e, ao demais, de que serviria? Não se vêem todos os dias criaturas que não cedem nem à evidência, chegando até a dizer: "Ainda que eu visse, não acreditaria, porque sei que é impossível?" Esses, se se negam assim a reconhecer a verdade, é que ainda não trazem maduro o espírito para compreendê-la, nem o coração para senti-la. O orgulho é a catarata que lhes tolda a visão. De que vale apresentar a luz a um cego? Necessário é que, antes, se lhe destrua a causa do mal. Daí vem que, médico hábil, Deus primeiramente corrige o orgulho. Ele não deixa ao abandono aqueles de seus filhos que se acham perdidos, porquanto sabe que cedo ou tarde os olhos se lhes abrirão. Quer, porém, que isso se dê de moto-próprio, quando, vencidos pelos tormentos da incredulidade, eles venham de si mesmos lançar-se-lhe nos braços e pedir-lhe perdão, quais filhos pródigos.

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS

O orgulho e a humildade

11. Que a paz do Senhor seja convosco, meus queridos amigos! Aqui venho para encorajar-vos a seguir o bom caminho.

Aos pobres Espíritos que habitaram outrora a Terra, conferiu Deus a missão de vos esclarecer. Bendito seja Ele, pela graça que nos concede: a de podermos auxiliar o vosso aperfeiçoamento. Que o Espírito Santo me ilumine e ajude a tomar compreensível a minha palavra, outorgando-me o favor de pô-la ao alcance de todos! Oh! vós, encarnados, que vos achais em prova e buscais a luz, que a vontade de Deus venha em meu auxílio para fazê-la brilhar aos vossos olhos!

A humildade é virtude muito esquecida entre vós. Bem pouco seguidos são os exemplos que dela se vos têm dado. Entretanto, sem humildade, podeis ser caridosos com o vosso próximo? Oh! não, pois que este sentimento nivela os homens, dizendo-lhes que todos são irmãos, que se devem auxiliar mutuamente, e os induz ao bem. Sem a humildade, apenas vos adornais de virtudes que não possuís, como se trouxésseis um vestuário para ocultar as deformidades do vosso corpo. Lembrai-vos dAquele que nos salvou; lembrai-vos da sua humildade, que tão grande o fez, colocando-o acima de todos os profetas.

O orgulho é o terrível adversário da humildade. Se o Cristo prometia o reino dos céus aos mais pobres, é porque os grandes da Terra imaginam que os títulos e as riquezas são recompensas deferidas aos seus méritos e se consideram de essência mais pura do que a do pobre. Julgam que os títulos e as riquezas lhes são deferidas; pelo que, quando Deus lhos retira, o acusam de injustiça. Oh! irrisão e cegueira! Pois, então, Deus vos distingue pelos corpos? O envoltório do pobre não é o mesmo que o do rico? Terá o Criador feito duas espécies de homens? Tudo o que Deus faz é grande e sábio; não lhe atribuais nunca as idéias que os vossos cérebros orgulhosos engendram.

Ó rico! Enquanto dormes sob dourados tetos, ao abrigo do frio, ignoras que jazem sobre a palha milhares de irmãos teus, que valem tanto quanto tu? Não é teu igual o infeliz que passa fome? Ao ouvires isso, bem o sei, revolta-se o teu orgulho. Concordarás em dar-lhe uma esmola, mas em lhe apertar fraternalmente a mão, nunca. "Pois quê! dirás, eu, de sangue nobre, grande da Terra, igual a este miserável coberto de andrajos! Vã utopia de pseudofilósofos! Se fôssemos iguais, por que o teria Deus colocado tão baixo e a mim tão alto?" E exato que as vossas vestes não se assemelham; mas, despi-vos ambos: que diferença haverá entre vós? A nobreza do sangue, dirás; a química, porém, ainda nenhuma diferença descobriu entre o sangue de um grão-senhor e o de um plebeu; entre o do senhor e o do escravo. Quem te garante que também tu já não tenhas sido miserável e desgraçado como ele? Que também não hajas pedido esmola? Que não a pedirás um dia a esse mesmo a quem hoje desprezas? São eternas as riquezas? Não desaparecem quando se extingue o corpo, envoltório perecível do teu Espírito? Ah! lança sobre ti um pouco de humildade! Põe os olhos, afinal, na realidade das coisas deste mundo, sobre o que dá lugar ao engrandecimento e ao rebaixamento no outro; lembra-te de que a morte não te poupará, como a nenhum homem; que os teus títulos não te preservarão do seu golpe; que ela te poderá ferir amanhã, hoje, a qualquer hora. Se te enterras no teu orgulho, oh! quanto então te lamento, pois bem digno de compaixão serás.

Orgulhosos! Que éreis antes de serdes nobres e poderosos? Talvez estivésseis abaixo do último dos vossos criados. Curvai, portanto, as vossas frontes altaneiras, que Deus pode fazer se abaixem, justo no momento em que mais as elevardes. Na balança divina, são iguais todos os homens; só as virtudes os distinguem aos olhos de Deus. São da mesma essência todos os Espíritos e formados de igual massa todos os corpos. Em nada os modificam os vossos títulos e os vossos nomes. Eles permanecerão no túmulo e de modo nenhum contribuirão para que gozeis da ventura dos eleitos. Estes, na caridade e na humildade é que tem seus títulos de nobreza.

Pobre criatura! és mãe, teus filhos sofrem; sentem frio; tem fome, e tu vais, curvada ao peso da tua cruz, humilhar-te, para lhes conseguires um pedaço de pão! Oh! inclino-me diante de ti. Quão nobremente santa és e quão grande aos meus olhos! Espera e ora; a felicidade ainda não é deste mundo. Aos pobres oprimidos que nele confiam, concede Deus o reino dos céus.

E tu, donzela, pobre criança lançada ao trabalho, às privações, por que esses tristes pensamentos? Por que choras? Dirige a Deus, piedoso e sereno, o teu olhar: ele dá alimento aos passarinhos; tem-lhe confiança: ele não te abandonará. O ruído das festas, dos prazeres do mundo, faz bater-te o coração; também desejaras adornar de flores os teus cabelos e misturar-te com os venturosos da Terra. Dizes de ti para contigo que, como essas mulheres que vês passar, despreocupadas e risonhas, também poderias ser rica. Oh! caia-te, criança! Se soubesses quantas lágrimas e dores inomináveis se ocultam sob esses vestidos recamados, quantos soluços são abafados pelos sons dessa orquestra rumorosa, preferirias o teu humilde retiro e a tua pobreza. Conserva-te pura aos olhos de Deus, se não queres que o teu anjo guardião para o seu seio volte, cobrindo o semblante com as suas brancas asas e deixando-te com os teus remorsos, sem guia, sem amparo, neste mundo, onde ficarias perdida, a aguardar a punição no outro.

Todos vós que dos homens sofreis injustiças, sede indulgentes para as faltas dos vossos irmãos, ponderando que também vós não vos achais isentos de culpas; é isso caridade, mas é igualmente humildade. Se sofreis pelas calúnias, abaixai a cabeça sob essa prova. Que vos importam as calúnias do mundo? Se é puro o vosso proceder, não pode Deus vo-las compensar? Suportar com coragem as humilhações dos homens é ser humilde e reconhecer que somente Deus é grande e poderoso.

Oh! meu Deus, será preciso que o Cristo volte segunda vez à Terra para ensinar aos homens as tuas leis, que eles olvidam? Terá que de novo expulsar do templo os vendedores que conspurcam a tua casa, casa que é unicamente de oração? E, quem sabe? ó homens! se o não renegaríeis como outrora, caso Deus vos concedesse essa graça! Chamar-lhe-íeis blasfemador, porque abateria o orgulho dos modernos fariseus. E bem possível que o fizésseis perlustrar novamente o caminho do Gólgota.

Quando Moisés subiu ao monte Sinai para receber os mandamentos de Deus, o povo de Israel, entregue a si mesmo, abandonou o Deus verdadeiro. Homens e mulheres deram o ouro e as jóias que possuíam, para que se construísse um ídolo que entraram a adorar. Vós outros, homens civilizados, os imitais. O Cristo vos legou a sua doutrina; deu-vos o exemplo de todas as virtudes e tudo abandonastes, exemplos e preceitos. Concorrendo para isso com as vossas paixões, fizestes um Deus a vosso jeito: segundo uns, terrível e sanguinário; segundo outros, alheado dos interesses do mundo. O Deus que fabricastes é ainda o bezerro de ouro que cada um adapta aos seus gostos e às suas idéias.

Despertai, meus irmãos, meus amigos. Que a voz dos Espíritos ecoe nos vossos corações. Sede generosos e caridosos, sem ostentação, isto é, fazei o bem com humildade. Que cada um proceda pouco a pouco à demolição dos altares que todos ergueram ao orgulho. Numa palavra: sede verdadeiros cristãos e tereis o reino da verdade. Não continueis a duvidar da bondade de Deus, quando dela vos dá ele tantas provas. Vimos preparar os caminhos para que as profecias se cumpram. Quando o Senhor vos der uma manifestação mais retumbante da sua demência, que o enviado celeste já vos encontre formando uma grande família; que os vossos corações, mansos e humildes, sejam dignos de ouvir a palavra divina que ele vos vem trazer; que ao eleito somente se deparem em seu caminho as palmas que aí tenhais deposto, volvendo ao bem, à caridade, à fraternidade. Então, o vosso mundo se tornará o paraíso terrestre. Mas, se permanecerdes insensíveis à voz dos Espíritos enviados para depurar e renovar a vossa sociedade civilizada, rica de ciências, mas, no entanto, tão pobre de bons sentimentos, ah! então não nos restará senão chorar e gemer pela vossa sorte. Mas, não, assim não será. Voltai para Deus, vosso pai, e todos nós que houvermos contribuído para o cumprimento da sua vontade entoaremos o cântico de ação de graças, agradecendo-lhe a inesgotável bondade e glorificando-o por todos os séculos dos séculos. Assim seja. Lacordaire. (Constantina, 1863.)

12. Homens, por que vos queixais das calamidades que vós mesmos amontoastes sobre as vossas cabeças? Desprezastes a santa e divina moral do Cristo; não vos espanteis, pois, de que a taça da iniquidade haja transbordado de todos os lados.

Generaliza-se o mal-estar. A quem inculpar, senão a vós que incessantemente procurais esmagar-vos uns aos outros? Não podeis ser felizes, sem mútua benevolência; mas, como pode a benevolência coexistir com o orgulho? O orgulho, eis a fonte de todos os vossos males. Aplicai-vos, portanto, em destruí-lo, se não lhe quiserdes perpetuar as funestas conseqüências. Um único meio se vos oferece para isso, mas infalível: tomardes para regra invariável do vosso proceder a lei do Cristo, lei que tendes repelido ou falseado em sua interpretação.

Por que haveis de ter em maior estima o que brilha e encanta os olhos, do que o que toca o coração? Por que fazeis do vício na opulência objeto das vossas adulações, ao passo que desdenhais do verdadeiro mérito na obscuridade? Apresente-se em qualquer parte um rico debochado, perdido de corpo e alma, e todas as portas se lhe abrem, todas as atenções são para ele, enquanto ao homem de bem, que vive do seu trabalho, mal se dignam todos de saudá-lo com ar de proteção. Quando a consideração dispensada aos outros se mede pelo ouro que possuem ou pelo nome de que usam, que interesse podem eles ter em se corrigirem de seus defeitos?

Dar-se-ia o inverso, se a opinião geral fustigasse o vicio dourado, tanto quanto o vicio em andrajos; mas, o orgulho se mostra indulgente para com tudo o que o lisonjeia. Século de cupidez e de dinheiro, dizeis. Sem dúvida; mas por que deixastes que as necessidades materiais sobrepujassem o bom senso e a razão? Por que há de cada um querer elevar-se acima de seu irmão? Desse fato sofre hoje a sociedade as conseqüências.

Não esqueçais que tal estado de coisas é sempre sinal certo de decadência moral. Quando o orgulho chega ao extremo, tem-se um indicio de queda próxima, porquanto Deus nunca deixa de castigar os soberbos. Se por vezes consente que eles subam, é para lhes dar tempo a reflexão e a que se emendem, sob os golpes que de quando em quando lhes desfere no orgulho para os advertir. Mas, em lugar de se humilharem, eles se revoltam. Então, cheia a medida, Deus os abate completamente e tanto mais horrível lhes é a queda, quanto mais alto hajam subido.

Pobre raça humana, cujo egoísmo corrompeu todas as sendas, toma novamente coragem, apesar de tudo. Em sua misericórdia infinita, Deus te envia poderoso remédio para os teus males, um inesperado socorro à tua miséria. Abre os olhos à luz: aqui estão as almas dos que já não vivem na Terra e que te vêm chamar ao cumprimento dos deveres reais. Eles te dirão, com a autoridade da experiência, quanto as vaidades e as grandezas da vossa passageira existência são mesquinhas a par da eternidade. Dir-te-ão que, lá, o maior é aquele que haja sido o mais humilde entre os pequenos deste mundo; que aquele que mais amou os seus irmãos será também o mais amado no céu; que os poderosos da Terra, se abusaram da sua autoridade, ver-se-ão reduzidos a obedecer aos seus servos; que, finalmente, a humildade e a caridade, irmãs que andam sempre de mãos dadas, são os meios mais eficazes de se obter graça diante do Eterno. - Adolfo, bispo de Argel. (Marmande, 1862.)

Missão do homem inteligente na Terra

13. Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto esse saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligência neste planeta: nenhum direito tendes de envaidecer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer a utilizeis para o bem de todos; é uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instrumento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a ele. A natureza do instrumento não está a indicar a que utilização deve prestar-se? A enxada que o jardineiro entrega a seu ajudante não mostra a este último que lhe cumpre cavar a terra? Que diríeis, se esse ajudante, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir o seu patrão? Diríeis que é horrível e que ele merece expulso. Pois bem: não se dá o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir a idéia de Deus e da Providência entre seus irmãos? Não levanta ele contra o seu senhor a enxada que lhe foi confiada para arrotear o terreno? Tem ele direito ao salário prometido? Não merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Sê-lo-á, não duvideis, e atravessará existências miseráveis e cheias de humilhações, até que se curve diante dAquele a quem tudo deve.

A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas, sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance. Infelizmente, muitos a tomam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmos. O homem abusa da inteligência como de todas as suas outras faculdades e, no entanto, não lhe faltam ensinamentos que o advirtam de que uma poderosa mão pode retirar o que lhe concedeu. - Ferdinando, Espírito protetor. (Bordéus, 1862.)

Quem É O Maior No Reino do Céu?

Quem É O Maior No Reino do Céu?

Autor:
José Carlos Leal

Fonte:
Livro: Evangelho e Qualidade de Vida

Pois que o Espírito da criança já viveu, por que não se mostra, desde o nascimento, tal qual é? Tudo é sábio nas obras de Deus. A criança necessita de cuidados especiais, que somente a ternura materna lhe pode dispensar, ternura que se acresce da fraqueza e da ingenuidade da criança. Para uma mãe, seu filho é sempre um anjo e assim era preciso que fosse, para lhe cativar a solicitude. Ela não houvera podido ter-lhe o mesmo devotamento, se em vez da graça ingênua, deparasse nele, sob os traços infantis, um caráter viril e as idéias de um adulto e, ainda menos, se lhe viesse a conhecer o passado.

Aliás, faz-se necessário que a atividade do princípio inteligente seja proporcionada à fraqueza do corpo, que não poderia resistir a uma atividade muito grande do Espírito, como se verifica nos indivíduos grandemente precoces. Essa a razão por que, ao aproximar-se-lhe a encarnação, o Espírito entra em perturbação e perde pouco a pouco a consciência de si mesmo, ficando, por certo tempo, numa espécie de sono, durante o qual todas as suas faculdades permanecem em estado latente. É necessário este estado de transição para que o Espírito tenha um novo ponto de partida e para que esqueça, em sua nova existência, tudo aquilo que a possa entravar. Sobre ele, no entanto, reage o passado. Renasce para a vida maior, mais forte, moral e intelectualmente, sustentado e secundado pela intuição que conserva da experiência adquirida.

A partir do nascimento, suas idéias tomam gradualmente impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem, pelo que se pode dizer que, no curso dos primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança, por se acharem ainda adormecidas as idéias que lhe formam o fundo do caráter. Durante o tempo em que seus instintos se conservam amodorrados, ele é mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais.

O Espírito, pois, enverga temporariamente a túnica da inocência e, assim, Jesus está com a verdade, quando, sem embargo da anterioridade da alma, toma a criança por símbolo da pureza e da simplicidade.
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo VIII, item 4.



Quem É O Maior No Reino do Céu?


Nessa ocasião, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram: “Quem é o maior no reino dos céus?”. Ele chamou perto de si uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no reino dos céus”. (Mateus, XVIII: 1 a 4.)



Esse texto nos revela, em primeiro lugar, que os apóstolos, pessoas muito próximas de Jesus, não o compreendiam plenamente. Logo depois da Parábola do Semeador, Jesus explica o sentido oculto do relato. Muito provavelmente, houvesse, com alguma freqüência, reuniões com os 12 apóstolos, e mesmo com alguns discípulos, em que Jesus explicava passagens de seus discursos que não eram bem compreendidas.

Um dos conceitos pouco entendidos pelos apóstolos e discípulos era o de reino de Deus ou reino do céu. Imersos na cultua judaica que concebia o Messias como aquele que, enviado por Iahweh, instaurara um novo tempo em que os judeus, até então dominados pelos romanos, sacudiriam o jugo dos Césares, fazendo nascer uma nova ordem sócio-político-religiosa, na qual, de dominados, passariam a dominadores. Ora, se Jesus era o Messias, o reino de Deus estava próximo, como pregava, inclusive, João Batista em Betabara, nas margens do Jordão, então eles achavam legítimo perguntar ao Mestre qual seria a parte deles na nova ordem, quando o Cristo, vencedor, ,destronasse o Império Romano.

Esta passagem não é única no Evangelho de Mateus. No capítulo XX: 20 a 23, há uma outra passagem em que se nota a mesma preocupação por parte dos seguidores de Jesus. O Nazareno estava subindo para Jerusalém, quando, ainda a caminho, chamou os 12 apóstolos à parte e lhes antecipou as dores da paixão. Está em companhia deles João Evangelista e Salomé, a esposa de Zebedeu, mãe de Tiago. A mulher se aproxima de Jesus e pede-lhe que, em seu reino, colocasse seus dois filhos, um à sua direita e outro à esquerda. Como se pode ver, não era rara esta preocupação, mas voltemos ao primeiro texto que escolhemos como objeto de nosso estudo. No momento em que é interrogado, Jesus não dá uma resposta direta, mas tomando um menino pela mão, coloca-o no meio dos apóstolos e diz as palavras que já conhecemos.

Por que Jesus se vale de uma criança como protótipo ou modelo para alcançar o reino de Deus? Em primeiro lugar está a idéia de humildade, de pequenez. Não será com arrogância e violência que se ganhará o reino de Deus, mas com modéstia, docilidade e desejo de servir. Em verdade, lembra Jesus, aquele que quiser ser o primeiro acabará sendo o último. Aquele que se elevar será humilhado e o que se humilhar será exaltado. O conquistador do reino de Deus é aquele que serve antes de ser servido, aquele que, como Jesus, é capaz de lavar os pés empoeirados do homem comum. Essa é a grande lição de Jesus sobre a necessidade de não se valorizar exageradamente as glórias deste mundo, as posições de comando. As crianças, no mundo judaico, não tinham importância, por isso elas recebem o reino em lugar daqueles que jactanciam-se das glórias mundanas, que se julgam especiais e em cujo coração habita o orgulho e a vaidade. É preciso ser puro de coração como uma criança para alcançar o reino de Deus.

Uma outra característica da criança que deve ser imitada é a sua relação com a verdade. A criança, enquanto não está contaminada com a maneira hipócrita de viver da maioria dos adultos, fala sempre com muita sinceridade porque ainda não aprendeu a mentir e a dissimular.

Certo dia, na época em que era professor do Estado, estive na cerimônia de posse de uma diretora de colégio. Em meio a solenidade, quando a professora foi apresentada, uma menininha disse: “A diretora é preta”. Uma professora que estava perto dela, fez “psiu” e rapou a garganta, olhando para a criança com olhos severos.

A diretora, percebendo o incidente, aproximou-se da menininha e disse: “De fato sou preta, você está certa, mas tenho muito orgulho da minha cor. Não fique preocupada, você só disse a verdade”;

Repare que a criança constatou o que viu e o preconceito ficou por conta da professora que considerou ofensa chamar uma pessoa preta de preta.

Há, sobre este tema, uma história muito conhecida chamada “A Roupa Nova do rei”. Dois espertalhões desejando ganhar dinheiro às custas de um rei, foram até o palácio e propuseram ao monarca o seguinte: Nós faremos para o senhor uma roupa mágica, tecida com fios divinos, tirados do tear dos deuses. Essa roupa, entretanto, só poderá ser vista por pessoas honestas, que não corrompem nem são corrompidas, pessoas verdadeiras, leais a Vossa Majestade. Assim, o senhor saberá quem lhe é fiel e quem não é. O rei gostou da idéia e ordenou que a roupa fosse feita apesar do alto preço.

Os dois homens foram colocados em uma oficina especial e lhes foram dados cinco dias de prazo para que a roupa fantástica ficasse pronta. Já no segundo dia, o monarca ficou muito curioso sobre a roupa e mandou que um de seus ministros fosse ver em que etapa encontrava-se o trabalho. O servidor soberano chegou à sala onde estavam os dois malandros que se ocuparam em fingir que costuravam tecidos invisíveis, cortando o ar com tesouras visíveis. O ministro ficou muito admirado e como sabia que não era honesto e que esse era o motivo por que não via o tecido, voltou ao rei e lhe disse que a roupa estava ficando muito bonita. A farsa continuou até que a roupa, inteiramente feita, foi levada ao rei que, também não a vendo, acreditou que ele próprio não era tão honesto quanto imaginava.

O rei, então, decidiu fazer um grande teste: sairia vestido pela rua com a sua roupa nova e, assim, conheceria melhor o caráter de seus súditos. Foi feita uma grande parada com banda de música e o rei à frente. A parada deixou o castelo e marchou por toda a cidade e todos que a viam diziam para o rei ouvir: “Que bela roupa! Nunca vossa majestade esteve tão bem vestido!”. Ao passar por uma praça, entretanto, uma criança que viu o cortejo gritou muito admirada: “O rei está nu”.

Essa é a questão. A criança é sincera, franca e honesta até que aprende com os adultos a ser insincera, mentirosa e desonesta. O que Jesus quer de nós é essa pureza da criança, esta franqueza natural, esse modo de ver a vida em que não há lugar para a hipocrisia. O Mestre quer que tenhamos a crença espontânea que a criança tem no adulto, até que esse minta para ela; o que Jesus quer de nós, ao nos comparar com as crianças, é essa maneira de ser especial, esta capacidade de viver em um mundo mágico, até que as pessoas adultas destruam nelas o poder criativo de sua imaginação.

Do ponto de vista espírita, poderíamos questionar essa passagem, lembrando que uma criança é um espírito já bastante antigo com qualidades e defeitos; sendo assim, ela não é tão pura quanto nos parece. O modelo de verdadeira pureza só poderia nos ser dado por um espírito que tenha alcançado a perfeição. Esse argumento procede, de um ponto de vista geral, entretanto, do ponto de vista de cada encarnação, a criança, principalmente nos primeiros sete anos de sua existência, período em que o espírito está, por assim dizer, assumindo o corpo em que deverá viver, é inocente e pura. Inclusive é nesse período que a criança está mais propensa a receber a influência salutar da educação. Respondendo a pergunta: Por que, já que a criança viveu muitas vezes, ela não se mostra, logo de início, tal como é? Escrevem os espíritos:

(...) Nas obras de Deus tudo é sábio. A criança tem necessidade de cuidados delicados, que somente a ternura maternal pode lhe dar, e essa ternura cresce diante da fragilidade e da ingenuidade da criança. Para a mãe, seu filho sempre é um anjo, e é preciso que seja assim para cativar a sua solicitude; ela não teria por ele a mesma abnegação se, em lugar da graça ingênua, tivesse encontrado em seu filho, sob os traços infantis, um caráter viril e as idéias de um adulto, e ainda menos se ela conhecesse o seu passado. (Evangelho Segundo o Espiritismo, VII, item 4).