segunda-feira, 11 de março de 2013

Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também



Testemunho diferente - Richard Simonetti

Relata o Capítulo 5º dos "Atos dos Apóstolos", livro do Novo Testamento que descreve as atividades iniciais da igreja cristã, que a simpatia de que desfrutavam Simão Pedro e seus companheiros, em Jerusalém, em face do piedoso trabalho que realizavam na Casa do Caminho, despertou a ira dos senhores do Sinédrio, que os prenderam e submeteram ao açoite.

Depois os soltaram, ordenando-lhes que nunca mais falassem de Jesus. Registram os versículos 41 e 42: "E eles se retiraram do Sinédrio, regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse nome. E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e pregar a Jesus, o Cristo."


Dificilmente os políticos e os profissionais da religião poderiam compreender tão corajosa atitude! É que os cristãos não estavam atrelados aos interesses do Mundo. Eles defendiam a causa de Deus, sob inspiração do Mestre Sublime, que os sustentava nos mais duros testemunhos.

Com Jesus caminhavam, com Jesus trabalhavam, com Jesus sonhavam a construção do Reino Divino, onde todos seriam irmãos, e onde o maior seria sempre o que se fizesse, espontaneamente, servo de todos.

Perseguidos pelos judeus primeiro, depois pelos romanos; torturados, feridos, humilhados e martirizados, conservavam admirável fidelidade aos seus ideais.

Dedicação extremada à semeadura da Fraternidade e do Amor, com a força irresistível do exemplo; sacrifício da própria vida, oferecida em holocausto como testemunho supremo de convicção, quando as forças reacionárias da velha Roma pretenderam eliminar a doutrina nascente com o assassinato coletivo de seus profitentes. Viviam num clima altamente espiritualizado, de exaltação da Fé, sem lugar para vacilações ou dúvidas. Seus lemas bem poderiam ser a dedicação e o sacrifício.

Com o suor da dedicação e o sangue do sacrifício nutriram a árvore nascente do Cristianismo, para que ela se desenvolvesse plena de vigor e esperança, a acenar com novas perspectivas para a Humanidade, em meio à decadente civilização dos césares, que em breve morreria.

A nossa civilização ocidental também apresenta sintomas de decrepitude, e estertora-se nas contradições geradas pelo tremendo contraste entre o progresso material, que leva o Homem à Lua, e o progresso moral, ainda situado no domínio dos impulsos primitivos.

Como proclama a sabedoria oriental: "O Homem aprendeu a movimentar-se no mar e no ar, mas não aprendeu a andar como Homem."

E onde a Razão deturpada cede ao domínio das paixões; onde a Virtude é desdenhada; onde prevalecem os interesses imediatistas; onde a ânsia de poder, riqueza, conforto e prazer constitui a média das aspirações gerais, o fim está sempre próximo como ocorreu tantas vezes outrora.

Diante das tormentas que se aproximam, o Espiritismo situa-se por vigoroso apelo às consciências para a preservação dos patrimônios espirituais e morais da Humanidade.

À semelhança dos primitivos cristãos, os espíritas também são convocados a grandes testemunhos e talvez até mais difíceis, porque não se trata mais de morrer por Jesus e, sim, de conseguir viver com Jesus.

Isto exige autenticidade, capacidade de sermos nós mesmos, de mantermos uma conduta inspirada em convicções legítimas, superando a alienação imposta por uma sociedade de consumo onde os meios de comunicação como a televisão, o cinema, o rádio e a imprensa, colocados a serviço de interesses materialistas, condicionam nossos desejos, nossos prazeres, nosso comportamento.

Diz Erich Fromm, o notável pensador alemão, que o grande perigo que ameaçava o Homem no passado era ele tornar-se escravo, sob imposição dos poderosos e dos tiranos. O grande perigo de nosso tempo - diz ele - é o Homem tornar-se autômato.

E as multidões de hoje, conduzidas como imensos rebanhos, sob indução da propaganda que lhes diz o que comer, o que vestir, como pensar, como amar, procedem como autômatos programados para a mediocridade, incapazes de conceber a existência em termos de aprimoramento moral e espiritual; por isso, não têm condições de participar do banquete do Evangelho, oferecido por Jesus aos que não se alienaram.

Muitos tentam furtar-se à condição de autômatos, e isto tem acontecido particularmente com os jovens, mas continuam teleguiados, embora se proclamem livres, pois escolhendo o caminho da rebeldia, inspiram-se, indevidamente, na negação de todos os valores morais, tomando-se, assim, agentes inconscientes das sombras, presas fáceis de hábeis obsessores que os conduzem por tortuosos caminhos de vício, degradação e crime.

Em se tratando de "vida abundante", segundo a expressão evangélica, superadas as pressões alienatórias do Mundo atual, não há alternativa senão aquela oferecida pelos cristãos primitivos: dedicação e sacrifício.

Dedicação intransferível à causa do Bem, no caminho da Virtude e da Sabedoria, em ritmo de Fraternidade e aprimorar-se para a edificação de um futuro de bênçãos.

Sacrifício de tudo o que satisfaz o Homem perecível, mas não interessa ao Espírito eterno; sacrifício dos programas de televisão, que no estágio atual distraem, mas raramente edificam; sacrifício das conversações inúteis e inconseqüentes, onde vicejam, com facilidade, a maledicência e a malícia; sacrifício das tão procuradas horas de lazer, em que damos livre curso às fantasias que nos oprimem; sacrifício de atividades absorventes com as quais procuramos garantir fartura e conforto, mas que significam quase sempre um marca-passo no caminho da Evolução, ensejando tropeços desastrosos.

Nunca superaremos a alienação, nem deixaremos de ser simples autômatos, incapazes de agir senão sob estímulos exteriores, enquanto nossas mãos e nossa mente não estiverem ocupados permanentemente com o melhor, com a vida em termos de Eternidade, considerada a nossa condição de Espíritos em trânsito pela Terra.

E se nos parece demais o impositivo de tal ação sem limites, recordemos Jesus em João, Capítulo 5.º, versículo 17:

"Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também."

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