http://www.viamaxi.com.br/2014/12/terapia-do-perdao/
Terapia do Perdão
Dr. Ricardo de Souza Cavalcante
Quando não perdoamos alguém, ou a nós mesmos, alimentamos inúmeros sentimentos ruins, como a mágoa, o rancor, o ódio e a vingança. Apesar de serem sentimentos fortes, não há em nenhum deles, sequer, algo que faça bem a nossa saúde física, emocional e espiritual.
São sentimentos que fazem, comprovadamente, mal ao nosso organismo, provocando e alimentando doenças, em nossa mente e em nosso corpo, incluindo o aparecimento de tumores malignos.
“Enquanto dormimos / a dor que não se dissipa / cai gota a gota sobre nosso coração / até que / em meio ao nosso desespero / e contra nossa vontade / apenas pela graça divina / vem a sabedoria”
Os versos do poeta grego Ésquilo, escritos há 25 séculos, são considerados por muitos a mais bela conclamação ao perdão jamais escrita. Bob Kennedy recorreu a ela na tarde do dia 4 de abril de 1968 para, durante um comício, consolar a multidão revoltada com a chegada da notícia do assassinato do líder pacifista Martin Luther King. Dois meses depois, o próprio Bob foi morto a tiros.
A Via Maxi, nessa edição de final de ano, quando muitos param para reavaliar atitudes e se propor aos planos de mudanças para o ano que se inicia, procuramos o médico infectologista, Ricardo de Souza Cavalcante, do Hospital das Clínicas de Botucatu e professor da faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, que também ministra palestras sobre a “Terapia do Perdão” para falar sobre os efeitos clínicos desses sentimentos. Em nossa 30ª edição da revista Via Maxi publicamos alguns trechos da entrevista, porém, aqui, você poderá acompanhá-la na íntegra.
Via Maxi: Como pode ser definido, de fato, o ato de perdoar?
Muitas pessoas acreditam que perdoar é esquecer a ofensa recebida. No entanto, isso é impossível, pois o fato em que ocorreu a ofensa permanecerá em nossa memória. O perdão significa compreender aquele que nos ofendeu de um modo diferente, modificando a nossa intimidade. É a verdadeira educação da alma.
VM: A mágoa tem o poder de provocar problemas físicos e psicológicos? Como ela pode desencadear doenças?
A mágoa sempre surge da raiva, emoção nata da criatura humana, quando mal conduzida. Sempre que nos sentimos ofendidos, agredidos ou acuados, a raiva surge como uma emoção natural. Ela desencadeia uma reação orgânica chamada “estresse”, em que há liberação de adrenalina e cortisol, hormônios que irão agir sobre o sistema cardiovascular e imunológico e sobre o cérebro. Quando fugaz, este fenômeno não traz danos ao organismo. O problema surge quando ocorre de maneira repetitiva. Quando não trabalhamos adequadamente a raiva que sentimos a transformamos em mágoa, e a partir deste momento, periodicamente nos lembramos daquela situação incômoda. O fato é que o nosso cérebro não consegue distinguir uma situação que está acontecendo de uma lembrança de algo que já aconteceu. A lembrança desencadeia a mesma reação de “estresse” liberando adrenalina e cortisol que cronicamente estarão agindo sobre o sistema cardiovascular a desencadear doenças como o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral; estarão agindo sobre o sistema imune, desmanchando nossas defesas e permitindo a ação deletéria dos agentes infecciosos e das células neoplásicas na formação dos cânceres; estarão agindo sobre o cérebro a desequilibrar os neurotransmissores abrindo portas ao desenvolvimento dos transtornos de ordem emocional como a depressão.
VM: Quem é mais prejudicado quando não perdoamos?
O grande prejudicado pela mágoa é aquele que a sente. A incapacidade de perdoar não é danosa para aquele que ofende, mas para o ofendido. É creditada a Shakespeare uma frase que vem de encontro a isso: “Não perdoar é como beber veneno desejando que o outro morra.” Quem não perdoa carrega consigo um grande fardo que trará no futuro danos físicos, psicológicos e espirituais ao portador da mágoa.
VM: Quais os problemas que a mágoa pode causar em um indivíduo?
Conforme já colocamos anteriormente, a mágoa gera danos físicos, psicológicos e espirituais. De modo geral, as doenças apresenta origem multifatorial. Isto significa que muitos fatores contribuem para a ocorrência delas. Estão bem definidas pela medicina as condições relacionadas ao desenvolvimento de doenças como o sedentarismo, tabagismo, etilismo, alimentação com quantidade excessiva de gorduras e carboidratos entre outros. Quando colocamos que a mágoa pode ser um gerador de doenças significa que este sentimento tem um importante papel na origem destas patologias. Há 2000 anos, Jesus trouxe uma série de recomendações para que pudéssemos perdoar, pois a mágoa é extremamente deletéria em nossas vidas. E este conceito foi resgatado por Allan Kardec na codificação da doutrina espírita, apontando a mágoa e outros sentimentos comuns à criatura humana como altamente deletérios a vida e gerador de doenças. Hoje, as ciências médicas têm estudado este aspecto corroborando esta ideia. Assim identificamos que a mágoa pode estar na gênese das doenças cardiovasculares como o infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral; das neoplasias como os mais diversos tipos de câncer; das doenças infecciosas; dos transtornos de ordem emocional como o transtorno de ansiedade generalizada, as fobias e mesmo a depressão. Também, na doutrina espírita, identificamos outro grande problema. Aquele que é portador de mágoa, mantem pensamentos negativos que muitas vezes atraem espíritos infelizes permitindo a influência destes sobre o indivíduo. Isto pode ser intenso o suficiente para desencadear um processo obsessivo, em que ocorre grande estado perturbação espiritual.
VM: O perdão pode curar doença físicas e mentais?
Participando a mágoa da origem de diversas doenças, certamente o perdão é um remédio salutar para estas condições. Importante lembrar que todas as recomendações indicadas pela medicina também são necessárias no tratamento das doenças. O doutor Dean Ornish, célebre cardiologista norte-americano, escreveu uma obra intitulada “Amor e sobrevivência” que conta casos atendidos por ele e que foram submetidos à terapia do perdão. Conta o dr Ornish que, certa vez, recebeu um seu consultório um homem que sofria de dores no peito. A avaliação médica apontava para um quadro grave de angina, pondo-lhe a vida em risco. Durante sua conversa, Dr. Ornish questionou tal paciente sobre como estava sua vida. Sem que ele pudesse responder, sua esposa, que o acompanhava, disse enfaticamente: “ – A vida dele vai muito mal. Há anos tornou-se uma pessoa raivosa, irritada, agressiva até mesmo com seus familiares. O convívio dentro de casa é péssimo. Eu e nossos filhos não o aguentamos mais.” Diante do desabafo, o médico questionou o paciente se algo havia ocorrido para tal mudança. A esposa, novamente se interpôs: “ – Desde que ele brigou com o rabino, líder da sinagoga que frequentamos.” Diante do fato, o paciente expôs que ele era um homem muito participativo na sinagoga que frequentava. Para quem não sabe, sinagoga é o templo religioso dos judeus. Porém, outra sinagoga foi inaugurada próxima a sua e muitos fiéis passaram a frequentar o novo templo. Sentindo uma ameaça, o paciente exigiu do rabino (líder espiritual dos judeus, assim como é o padre para a igreja católica e o pastor para as igrejas protestantes) uma posição drástica, mas este manteve sua conduta. Tomou-se então de forte raiva com o rabino, e em reunião pública no templo, pôs-se a agredi-lo verbalmente, com calúnias infundadas, para desmoralizá-lo diante de todos. Desde então, guardava uma raiva contida daquele homem, e não mais conseguiu participar, do mesmo modo, de suas atividades no templo. Assim, aos poucos, foi tornando-se esta pessoa amarga, descontente com a vida. Este paciente tinha uma indicação médica de cirurgia para revascularizar as artérias coronárias, que são aquelas que irrigam o coração. O risco de um infarto do miocárdio era grande. No entanto, Dr. Ornish optou por esperar. Apenas ofereceu-lhe um tratamento clínico, a base de medicamentos e propôs-lhe uma medida que considerava essencial ao tratamento: seu paciente deveria pedir perdão ao seu desafeto. Inicialmente, o homem relutou. Sentia vergonha, acreditava que seria um covarde se tomasse tal medida. Mas, aos poucos, com a ajuda da esposa e algumas consultas este paciente foi convencido. Ele iria pedir perdão e isso seria em público, assim como foi seu momento de ira. Conta este paciente que em uma reunião, levantou-se e pediu a palavra. Emocionado começou a dizer tudo que estava em seu coração. Pediu perdão ao rabino, e disse que muitas vezes sentia inveja do líder judaico. Abraçaram-se junto a lágrimas e soluços. Dr. Ornish relata que a melhora clínica deste paciente foi tão evidente que a medida cirúrgica foi cancelada.
VM: Os efeitos são os mesmos para quem perdoa alguém, quanto para quem se auto perdoa?
O auto perdão é o primeiro passo que devemos realizar para sermos capazes de perdoar. Antes de compreender aquele que nos ofendeu é necessário compreender a si mesmo e aceitar-se com nossas virtudes e defeitos. Sócrates, célebre filósofo grego, difundia um pensamento que leu na entrada de um oráculo “Conhece-te a ti mesmo”, nos ensinando a grande importância da auto aceitação. Jesus também trouxe esta mesma ideia. No evangelho de Mateus, capítulo 5, versículos de 25 a 26, encontramos a seguinte passagem de Jesus: “Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não voz entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. – Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil.” Esta conhecida passagem de Jesus geralmente é interpretada como a necessidade da reconciliação com os adversários externos, aqueles indivíduos que nos causaram mal. Mas, podemos olhar estas palavras de modo mais profundo, como fez Joana de Ângelis na obra Triunfo Pessoal, psicografia de Divaldo Franco. A autora aponta que este adversário pode ser o adversário interno, os sentimentos que nos perturbam a alma, o orgulho ferido que foi o gerador da mágoa e do ressentimento. Uma importante observação deve ser feita: quem causa a mágoa em nós não é aquele que ofende, mas nós mesmos. É o modo como trabalhamos a situação que gera a mágoa. Carl Jung, psiquiatra e psicanalista suíço, fundador da psicologia analítica, propunha que todos nós temos uma sombra psíquica que contém todos os sentimentos que portamos e não aprovamos. São feridas da alma que adquirimos nesta ou em outras existências e que ficaram mal resolvidas. Quando alguém tem uma atitude conosco que faz desabrochar algum destes sentimentos escondidos, nos sentimos ofendidos. É como alguém que coloca o dedo em uma ferida na nossa pele – sentimos dor. Se o dedo é colocado na pele sã, nenhum incômodo sentimos. O mesmo acontece com a alma – se cutucada na ferida sentiremos dor. Por isso, o primeiro adversário que temos de enfrentar somos nós mesmos, os adversários internos. Foi isto que Jesus provocou na multidão que se preparava para o apedrejamento da mulher adultera. Quando questionado se a mulher deveria ou não ser apedrejada, Jesus pôs-se a desenhar na areia símbolos que representavam as faltas da criatura humana, permitindo uma reflexão daquela multidão sobre o conteúdo de sua sombra psíquica e fazendo-os ter consciência de que também possuíam faltas. A percepção da falibilidade da criatura humana que erra assim como seu semelhante é o primeiro passo para o perdão. Esta aceitação de si mesmo como criatura falível, em processo de evolução, este auto conhecimento, representa o auto perdão. Por isso, Jesus disse que deveríamos nos reconciliar com o adversário enquanto estivéssemos a caminho com ele – é na hora da ofensa que o sentimento guardado se manifesta e é nesse momento que devemos trabalhar com ele. Caso contrário, seremos entregues ao juiz e ao ministro da justiça que nada mais são do que a nossa própria consciência, pois é ela que nos julga, é nela que está escrita a lei divina. Entregues à nossa consciência, esta nos cobrará e nos sentiremos culpados – a culpa é a prisão anunciada por Jesus, da qual apenas sairemos até expiar todo o sentimento negativo. Portanto, certamente os efeitos do auto perdão são tão benéficos quanto aqueles oriundos do perdão a outrem.
VM: Quem ganha mais ao perdoar?
O maior beneficiado do perdão é aquele que perdoa. Como já apresentamos anteriormente, o indivíduo magoado sofre muitos danos pelo sentimento que carrega e, portanto, é o que mais se beneficia com o perdão. Para aquele que ofende também há benefício, em especial se foi uma ofensa intencional. Na doutrina espírita temos o conceito de que toda criatura humana tem em sua consciência as leis divinas, mesmo que momentaneamente não as perceba. Mas, no íntimo é possível discernirmos o que podemos ou não realizar na vida. Quando cometemos uma ação deletéria para alguém, nossa consciência cobrará de nós pelo ato indevido, seja nesta existência ou nas futuras. Uma das etapas para que possamos obter a paz de consciência é o reconciliamento com aqueles a quem prejudicamos em algum momento de nossa jornada. Por isso, o perdão também beneficia o perdoado.
VM: É possível perdoar alguém, mesmo estando ainda magoada com ele?
O perdão não ocorrerá enquanto houver a mágoa. É necessária uma mudança de sentimento. Por isso, dizemos que o perdão não é um ato pontual, mas um processo longo, porque deve ser construído em nossa intimidade. Em “O Livro dos Espíritos”, obra inaugural da doutrina espírita, Allan Kardec traz a seguinte questão: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? R: Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” Em geral, quando pensamos em caridade, mentalizamos o ato de doar um bem material a alguém necessitado. Esta é a caridade material, a mais simples de ser praticada, uma obrigação de nossa parte, visto que nada de material possuímos, apenas temos o direito transitório do usufruto. A única propriedade da criatura é a sua intimidade. Por isso, estamos verdadeiramente a dar quando damos a nós mesmos. É a caridade moral. Aquela que deve ser exercida para com todos, principalmente com aqueles que estão a nossa volta – familiares, amigos, companheiros de trabalho. O perdão representa o ato mais elevado da caridade, ou podemos dizer do amor incondicional que Jesus nos ensinou. Porém, para alcançá-lo antes é preciso exercer a benevolência e a indulgência. A benevolência é fazer o bem mesmo quando nos é oferecido o mal. Certa vez, na Índia ainda dominada pela cora inglesa, os indianos não podiam transitar pela mesma calçada que os ingleses. Gandhi andava pela rua, sem temer a repreensão, foi abordado por um soldado que lhe deferiu um golpe com seu cacetete, atirando no chão. Se esboçar reação agressiva, pois seu lema era a não violência, levantou-se e continuou a caminhar, quando novamente o soldado lhe agrediu derrubando-o no chão. Diante da situação e indignado com a postura de Gandhi, o soldado lhe indagou: “ – Com quem aprendeu a ser tão covarde?”. Gandhi com sua serenidade, apontou o peito do soldado e disse-lhe: “Este homem que você carrega no peito”. O soldado portava um crucifixo com a imagem de Jesus. O homem percebendo a brutalidade que fizera deu as mãos a Gandhi ajudando a levantar-se e pedindo-lhe perdão. Este é o exemplo da benevolência. É retribuir com o bem o mal que alguém lhe fez. O passo seguinte à benevolência é a indulgência. As grandes mágoas que carregamos na alma são de pessoas da nossa intimidade. Jesus nos alertou o seguinte, conforme está escrito no evangelho de Mateus, capítulo 7, versículos de 3 a 5: “Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? – Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? – Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão”. Devemos ser vigilantes. Sempre que nos percebermos observando incomodados com os defeitos alheios, em especial daqueles que nos são próximos e íntimos, devemos nos lembrar que também temos defeitos que causam os mesmos incômodos nos outros. É a sombra psíquica, ensinada por Jung, a se manifestar neste momento, oportunidade que devemos aproveitar para trabalhar este sentimento em nós. Devemos nos indagar por que este defeito do outro me incomoda? Não haverá algo em mim que devo melhorar para que este defeito não me incomode mais? Somente após obtermos o auto perdão, que representa a aceitação de si próprio, exercer a benevolência e a indulgência é que conseguiremos perdoar verdadeiramente. Por isso, o perdão é um processo construído em nossa intimidade e que devemos por em prática no dia a dia.
VM: Perdoar significa necessariamente reconciliar-se com a pessoa que o perturbou?
Para aquele que verdadeiramente perdoa, a reconciliação é uma vontade presente. Estar de bem com a outra pessoa nos faz sentirmos bem. No entanto, nas relações humanas, em geral, somos ofendidos como também ofendemos. Para que ocorra a reconciliação é necessário que as duas partes estejam dispostas a isto, o que nem sempre acontece de pronto. Às vezes, uma das partes perdoa e deseja a reconciliação, mas a outra, ainda magoada não aceita. Para aquele que perdoa, os benefícios do perdão virão independentemente se outro quer ou não ser perdoado, pois os ganhos ocorrem na intimidade do ser. Nestes casos, o tempo, e as experiências sofridas, e a mudança de postura daquele que já perdoou levarão a outra parte também a perdoar.
VM: Este é um ponto de vista religioso, ou já foi confirmado pela ciência?
O conceito do perdão decorre de um ponto de vista religioso. Todas as religiões são dotadas de conteúdo moral semelhante, e a ideia do perdão é inânime entre elas. Alguns podem combater esta ideia confundindo a religião com certos religiosos radicais que ainda não compreenderam o conteúdo da doutrina que professam e comportam-se com intolerância. A ciência tem cada vez mais adentrado neste campo, pois o preconceito de que estes assuntos não fazem parte do escopo científico tem se tornado menor. Charlotte Van Oyen Witvliet, professora de psicologia do Hope College – Michigan – EUA, realizou um experimento com 71 voluntários pedindo a eles que se lembrassem de algum episódio que tenha causado grande mágoa em suas vidas. Monitorizados, foi possível detectar ao aumento da pressão arterial, da frequência cardíaca e do tônus muscular, semelhante ao que se observa durante uma crise de raiva. Quando ordenou que estes indivíduos mentalizassem o entendimento e o perdão com aqueles que os feriram, observou redução dos níveis de pressão arterial, frequência cardíaca e tônus muscular. A Dra. Charlotte Witvliet é uma grande pesquisadora dos efeitos do perdão, com diversos estudos publicados nesta área. O mesmo experimento foi repetido pela Dra. Britta Larsen, da Universidade da Califórnia – EUA, com 200 voluntários obtendo os mesmos resultados, indicando uma elevada evidência científica dos benefícios do perdão.
VM: Há alguns anos a medicina era mais cética, hoje, existem médicos que acreditam que a fé influencia diretamente na cura. Explique essa situação?
Durante muitos séculos a humanidade utilizou-se da religião como forma de interpretação da vida. Mas, no século XVIII, com o surgimento do Iluminismo, a ciência ganhou força e passou a ditar as regras da sociedade. Neste contexto, a ciência médica esqueceu-se do aspecto espiritual da vida limitando a existência humana apenas ao organismo físico de que somos feitos. Assim, a medicina encara a gênese das doenças como resultado da interação entre os estímulos do ambiente e a carga genética do indivíduo. Se alguém tem um infarto agudo do miocárdio é porque tem predisposição familiar e se expõe a fatores de risco como o sedentarismo, o tabagismo ou a alimentação inadequada. Mais recentemente na história da medicina, alguns pesquisadores começaram a perceber a importância da mente sobre o corpo. Foram identificadas alterações orgânicas em decorrência do estado mental do indivíduo. É o caso de pessoas com depressão que tem maior facilidade para adquirir doenças infecciosas, pois o estado depressivo provoca uma queda das defesas do organismo. Apesar deste aspecto, a mente ainda é vista pela ciência médica como um produto do cérebro, restrita ao comando dos neurônios e suas conexões. Este modo de encarar a vida e a natureza como obras do acaso e negar a existência de uma transcendência é o que chamamos de reducionismo. A medicina reduz o homem a um aglomerado de células que podem funcionar harmônica ou desarmonicamente (quando estamos doentes). Ocorre que esta visão não têm sido suficiente para explicar os fatos referentes à saúde das pessoas e muitos pesquisadores passaram a considerar que além do corpo deveria haver algo transcendente, uma alma. Muitas pesquisas têm sido feitas nesta área indicando que a abordagem médica não deve se restringir apenas ao cuidar do corpo, mas também compreender a espiritualidade da criatura humana, que se apresenta de modo fundamental na vida das pessoas. Esta abordagem não tem a intensão de converter ninguém à determinada religião. Ela busca utilizar a fé que o indivíduo já possui para auxiliar no seu processo terapêutico. A crença pode contribuir para a pessoa enfrentar a doença de modo mais tranquilo e ser mais proativo no seu tratamento. Também é possível contar com o apoio do líder religioso que pode contribuir para uma melhor adesão ao tratamento médico. O apoio social oferecido nas instituições religiosas também é muito importante. Considerando que os sentimentos são agentes importantes na origem das doenças, uma abordagem da espiritualidade e religiosidade do indivíduo se faz altamente impactante em seu processo de cura. Por tudo isso, é que muitos médicos têm abordado esta questão e utilizado a espiritualidade e a religiosidade de cada paciente para contribuir em sua terapia.
VM: Existem pesquisas que estudam a relação Fé / Cura?
Atualmente, existem mais de 40.000 pesquisas médicas que avaliam os efeitos benéficos da abordagem da espiritualidade e da religiosidade no processo de cura das doenças. Um destaque deve ser feito para o Dr. Harold Koenig, médico, professor de psiquiatria e medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Duke (Duke University Medical Center), na Carolina do Norte, Estados Unidos. O Dr. Koenig é um grande pesquisador na área de saúde e espiritualidade e já esteve em visita no Brasil. A evidência científica desta abordagem espiritual se tornou algo tão concreto que hoje já se somam 100 faculdades médicas norte-americanas que criaram uma disciplina de fé e medicina. No Brasil, ainda estamos iniciando este processo nas faculdades médicas. Mas, em termos de pesquisa, muito se tem feito por aqui. Vale destacar o geriatra Giancarlo Lucchetti e o psiquiatra Alexander Moreira Almeida que são professores da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG e o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira que fundou o Pineal Mind, instituto que realiza pesquisas nesta área. Estudos têm sido realizados nas principais Universidades do estado de São Paulo, como UNESP, USP, UNICAMP e UNIFESP. Em Botucatu, junto a Associação Médico-Espírita e Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, temos realizado uma pesquisa com voluntários para estudar os efeitos terapêuticos do passe espírita sobre o tratamento da ansiedade. Os resultados ainda são parciais, mas observamos impressionante melhora do nível de ansiedade nas pessoas submetidas a este tratamento.
Ricardo de Souza Cavalcante é médico infectologista da Comissão de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (CCIRAS) do Hospital das Clínicas de Botucatu; professor substituto da disciplina de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP; coordenador do ambulatório de infecções fúngicas e vice coordenador do serviço de infecções em transplantados do Hospital das Clínicas de Botucatu; presidente da Associação Médico-Espírita de Botucatu; membro do projeto de extensão Saúde e Espiritualidade da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Anjo Solitário - Irmão X
Anjo Solitário
Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso...
Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.
Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse a distância...
O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em bandos, a entoaram cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber.
Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insufladores energias novas.
Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.
Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.
Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz ingrata.
Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido.
Os Doadores de Carinho, em assembléia encantadora, postaram-se à frente dele e acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue.
Os Enviados da Luz acenderam focos brilhante nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar o sofrimento.
Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura.
Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros.
Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.
Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.
O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.
Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.
Esse, era o anjo divino da Caridade.
Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso...
Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.
Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse a distância...
O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em bandos, a entoaram cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber.
Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insufladores energias novas.
Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.
Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.
Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz ingrata.
Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido.
Os Doadores de Carinho, em assembléia encantadora, postaram-se à frente dele e acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue.
Os Enviados da Luz acenderam focos brilhante nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar o sofrimento.
Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura.
Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros.
Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.
Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.
O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.
Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.
Esse, era o anjo divino da Caridade.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Roteiro do ESE - 27 a 39
28 - O que se deve entender por pobres de espírito
Bem aventurados os pobres de espírito
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque
deles é o reino dos céus (Mateus, 5:3) - Rodolfo Calligaris
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus, disse Jesus, iniciando o Sermão da Montanha. Situou assim, a humildade espiritual em primeiro lugar entre as virtudes que precisamos adquirir para merecermos a glória das almas redimidas.
Exegetas do Evangelho, adulterando por completo o sentido dessa máxima, pretendem que ela proclame bem-aventurados os apoucados de inteligência, os retardados mentais, os idiotas e imbecis.
Tal interpretação, todavia, é insustentável, pois, a ser verdadeira, não haveria lugar nos céus para os ricos de espírito, e o próprio Mestre, o expoente máximo da riqueza espiritual que a Terra já conheceu, ficaria de fora.
Por "pobres de espírito", na acepção em que Jesus empregou essas palavras, devem-se entender aqueles que, aspirando à perfeição e, comparando com o ideal a ser atingido e o pequenino grau de adiantamento a que chegaram, reconhecem quanto ainda são carentes de espiritualidade.
São bem-aventurados porque a noção que têm de suas fraquezas e mazelas fá-los lutar por aquilo que lhes falta, e esse redobrar de esforços leva-os realmente a conseguirem maior progresso espiritual.
Já aqueles que se acomodam a ínfimos padrões de moralidade, ou se mostram satisfeitos com seu estado, considerando-se suficientemente bons, ao contrário dos primeiros, não se incluem entre os bem-aventurados porque, seja por ignorância, seja por orgulho, permanecem estacionários, quando a vida espiritual, assim como tudo na Natureza, rege-se por um impulso constante para a frente e para o alto.
Igualmente, os que entendem não ser preciso cultivar um caráter nobre e reto, porque (segundo julgam) "o sangue do Cristo foi derramado para remir os pecados da Humanidade",também não são incluídos entre aqueles cuja atitude de espírito foi exaltada pelo Nazareno.
Malgrado a respeitabilidade de seus princípios religiosos, só vislumbrarão o reino celestial quando venham a reconhecer a pobreza de suas virtudes, e se empenhem com afinco pelas conquistas, pois todo aquele a quem o Cristo haja redimido, de fato, terá de deixar as más obras, para "apresentar-se santo e imaculado e irrepreensível diante dele". (Colossenses, 1:22)
A colocação da humildade de espírito, como a primeira das beatitudes, parece-nos, pois, não ser meramente fortuita, mas sim proposital, visto que a felicidade futura de cada indivíduo depende muito do conceito que ele faça de si mesmo.
Quem se imagina com perfeita saúde não se preocupa com ela, nem procura um médico para tratá-la. Também aquele que se presume sem defeitos, ou já se considera salvo, descuida da higidez de sua alma, e, quando menos espera, a morte o surpreenderá sem que tenha avançado um passo sequer no sentido da realização espiritual.
NECESSITADOS DIFÍCEIS
E - Cap. XII - Item 1
Em muitas circunstâncias na Terra, interpretamos as horas escuras como sendo
unicamente aquelas em que a aflição nos atenaza a existência, em forma de tristeza,
abandono, enfermidade, privação...
O espírita, porém, sabe que subsistem outras, piores talvez... Não ignora que aparecem
dias mascarados de felicidade aparente, em que o sentimento anestesiado pela ilusão se
rende à sombra.
Tempos em que os companheiros enganados se julgam certos...
Ocasiões em que os irmãos saciados de reconforto sentem fome de luz e não sabem
disso...
Nem sempre estarão eles na berlinda, guindados, à evidência pública ou social, sob
sentenças exprobatórias ou incenso louvaminheiro da multidão...
Às vezes, renteiam conosco em casa ou na vizinhança, no trabalho ou no estudo, no
roteiro ou no ideal... O espírita consciente reconhece que são eles os necessitados
difíceis das horas escuras. Em muitos lances da estrada vê-se obrigado a comungar-lhes
a presença, a partilhar-lhes atividade, a ouvi-los e a obedecê-los, até o ponto doméstico
lhe preceituem determinadas obrigações.
Entretanto, observa que para lhes ser útil, não lhe será lícito efetivamente aplaudi-los, à
maneira do caçador que finge ternura à frente da presa, afim de esmagá-la com mais
segurança.
°°°
Como, porém, exercer a solidariedade, diante deles? - perguntarás. Como menosprezá-
los se carecem de apoio?
Precisamos, no entanto, verificar que, em muitos requisitos do concurso real, socorrer não
será sorrir.
Todos conseguimos doar cooperação fraternal aos necessitados difíceis das horas
escuras, seja silenciando ou clareando situações, nas medidas do entendimento
evangélico, sem destruir-lhes a possibilidade de aprender, crescer, melhorar e servir,
aproveitando os talentos da vida , no encargo que desempenham e na tarefa que o
Mestre lhes confiou. Mesmo quando se nos façam adversários gratuitos, podemos auxiliá-
los...
Jesus não recomendou festejar os que nos apedrejem a consciência tranqüila e nem nos
ensinou a arrasá-los. Mas, ciente de que não nos é possível concordar com eles e nem
tampouco odiá-los, exortou-nos claramente: "amai os vossos inimigos, orai pelos que vos
perseguem e caluniam!..."
É assim que a todos os necessitados difíceis das horas escuras, aos quais não nos é
facultado estender os braços de pronto, podemos amar em espírito, amparando-lhes o
caminho, através da oração.
Bem aventurados os pobres de espírito
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque
deles é o reino dos céus (Mateus, 5:3) - Rodolfo Calligaris
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus, disse Jesus, iniciando o Sermão da Montanha. Situou assim, a humildade espiritual em primeiro lugar entre as virtudes que precisamos adquirir para merecermos a glória das almas redimidas.
Exegetas do Evangelho, adulterando por completo o sentido dessa máxima, pretendem que ela proclame bem-aventurados os apoucados de inteligência, os retardados mentais, os idiotas e imbecis.
Tal interpretação, todavia, é insustentável, pois, a ser verdadeira, não haveria lugar nos céus para os ricos de espírito, e o próprio Mestre, o expoente máximo da riqueza espiritual que a Terra já conheceu, ficaria de fora.
Por "pobres de espírito", na acepção em que Jesus empregou essas palavras, devem-se entender aqueles que, aspirando à perfeição e, comparando com o ideal a ser atingido e o pequenino grau de adiantamento a que chegaram, reconhecem quanto ainda são carentes de espiritualidade.
São bem-aventurados porque a noção que têm de suas fraquezas e mazelas fá-los lutar por aquilo que lhes falta, e esse redobrar de esforços leva-os realmente a conseguirem maior progresso espiritual.
Já aqueles que se acomodam a ínfimos padrões de moralidade, ou se mostram satisfeitos com seu estado, considerando-se suficientemente bons, ao contrário dos primeiros, não se incluem entre os bem-aventurados porque, seja por ignorância, seja por orgulho, permanecem estacionários, quando a vida espiritual, assim como tudo na Natureza, rege-se por um impulso constante para a frente e para o alto.
Igualmente, os que entendem não ser preciso cultivar um caráter nobre e reto, porque (segundo julgam) "o sangue do Cristo foi derramado para remir os pecados da Humanidade",também não são incluídos entre aqueles cuja atitude de espírito foi exaltada pelo Nazareno.
Malgrado a respeitabilidade de seus princípios religiosos, só vislumbrarão o reino celestial quando venham a reconhecer a pobreza de suas virtudes, e se empenhem com afinco pelas conquistas, pois todo aquele a quem o Cristo haja redimido, de fato, terá de deixar as más obras, para "apresentar-se santo e imaculado e irrepreensível diante dele". (Colossenses, 1:22)
A colocação da humildade de espírito, como a primeira das beatitudes, parece-nos, pois, não ser meramente fortuita, mas sim proposital, visto que a felicidade futura de cada indivíduo depende muito do conceito que ele faça de si mesmo.
Quem se imagina com perfeita saúde não se preocupa com ela, nem procura um médico para tratá-la. Também aquele que se presume sem defeitos, ou já se considera salvo, descuida da higidez de sua alma, e, quando menos espera, a morte o surpreenderá sem que tenha avançado um passo sequer no sentido da realização espiritual.
NECESSITADOS DIFÍCEIS
E - Cap. XII - Item 1
Em muitas circunstâncias na Terra, interpretamos as horas escuras como sendo
unicamente aquelas em que a aflição nos atenaza a existência, em forma de tristeza,
abandono, enfermidade, privação...
O espírita, porém, sabe que subsistem outras, piores talvez... Não ignora que aparecem
dias mascarados de felicidade aparente, em que o sentimento anestesiado pela ilusão se
rende à sombra.
Tempos em que os companheiros enganados se julgam certos...
Ocasiões em que os irmãos saciados de reconforto sentem fome de luz e não sabem
disso...
Nem sempre estarão eles na berlinda, guindados, à evidência pública ou social, sob
sentenças exprobatórias ou incenso louvaminheiro da multidão...
Às vezes, renteiam conosco em casa ou na vizinhança, no trabalho ou no estudo, no
roteiro ou no ideal... O espírita consciente reconhece que são eles os necessitados
difíceis das horas escuras. Em muitos lances da estrada vê-se obrigado a comungar-lhes
a presença, a partilhar-lhes atividade, a ouvi-los e a obedecê-los, até o ponto doméstico
lhe preceituem determinadas obrigações.
Entretanto, observa que para lhes ser útil, não lhe será lícito efetivamente aplaudi-los, à
maneira do caçador que finge ternura à frente da presa, afim de esmagá-la com mais
segurança.
°°°
Como, porém, exercer a solidariedade, diante deles? - perguntarás. Como menosprezá-
los se carecem de apoio?
Precisamos, no entanto, verificar que, em muitos requisitos do concurso real, socorrer não
será sorrir.
Todos conseguimos doar cooperação fraternal aos necessitados difíceis das horas
escuras, seja silenciando ou clareando situações, nas medidas do entendimento
evangélico, sem destruir-lhes a possibilidade de aprender, crescer, melhorar e servir,
aproveitando os talentos da vida , no encargo que desempenham e na tarefa que o
Mestre lhes confiou. Mesmo quando se nos façam adversários gratuitos, podemos auxiliá-
los...
Jesus não recomendou festejar os que nos apedrejem a consciência tranqüila e nem nos
ensinou a arrasá-los. Mas, ciente de que não nos é possível concordar com eles e nem
tampouco odiá-los, exortou-nos claramente: "amai os vossos inimigos, orai pelos que vos
perseguem e caluniam!..."
É assim que a todos os necessitados difíceis das horas escuras, aos quais não nos é
facultado estender os braços de pronto, podemos amar em espírito, amparando-lhes o
caminho, através da oração.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
O Mestre e o Apóstolo
O Mestre e o Apóstolo
Emmanuel (espírito)
Jesus refere-se a Deus, junto da fé sem obras.
Kardec fala de Deus, rente às obras sem fé.
Jesus é combatido, desde a primeira hora do Evangelho, pelos que se acomodam na sombra.
Kardec é impugnado desde o primeiro dia do Espiritismo, pelos que fogem da luz.
Jesus caminha sem convenções.
Kardec age sem preconceitos.
Jesus exige coragem de atitudes.
Kardec reclama independência mental.
Jesus convida ao amor.
Kardec impele à caridade.
Jesus consola a multidão.
Kardec esclarece o povo.
Jesus acorda o sentimento.
Kardec desperta a razão.
Jesus constrói.
Kardec consolida.
Jesus revela.
Kardec descortina.
Jesus propõe.
Kardec expõe.
Jesus lança as bases do Cristianismo, entre fenômenos mediúnicos.
Kardec recebe os princípios da Doutrina, através da mediunidade.
Jesus afirma que é preciso nascer de novo.
Kardec explica a reencarnação.
Jesus reporta-se a outras moradas.
Kardec menciona outros mundos.
Jesus espera que a verdade emancipe os homens; ensina que a justiça atribui a cada um pelas próprias obras e anuncia que o Criador será adorado, na Terra, em espírito.
Kardec esculpe na consciência as leis do Universo.
Em suma, diante do acesso aos mais altos valores da vida, Jesus e Kardec estão perfeitamente conjugados pela Sabedoria Divina.
Jesus, a porta.
Kardec, a chave.
EMMANUEL (Opinião Espírita, cap. 2, CEC)
Emmanuel (espírito)
Jesus refere-se a Deus, junto da fé sem obras.
Kardec fala de Deus, rente às obras sem fé.
Jesus é combatido, desde a primeira hora do Evangelho, pelos que se acomodam na sombra.
Kardec é impugnado desde o primeiro dia do Espiritismo, pelos que fogem da luz.
Jesus caminha sem convenções.
Kardec age sem preconceitos.
Jesus exige coragem de atitudes.
Kardec reclama independência mental.
Jesus convida ao amor.
Kardec impele à caridade.
Jesus consola a multidão.
Kardec esclarece o povo.
Jesus acorda o sentimento.
Kardec desperta a razão.
Jesus constrói.
Kardec consolida.
Jesus revela.
Kardec descortina.
Jesus propõe.
Kardec expõe.
Jesus lança as bases do Cristianismo, entre fenômenos mediúnicos.
Kardec recebe os princípios da Doutrina, através da mediunidade.
Jesus afirma que é preciso nascer de novo.
Kardec explica a reencarnação.
Jesus reporta-se a outras moradas.
Kardec menciona outros mundos.
Jesus espera que a verdade emancipe os homens; ensina que a justiça atribui a cada um pelas próprias obras e anuncia que o Criador será adorado, na Terra, em espírito.
Kardec esculpe na consciência as leis do Universo.
Em suma, diante do acesso aos mais altos valores da vida, Jesus e Kardec estão perfeitamente conjugados pela Sabedoria Divina.
Jesus, a porta.
Kardec, a chave.
EMMANUEL (Opinião Espírita, cap. 2, CEC)
Allan Kardec em "O consolador"
7. Allan Kardec
1 A ação de Bonaparte, invadindo as searas alheias com o seu movimento de transformação e conquistas, fugindo à finalidade de missionário da reorganização do povo francês, compeliu o mundo espiritual a tomar enérgicas providências contra o seu despotismo e vaidade orgulhosa. 2 Aproximavam-se os tempos em que Jesus deveria enviar ao mundo o Consolador, de acordo com as suas auspiciosas promessas.
3 Apelos ardentes são dirigidos ao Divino Mestre, pelos gênios tutelares dos povos terrestres. 4 Assembleias numerosas se reúnem e confraternizam nos Espaços, nas Esferas mais próximas da Terra. 5 Um dos mais lúcidos discípulos do Cristo baixa ao planeta, compenetrado de sua missão consoladora, e, dois meses antes de Napoleão Bonaparte sagrar-se imperador, obrigando o papa Pio VII W a coroá-lo na igreja de Notre Dame, W em Paris, nascia Allan Kardec, aos 3 de outubro de 1804, com a sagrada missão de abrir caminho ao Espiritismo, a grande voz do Consolador prometido ao mundo pela misericórdia de Jesus-Cristo.
.Emmanuel
Em verdade vos digo: os que carregam seus fardos e assistem os seus irmãos são os meus bem-amados. Instrui-vos na preciosa doutrina que dissipa o erro das revoltas e vos ensina o objetivo sublime da prova humana. Como o vento varre a poeira, que o sopro dos Espíritos dissipe a vossa inveja dos ricos do mundo, que são freqüentemente os mais miseráveis, porque suas provas são mais perigosas que as vossas. Estou convosco, e meu apóstolo vos ensina. Bebei na fonte viva do amor, e preparai-vos, cativos da vida, para vos lançardes um dia, livres e alegres, no seio daquele que vos criou fracos para vos tornar perfeitos, e deseja que modeleis vós mesmos a vossa dócil argila, para serdes os artífices da vossa imortalidade.
ESE 6-6
Kardec e Napoleão
Kardec e Napoleão
Irmão X
Logo após o 18 Brumário (9 de novembro de 1799) quando Napoleão se fizera o Primeiro-Cônsul da República Francesa, reuniu-se, na noite de 31 de dezembro de 1799, no coração da latinidade, nas Esferas Superiores, grande assembleia de Espíritos sábios e benevolentes, para marcarem a entrada significativa do novo século.
Antigas personalidades de Roma imperial, pontífices e guerreiros das Gálias, figuras notáveis da Espanha, ali se congregavam à espera do expressivo acontecimento.
Legiões dos Césares, com os seus estandartes, falanges de batalhadores do mundo gaulês e grupos de pioneiros da evolução hispânica, associados a múltiplos representantes das Américas, guardavam linhas simbólicas de posição de destaque.
Mas não somente os latinos se faziam representados no grande conclave. Gregos ilustres, lembrando as confabulações da Acrópole gloriosa, israelitas famosos, recordando o Templo de Jerusalém, deputações eslavas e germânicas, grandes vultos da Inglaterra, sábios chineses, filósofos hindus, teólogos budistas, sacrificadores das divindades olímpicas, renomados sacerdotes da Igreja Romana e continuadores de Maomé ali se mostravam, como em vasta convocação de forças da ciência e da cultura da Humanidade.
No concerto das brilhantes delegações que aí formavam, com toda a sua fulguração representativa, surgiam Espíritos de velhos batalhadores do progresso que voltariam à liça carnal ou que a seguiriam, de perto, para o combate à ignorância e à miséria, na laboriosa preparação da nova era da fraternidade e da luz.
No deslumbrante espetáculo da Espiritualidade Superior, com a refulgência de suas almas, achavam-se Sócrates, Platão, Aristóteles, Apolônio de Tiana, Orígenes, Hipócrates, Agostinho, Fénelon, Giordano Bruno, Tomás de Aquino, S. Luís de França, Vicente de Paulo, Joana D’Arc, Teresa d’Avila, Catarina de Siena, Bossuet, Spinoza, Erasmo, Milton, Cristóvão Colombo, Gutenberg, Galileu, Pascal, Swedenborg e Dante Alighieri, para mencionar apenas alguns heróis e paladinos da renovação terrestre; e, em plano menos brilhante, encontravam-se, no recinto maravilhoso, trabalhadores de ordem inferior, incluindo muitos dos ilustres guilhotinados da Revolução, quais Luiz XVI, Maria Antonieta, Robespierre, Danton, Madame Roland, André Chenier, Bailly, Camille Desmoulins e grandes vultos como Voltaire e Rousseau.
Depois da palavra rápida de alguns orientadores eminentes, invisíveis clarins soaram na direção do plano carnal e, em breves instantes, do seio da noite, que velava o corpo ciclópico do mundo europeu, emergiu, sob a custódia de esclarecidos mensageiros, reduzido cortejo de sombras, que pareciam estranhas e vacilantes, confrontadas com as feéricas irradiações do palácio festivo.
Era um grupo de almas, ainda encarnadas, que, constrangidas pela Organização Celeste, remontavam à vida espiritual, para a reafirmação de compromissos.
À frente, vinha Napoleão, que centralizou o interesse de todos os circunstantes. Era bem o grande corso, com os seus trajes habituais e com o seu chapéu característico.
Recebido por diversas figuras da Roma antiga, que se apressavam em oferecer-lhe apoio e auxílio, o vencedor de Rivoli ocupou radiosa poltrona que, de antemão, lhe fora preparada.
Entre aqueles que o seguiam, na singular excursão, encontravam-se respeitáveis autoridades reencarnadas no Planeta, como Beethoven, Ampère, Fulton, Faraday, Goethe, João Dalton, Pestalozzi, Pio VII, além de muitos outros campeões da prosperidade e da independência do mundo.
Acanhados no veículo espiritual que os prendia à carne terrestre, quase todos os recém-vindos banhavam-se em lágrimas de alegria e emoção.
O Primeiro-Cônsul da França, porém, trazia os olhos enxutos, não obstante a extrema palidez que lhe cobria a face. Recebendo o louvor de várias legiões, limitava-se a responder com acenos discretos, quando os clarins ressoaram, de modo diverso, como se se pusessem a voar para os cimos, no rumo do imenso infinito...
Imediatamente uma estrada de luz, à maneira de ponte levadiça, projetou-se do Céu, ligando-se ao castelo prodigioso, dando passagem a inúmeras estrelas resplendentes.
Em alcançando o solo delicado, contudo, esses astros se transformavam em seres humanos, nimbados de claridade celestial.
Dentre todos, no entanto, um deles avultava em superioridade e beleza. Tiara rutilante brilhava-lhe na cabeça, como que a aureolar-lhe de bênçãos o olhar magnânimo, cheio de atração e doçura. Na destra, guardava um cetro dourado, a recamar-se de sublimes cintilações...
Musicistas invisíveis, através dos zéfiros que passavam apressados, prorromperam num cântico de hosanas, sem palavras articuladas.
A multidão mostrou profunda reverência, ajoelhando-se muitos dos sábios e guerreiros, artistas e pensadores, enquanto todos os pendões dos vexilários arriavam, silenciosos, em sinal de respeito.
Foi então que o grande corso se pôs em lágrimas e, levantando-se, avançou com dificuldade, na direção do mensageiro que trazia o báculo de ouro, postando-se, genuflexo, diante dele.
O celeste emissário, sorrindo com naturalidade, ergueu-o, de pronto, e procurava abraçá-lo, quando o Céu pareceu abrir-se diante de todos, e uma voz enérgica e doce, forte como a ventania e veludosa como a ignorada melodia da fonte, exclamou para Napoleão, que parecia eletrizado de pavor e júbilo, ao mesmo tempo:
– Irmão e amigo, ouve a Verdade, que te fala em meu espírito! Eis-te à frente do apóstolo da fé, que, sob a égide do Cristo, descerrará para a Terra atormentada um novo ciclo de conhecimento...
César ontem, e hoje orientador, rende o culto de tua veneração, ante o pontífice da luz! Renova, perante o Evangelho, o compromisso de auxiliar-lhe a obra renascente!...
Aqui se congregam conosco lidadores de todas as épocas. Patriotas de Roma e das Gálias, generais e soldados que te acompanharam nos conflitos da Farsália, de Tapso e de Munda, remanescentes das batalhas de Gergóvia e de Alésia aqui te surpreendem com simpatia e expectação... Antigamente, no trono absoluto, pretendias-te descendente dos deuses para dominar a Terra e aniquilar os inimigos... Agora, porém, o Supremo Senhor concedeu-te por berço uma ilha perdida no mar, para que te não esqueças da pequenez humana e determinou voltasses ao coração do povo que outrora humilhaste e escarneceste, a fim de que lhe garantas a missão gigantesca, junto da Humanidade, no século que vamos iniciar.
Colocado pela Sabedoria Celeste na condição de timoneiro da ordem, no mar de sangue da Revolução, não olvides o mandato para o qual foste escolhido.
Não acredites que as vitórias das quais foste investido para o Consulado devam ser atribuídas exclusivamente ao teu gênio militar e político. A Vontade do Senhor expressa-se nas circunstâncias da vida. Unge-te de coragem para governar sem ambição e reger sem ódio. Recorre à oração e à humildade para que te não arrojes aos precipícios da tirania e da violência!...
Indicado para consolidar a paz e a segurança, necessárias ao êxito do abnegado apóstolo que descortinará a era nova, serás visitado pelas monstruosas tentações do poder.
Não te fascines pela vaidade que buscará coroar-te a fronte... Lembra-te de que o sofrimento do povo francês, perseguido pelos flagelos da guerra civil, é o preço da liberdade humana que deves defender, até o sacrifício. Não te macules com a escravidão dos povos fracos e oprimidos e nem enlameies os teus compromissos com o exclusivismo e com a vingança!...
Recorda que, obedecendo a injunções do pretérito, renasceste para garantir o ministério espiritual do discípulo de Jesus que regressa à experiência terrestre, e vale-te da oportunidade para santificar os excelsos princípios da bondade e do perdão, do serviço e da fraternidade do Cordeiro de Deus, que nos ouve em seu glorificado sólio de sabedoria e de amor!
Se honrares as tuas promessas, terminarás a missão com o reconhecimento da posteridade e escalarás horizontes mais altos da vida, mas, se as tuas responsabilidades forem menosprezadas, sombrias aflições amontoar-se-ão sobre as tuas horas, que passarão a ser gemidos escuros em extenso deserto...
Dentro do novo século, começaremos a preparação do terceiro milênio do Cristianismo na Terra.
Novas concepções de liberdade surgirão para os homens, a Ciência erguer-se-á a indefiníveis culminâncias, as nações cultas abandonarão para sempre o cativeiro e o tráfico de criaturas livres, e a religião desatará os grilhões do pensamento que, até hoje, encarceram as melhores aspirações da alma no inferno sem perdão!...
Confiamos, pois, ao teu espírito valoroso a governança política dos novos eventos e que o Senhor te abençoe!...
Cânticos de alegria e esperança anunciaram nos céus a chegada do século XIX e, enquanto o Espírito da Verdade, seguido por várias coortes resplandecentes, voltava para o Alto, a inolvidável assembleia se dissolvia...
O apóstolo que seria Allan Kardec, sustentando Napoleão nos braços, conchegou-o de encontro ao peito e acompanhou-o, bondosamente, até religá-lo ao corpo de carne, no próprio leito.
Em 3 de outubro de 1804, o mensageiro da renovação renascia num abençoado lar de Lião, mas o Primeiro-Cônsul da República Francesa, assim que se viu desembaraçado da influência benéfica e protetora do Espírito de Allan Kardec e de seus cooperadores, que retomavam, pouco a pouco, a integração com a carne, confiantes e otimistas, engalanou-se com a púrpura do mando, e, embriagado de poder, proclamou-se Imperador, em 18 de maio de 1804, ordenando a Pio VII viesse coroá-lo em Paris.
Napoleão, contudo, convertendo celestes concessões em aventuras sanguinolentas, foi apressadamente situado, por determinação do Alto, na solidão curativa de Santa Helena, onde esperou a morte, enquanto Allan Kardec, apagando a própria grandeza, na humildade de um mestre-escola, muita vez atormentado e desiludido, como simples homem do povo, deu integral cumprimento à divina missão que trazia à Terra, inaugurando a era espírita-cristã, que, gradativamente, será considerada em todo os quadrantes do orbe como a sublime renascença da luz para o mundo inteiro.
Do livro Cartas e Crônicas, de Irmão X, obra psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
Irmão X
Logo após o 18 Brumário (9 de novembro de 1799) quando Napoleão se fizera o Primeiro-Cônsul da República Francesa, reuniu-se, na noite de 31 de dezembro de 1799, no coração da latinidade, nas Esferas Superiores, grande assembleia de Espíritos sábios e benevolentes, para marcarem a entrada significativa do novo século.
Antigas personalidades de Roma imperial, pontífices e guerreiros das Gálias, figuras notáveis da Espanha, ali se congregavam à espera do expressivo acontecimento.
Legiões dos Césares, com os seus estandartes, falanges de batalhadores do mundo gaulês e grupos de pioneiros da evolução hispânica, associados a múltiplos representantes das Américas, guardavam linhas simbólicas de posição de destaque.
Mas não somente os latinos se faziam representados no grande conclave. Gregos ilustres, lembrando as confabulações da Acrópole gloriosa, israelitas famosos, recordando o Templo de Jerusalém, deputações eslavas e germânicas, grandes vultos da Inglaterra, sábios chineses, filósofos hindus, teólogos budistas, sacrificadores das divindades olímpicas, renomados sacerdotes da Igreja Romana e continuadores de Maomé ali se mostravam, como em vasta convocação de forças da ciência e da cultura da Humanidade.
No concerto das brilhantes delegações que aí formavam, com toda a sua fulguração representativa, surgiam Espíritos de velhos batalhadores do progresso que voltariam à liça carnal ou que a seguiriam, de perto, para o combate à ignorância e à miséria, na laboriosa preparação da nova era da fraternidade e da luz.
No deslumbrante espetáculo da Espiritualidade Superior, com a refulgência de suas almas, achavam-se Sócrates, Platão, Aristóteles, Apolônio de Tiana, Orígenes, Hipócrates, Agostinho, Fénelon, Giordano Bruno, Tomás de Aquino, S. Luís de França, Vicente de Paulo, Joana D’Arc, Teresa d’Avila, Catarina de Siena, Bossuet, Spinoza, Erasmo, Milton, Cristóvão Colombo, Gutenberg, Galileu, Pascal, Swedenborg e Dante Alighieri, para mencionar apenas alguns heróis e paladinos da renovação terrestre; e, em plano menos brilhante, encontravam-se, no recinto maravilhoso, trabalhadores de ordem inferior, incluindo muitos dos ilustres guilhotinados da Revolução, quais Luiz XVI, Maria Antonieta, Robespierre, Danton, Madame Roland, André Chenier, Bailly, Camille Desmoulins e grandes vultos como Voltaire e Rousseau.
Depois da palavra rápida de alguns orientadores eminentes, invisíveis clarins soaram na direção do plano carnal e, em breves instantes, do seio da noite, que velava o corpo ciclópico do mundo europeu, emergiu, sob a custódia de esclarecidos mensageiros, reduzido cortejo de sombras, que pareciam estranhas e vacilantes, confrontadas com as feéricas irradiações do palácio festivo.
Era um grupo de almas, ainda encarnadas, que, constrangidas pela Organização Celeste, remontavam à vida espiritual, para a reafirmação de compromissos.
À frente, vinha Napoleão, que centralizou o interesse de todos os circunstantes. Era bem o grande corso, com os seus trajes habituais e com o seu chapéu característico.
Recebido por diversas figuras da Roma antiga, que se apressavam em oferecer-lhe apoio e auxílio, o vencedor de Rivoli ocupou radiosa poltrona que, de antemão, lhe fora preparada.
Entre aqueles que o seguiam, na singular excursão, encontravam-se respeitáveis autoridades reencarnadas no Planeta, como Beethoven, Ampère, Fulton, Faraday, Goethe, João Dalton, Pestalozzi, Pio VII, além de muitos outros campeões da prosperidade e da independência do mundo.
Acanhados no veículo espiritual que os prendia à carne terrestre, quase todos os recém-vindos banhavam-se em lágrimas de alegria e emoção.
O Primeiro-Cônsul da França, porém, trazia os olhos enxutos, não obstante a extrema palidez que lhe cobria a face. Recebendo o louvor de várias legiões, limitava-se a responder com acenos discretos, quando os clarins ressoaram, de modo diverso, como se se pusessem a voar para os cimos, no rumo do imenso infinito...
Imediatamente uma estrada de luz, à maneira de ponte levadiça, projetou-se do Céu, ligando-se ao castelo prodigioso, dando passagem a inúmeras estrelas resplendentes.
Em alcançando o solo delicado, contudo, esses astros se transformavam em seres humanos, nimbados de claridade celestial.
Dentre todos, no entanto, um deles avultava em superioridade e beleza. Tiara rutilante brilhava-lhe na cabeça, como que a aureolar-lhe de bênçãos o olhar magnânimo, cheio de atração e doçura. Na destra, guardava um cetro dourado, a recamar-se de sublimes cintilações...
Musicistas invisíveis, através dos zéfiros que passavam apressados, prorromperam num cântico de hosanas, sem palavras articuladas.
A multidão mostrou profunda reverência, ajoelhando-se muitos dos sábios e guerreiros, artistas e pensadores, enquanto todos os pendões dos vexilários arriavam, silenciosos, em sinal de respeito.
Foi então que o grande corso se pôs em lágrimas e, levantando-se, avançou com dificuldade, na direção do mensageiro que trazia o báculo de ouro, postando-se, genuflexo, diante dele.
O celeste emissário, sorrindo com naturalidade, ergueu-o, de pronto, e procurava abraçá-lo, quando o Céu pareceu abrir-se diante de todos, e uma voz enérgica e doce, forte como a ventania e veludosa como a ignorada melodia da fonte, exclamou para Napoleão, que parecia eletrizado de pavor e júbilo, ao mesmo tempo:
– Irmão e amigo, ouve a Verdade, que te fala em meu espírito! Eis-te à frente do apóstolo da fé, que, sob a égide do Cristo, descerrará para a Terra atormentada um novo ciclo de conhecimento...
César ontem, e hoje orientador, rende o culto de tua veneração, ante o pontífice da luz! Renova, perante o Evangelho, o compromisso de auxiliar-lhe a obra renascente!...
Aqui se congregam conosco lidadores de todas as épocas. Patriotas de Roma e das Gálias, generais e soldados que te acompanharam nos conflitos da Farsália, de Tapso e de Munda, remanescentes das batalhas de Gergóvia e de Alésia aqui te surpreendem com simpatia e expectação... Antigamente, no trono absoluto, pretendias-te descendente dos deuses para dominar a Terra e aniquilar os inimigos... Agora, porém, o Supremo Senhor concedeu-te por berço uma ilha perdida no mar, para que te não esqueças da pequenez humana e determinou voltasses ao coração do povo que outrora humilhaste e escarneceste, a fim de que lhe garantas a missão gigantesca, junto da Humanidade, no século que vamos iniciar.
Colocado pela Sabedoria Celeste na condição de timoneiro da ordem, no mar de sangue da Revolução, não olvides o mandato para o qual foste escolhido.
Não acredites que as vitórias das quais foste investido para o Consulado devam ser atribuídas exclusivamente ao teu gênio militar e político. A Vontade do Senhor expressa-se nas circunstâncias da vida. Unge-te de coragem para governar sem ambição e reger sem ódio. Recorre à oração e à humildade para que te não arrojes aos precipícios da tirania e da violência!...
Indicado para consolidar a paz e a segurança, necessárias ao êxito do abnegado apóstolo que descortinará a era nova, serás visitado pelas monstruosas tentações do poder.
Não te fascines pela vaidade que buscará coroar-te a fronte... Lembra-te de que o sofrimento do povo francês, perseguido pelos flagelos da guerra civil, é o preço da liberdade humana que deves defender, até o sacrifício. Não te macules com a escravidão dos povos fracos e oprimidos e nem enlameies os teus compromissos com o exclusivismo e com a vingança!...
Recorda que, obedecendo a injunções do pretérito, renasceste para garantir o ministério espiritual do discípulo de Jesus que regressa à experiência terrestre, e vale-te da oportunidade para santificar os excelsos princípios da bondade e do perdão, do serviço e da fraternidade do Cordeiro de Deus, que nos ouve em seu glorificado sólio de sabedoria e de amor!
Se honrares as tuas promessas, terminarás a missão com o reconhecimento da posteridade e escalarás horizontes mais altos da vida, mas, se as tuas responsabilidades forem menosprezadas, sombrias aflições amontoar-se-ão sobre as tuas horas, que passarão a ser gemidos escuros em extenso deserto...
Dentro do novo século, começaremos a preparação do terceiro milênio do Cristianismo na Terra.
Novas concepções de liberdade surgirão para os homens, a Ciência erguer-se-á a indefiníveis culminâncias, as nações cultas abandonarão para sempre o cativeiro e o tráfico de criaturas livres, e a religião desatará os grilhões do pensamento que, até hoje, encarceram as melhores aspirações da alma no inferno sem perdão!...
Confiamos, pois, ao teu espírito valoroso a governança política dos novos eventos e que o Senhor te abençoe!...
Cânticos de alegria e esperança anunciaram nos céus a chegada do século XIX e, enquanto o Espírito da Verdade, seguido por várias coortes resplandecentes, voltava para o Alto, a inolvidável assembleia se dissolvia...
O apóstolo que seria Allan Kardec, sustentando Napoleão nos braços, conchegou-o de encontro ao peito e acompanhou-o, bondosamente, até religá-lo ao corpo de carne, no próprio leito.
Em 3 de outubro de 1804, o mensageiro da renovação renascia num abençoado lar de Lião, mas o Primeiro-Cônsul da República Francesa, assim que se viu desembaraçado da influência benéfica e protetora do Espírito de Allan Kardec e de seus cooperadores, que retomavam, pouco a pouco, a integração com a carne, confiantes e otimistas, engalanou-se com a púrpura do mando, e, embriagado de poder, proclamou-se Imperador, em 18 de maio de 1804, ordenando a Pio VII viesse coroá-lo em Paris.
Napoleão, contudo, convertendo celestes concessões em aventuras sanguinolentas, foi apressadamente situado, por determinação do Alto, na solidão curativa de Santa Helena, onde esperou a morte, enquanto Allan Kardec, apagando a própria grandeza, na humildade de um mestre-escola, muita vez atormentado e desiludido, como simples homem do povo, deu integral cumprimento à divina missão que trazia à Terra, inaugurando a era espírita-cristã, que, gradativamente, será considerada em todo os quadrantes do orbe como a sublime renascença da luz para o mundo inteiro.
Do livro Cartas e Crônicas, de Irmão X, obra psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.
A ORDEM DO MESTRE
A ORDEM DO MESTRE
Humberto de Campos
Avizinhando-se o Natal, havia também no Céu um rebuliço de alegrias suaves. Os Anjos acendiam estrelas nos cômoros de neblinas douradas e vibravam no ar as harmonias misteriosas que encheram um dia de encantadora suavidade a noite de Belém. Os pastores do paraíso cantavam e, enquanto as harpas divinas tangiam suas cordas sob o esforço caricioso dos zéfiros da imensidade, o Senhor chamou o Discípulo Bem-Amado ao seu trono de jasmins matizados de estrelas.
O vidente de Patmos não trazia o estigma da decrepitude como nos seus últimos dias entre as Espórades. Na sua fisionomia pairava aquela mesma candura adolescente que o caracterizava no princípio do seu apostolado.
- João – disse-lhe o Mestre – lembras-te do meu aparecimento na Terra?
- Recordo-me, Senhor. Foi no ano 749 da era romana, apesar da arbitrariedade de frei Dionísios, que colocou erradamente o vosso natalício em 754, calculando no século VI da era cristã.
- Não, meu João – retornou docemente o Senhor – não é a questão cronológica que me interessa em te argüindo sobre o passado. É que nessas suaves comemorações vem até mim o murmúrio doce das lembranças!...
- Ah! sim, Mestre Amado – retrucou pressuroso o Discípulo – compreendo-vos. Falais da significação moral do acontecimento. Oh!...se me lembro... a manjedoira, a estrela guiando os poderosos ao estábulo humilde, os cânticos harmoniosos dos pastores, a alegria ressoante dos inocentes, afigurando-se-nos que os animais vos compreendiam mais que os homens, aos quais ofertáveis a lição da humildade com o tesouro da fé e da esperança. Naquela noite divina, todas as potências angélicas do paraíso se inclinaram sobre a Terra cheia de gemidos e de amargura para exaltar a mansidão e a piedade do Cordeiro. Uma promessa de paz desabrochava para todas as coisas com o vosso aparecimento sobre o mundo. Estabelecera-se um noivado meigo entre a Terra e o Céu e recordo-me do júbilo com que Vossa Mãe vos recebeu nos seus braços feitos de amor e de misericórdia. Dir-se-ia, Mestre, que as estrelas de ouro do paraíso fabricaram, naquela noite de aromas e de radiosidades indefiníveis um mel divino no coração piedoso de Maria!...
Retrocedendo no tempo, meu Senhor bem-amado, vejo o transcurso da vossa infância, sentindo o martírio de que fostes objeto; o extermínio das crianças de Vossa idade, a fuga nos braços carinhosos da Vossa progenitora, os trabalhos manuais em companhia de José, as vossas visões maravilhosas no Infinito, em comunhão constante com o Vosso e nosso Pai, preparando-Vos para o desempenho da missão única que Vos fez abandonar por alguns momentos os palácios de sol da mansão celestial para descer sobre as lamas da Terra.
- Sim, meu João, e, por falar nos meus deveres, como seguem no mundo as coisas atinentes à minha doutrina?
- Vão mal, meu Senhor. Desde o concílio ecumênico de Nicéia, efetuado para combater o cisma de Ario em 325, as vossas verdades são deturpadas. Ao arianismo seguiu-se o movimento dos inconoclastas em 787 e tanto contrariaram os homens o Vosso ensinamento de pureza e de simplicidade, que eles próprios nunca mais se entenderam na interpretação dos textos evangélicos.
- Mas não te recordas, João, que a minha doutrina era sempre acessível a todos os entendimentos? Deixei aos homens a lição do caminho, da verdade e da vida sem lhes haver escrito uma só palavra.
- Tudo isso é verdade, Senhor, mas logo que regressastes aos vossos impérios resplandecentes, reconhecemos a necessidade de legar à posteridade os vossos ensinamentos. Os evangelhos constituem a vossa biografia na Terra; contudo, os homens não dispensam, em suas atividades, o véu da matéria e do símbolo. A todas as coisas puras da espiritualidade adicionam a extravagância de suas concepções. Nem nós e nem os evangelhos poderíamos escapar. Em diversas basílicas de Rávena e de Roma, Mateus é representado por um jo0vem, Marcos por um leão, Lucas por um touro e eu, Senhor, estou ali sob o símbolo estranho de uma águia.
- E os meus representante, João, que fazem eles?
- Mestre, envengonho-me de o dizer. Andam quase todos mergulhados nos interesses da vida material. Em sua maioria, aproveitam-se das oportunidades para explorar o vosso nome e, quando se voltam para o campo religioso, é quase que apenas para se condenarem uns aos outros, esquecendo-se de que lhes ensinastes a se amarem como irmãos.
- As discussões e os símbolos, meu querido – disse-lhe suavemente o Mestre – não me impressionam tanto. Tiveste, como eu, necessidade destes últimos, para as predicações e, sobre a luta das idéias, não te lembras quanta autoridade fui obrigado a despender, mesmo depois da minha volta da Terra, para que Pedro e Paulo não se tornassem inimigos? Se entre meus apóstolos prevaleciam semelhantes desuniões, como poderíamos eliminá-las do ambiente dos homens, que não me viram, sempre inquietos nas suas indagações? ... O que me contrista é o apego dos meus missionários aos prazeres fugitivos do mundo!
- É verdade, Senhor.
- Qual o núcleo de minha doutrina que detém no momento maior força de expressão?
- É o departamento dos bispos romanos, que se recolheram dentro de uma organização admirável pela sua disciplina, mas altamente perniciosa pelos seus desvios da verdade. O Vaticano, Senhor, que não conheceis, é um amontoado suntuoso das riquezas das traças e dos vermes da Terra. Dos seus palácios confortáveis e maravilhosos irradia-se todo um movimento de escravização das consciências. Enquanto vós não tínheis uma pedra onde repousar a cabeça, dolorida os vossos representantes dormem a sua sesta sobre almofadas de veludo e de ouro; enquanto trazíeis os vossos pés macerados nas pedras do caminho escabroso, quem se inculca como vosso embaixador traz a vossa imagem nas sandálias matizadas de pérolas e de brilhantes. E junto de semelhantes superfluidades e absurdos, surpreendemos os pobres chorando de cansaço e de fome; ao lado do luxo nababesco das basílicas suntuosas, erigidas no mundo como um insulto à glória da vossa humildade e do vosso amor, choram as crianças desamparadas, os mesmos pequeninos a quem estendíeis os vossos braços compassivos e misericordiosos. Enquanto sobram as lágrimas e os soluços entre os infortunados, nos templos, onde se cultua a vossa memória, transbordam moedas em mãos cheias, parecendo, com amarga ironia, que o dinheiro é uma defecação do demônio no chão acolhedor da vossa casa.
- Então, meu Discípulo, não poderemos alimentar nenhuma esperança?
- Infelizmente, Senhor, é preciso que nos desenganemos. Por um estranho contraste, há mais ateus benquistos no Céu do que aqueles religiosos que falavam em vosso nome na Terra.
- Entretanto – sussurraram os lábios divinos docemente – consagro o mesmo amor à humanidade sofredora. Não obstante a negativa dos filósofos, as ousadias da ciência, o apodo dos ingratos, a minha piedade é inalterável... Que sugeres, meu João, para solucionar tão amargo problema?
- Já não dissestes, um dia, Mestre, que cada qual tomasse a sua cruz e vos seguisse?
- Mas prometi ao mundo um Consolador em tempo oportuno!...
E os olhos claros e límpidos, postos na visão piedosa do amor de seu Pai Celestial, Jesus exclamou:
- Se os vivos nos traíram, meu Discípulo Bem-Amado, se traficam com o objeto sagrado da vossa casa, profligando a fraternidade e o amor, mandarei que os mortos falem na Terra em meu nome. Deste Natal em diante, meu João, descerrarás mais um fragmento dos véus misteriosos que cobrem a noite triste dos túmulos para que a verdade ressurja das mansões silenciosas da Morte. Os que já voltaram pelos caminhos ermos da sepultura retornarão à Terra para difundirem a minha mensagem, levando aos que sofrem, coma esperança posta no Céu as claridades benditas do meu amor!...
E desde essa hora memorável, há mais de cinqüenta anos, o Espiritismo veio, com as suas lições prestigiosas, felicitar e amparar na Terra a todas as criaturas.
Humberto de Campos
(Recebida em Pedro Leopoldo a 20 de dezembro de 1935)
Do livro Crônico de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
Humberto de Campos
Avizinhando-se o Natal, havia também no Céu um rebuliço de alegrias suaves. Os Anjos acendiam estrelas nos cômoros de neblinas douradas e vibravam no ar as harmonias misteriosas que encheram um dia de encantadora suavidade a noite de Belém. Os pastores do paraíso cantavam e, enquanto as harpas divinas tangiam suas cordas sob o esforço caricioso dos zéfiros da imensidade, o Senhor chamou o Discípulo Bem-Amado ao seu trono de jasmins matizados de estrelas.
O vidente de Patmos não trazia o estigma da decrepitude como nos seus últimos dias entre as Espórades. Na sua fisionomia pairava aquela mesma candura adolescente que o caracterizava no princípio do seu apostolado.
- João – disse-lhe o Mestre – lembras-te do meu aparecimento na Terra?
- Recordo-me, Senhor. Foi no ano 749 da era romana, apesar da arbitrariedade de frei Dionísios, que colocou erradamente o vosso natalício em 754, calculando no século VI da era cristã.
- Não, meu João – retornou docemente o Senhor – não é a questão cronológica que me interessa em te argüindo sobre o passado. É que nessas suaves comemorações vem até mim o murmúrio doce das lembranças!...
- Ah! sim, Mestre Amado – retrucou pressuroso o Discípulo – compreendo-vos. Falais da significação moral do acontecimento. Oh!...se me lembro... a manjedoira, a estrela guiando os poderosos ao estábulo humilde, os cânticos harmoniosos dos pastores, a alegria ressoante dos inocentes, afigurando-se-nos que os animais vos compreendiam mais que os homens, aos quais ofertáveis a lição da humildade com o tesouro da fé e da esperança. Naquela noite divina, todas as potências angélicas do paraíso se inclinaram sobre a Terra cheia de gemidos e de amargura para exaltar a mansidão e a piedade do Cordeiro. Uma promessa de paz desabrochava para todas as coisas com o vosso aparecimento sobre o mundo. Estabelecera-se um noivado meigo entre a Terra e o Céu e recordo-me do júbilo com que Vossa Mãe vos recebeu nos seus braços feitos de amor e de misericórdia. Dir-se-ia, Mestre, que as estrelas de ouro do paraíso fabricaram, naquela noite de aromas e de radiosidades indefiníveis um mel divino no coração piedoso de Maria!...
Retrocedendo no tempo, meu Senhor bem-amado, vejo o transcurso da vossa infância, sentindo o martírio de que fostes objeto; o extermínio das crianças de Vossa idade, a fuga nos braços carinhosos da Vossa progenitora, os trabalhos manuais em companhia de José, as vossas visões maravilhosas no Infinito, em comunhão constante com o Vosso e nosso Pai, preparando-Vos para o desempenho da missão única que Vos fez abandonar por alguns momentos os palácios de sol da mansão celestial para descer sobre as lamas da Terra.
- Sim, meu João, e, por falar nos meus deveres, como seguem no mundo as coisas atinentes à minha doutrina?
- Vão mal, meu Senhor. Desde o concílio ecumênico de Nicéia, efetuado para combater o cisma de Ario em 325, as vossas verdades são deturpadas. Ao arianismo seguiu-se o movimento dos inconoclastas em 787 e tanto contrariaram os homens o Vosso ensinamento de pureza e de simplicidade, que eles próprios nunca mais se entenderam na interpretação dos textos evangélicos.
- Mas não te recordas, João, que a minha doutrina era sempre acessível a todos os entendimentos? Deixei aos homens a lição do caminho, da verdade e da vida sem lhes haver escrito uma só palavra.
- Tudo isso é verdade, Senhor, mas logo que regressastes aos vossos impérios resplandecentes, reconhecemos a necessidade de legar à posteridade os vossos ensinamentos. Os evangelhos constituem a vossa biografia na Terra; contudo, os homens não dispensam, em suas atividades, o véu da matéria e do símbolo. A todas as coisas puras da espiritualidade adicionam a extravagância de suas concepções. Nem nós e nem os evangelhos poderíamos escapar. Em diversas basílicas de Rávena e de Roma, Mateus é representado por um jo0vem, Marcos por um leão, Lucas por um touro e eu, Senhor, estou ali sob o símbolo estranho de uma águia.
- E os meus representante, João, que fazem eles?
- Mestre, envengonho-me de o dizer. Andam quase todos mergulhados nos interesses da vida material. Em sua maioria, aproveitam-se das oportunidades para explorar o vosso nome e, quando se voltam para o campo religioso, é quase que apenas para se condenarem uns aos outros, esquecendo-se de que lhes ensinastes a se amarem como irmãos.
- As discussões e os símbolos, meu querido – disse-lhe suavemente o Mestre – não me impressionam tanto. Tiveste, como eu, necessidade destes últimos, para as predicações e, sobre a luta das idéias, não te lembras quanta autoridade fui obrigado a despender, mesmo depois da minha volta da Terra, para que Pedro e Paulo não se tornassem inimigos? Se entre meus apóstolos prevaleciam semelhantes desuniões, como poderíamos eliminá-las do ambiente dos homens, que não me viram, sempre inquietos nas suas indagações? ... O que me contrista é o apego dos meus missionários aos prazeres fugitivos do mundo!
- É verdade, Senhor.
- Qual o núcleo de minha doutrina que detém no momento maior força de expressão?
- É o departamento dos bispos romanos, que se recolheram dentro de uma organização admirável pela sua disciplina, mas altamente perniciosa pelos seus desvios da verdade. O Vaticano, Senhor, que não conheceis, é um amontoado suntuoso das riquezas das traças e dos vermes da Terra. Dos seus palácios confortáveis e maravilhosos irradia-se todo um movimento de escravização das consciências. Enquanto vós não tínheis uma pedra onde repousar a cabeça, dolorida os vossos representantes dormem a sua sesta sobre almofadas de veludo e de ouro; enquanto trazíeis os vossos pés macerados nas pedras do caminho escabroso, quem se inculca como vosso embaixador traz a vossa imagem nas sandálias matizadas de pérolas e de brilhantes. E junto de semelhantes superfluidades e absurdos, surpreendemos os pobres chorando de cansaço e de fome; ao lado do luxo nababesco das basílicas suntuosas, erigidas no mundo como um insulto à glória da vossa humildade e do vosso amor, choram as crianças desamparadas, os mesmos pequeninos a quem estendíeis os vossos braços compassivos e misericordiosos. Enquanto sobram as lágrimas e os soluços entre os infortunados, nos templos, onde se cultua a vossa memória, transbordam moedas em mãos cheias, parecendo, com amarga ironia, que o dinheiro é uma defecação do demônio no chão acolhedor da vossa casa.
- Então, meu Discípulo, não poderemos alimentar nenhuma esperança?
- Infelizmente, Senhor, é preciso que nos desenganemos. Por um estranho contraste, há mais ateus benquistos no Céu do que aqueles religiosos que falavam em vosso nome na Terra.
- Entretanto – sussurraram os lábios divinos docemente – consagro o mesmo amor à humanidade sofredora. Não obstante a negativa dos filósofos, as ousadias da ciência, o apodo dos ingratos, a minha piedade é inalterável... Que sugeres, meu João, para solucionar tão amargo problema?
- Já não dissestes, um dia, Mestre, que cada qual tomasse a sua cruz e vos seguisse?
- Mas prometi ao mundo um Consolador em tempo oportuno!...
E os olhos claros e límpidos, postos na visão piedosa do amor de seu Pai Celestial, Jesus exclamou:
- Se os vivos nos traíram, meu Discípulo Bem-Amado, se traficam com o objeto sagrado da vossa casa, profligando a fraternidade e o amor, mandarei que os mortos falem na Terra em meu nome. Deste Natal em diante, meu João, descerrarás mais um fragmento dos véus misteriosos que cobrem a noite triste dos túmulos para que a verdade ressurja das mansões silenciosas da Morte. Os que já voltaram pelos caminhos ermos da sepultura retornarão à Terra para difundirem a minha mensagem, levando aos que sofrem, coma esperança posta no Céu as claridades benditas do meu amor!...
E desde essa hora memorável, há mais de cinqüenta anos, o Espiritismo veio, com as suas lições prestigiosas, felicitar e amparar na Terra a todas as criaturas.
Humberto de Campos
(Recebida em Pedro Leopoldo a 20 de dezembro de 1935)
Do livro Crônico de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
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