domingo, 9 de dezembro de 2012

"NÃO SE PODE SERVIR À DEUS E A MAMON" - disse Jesus

"NÃO SE PODE SERVIR À DEUS E A MAMON" - disse Jesus

O texto "Não se pode servir a Deus e a Mamon" está no cap. XVI do O Evangelho Segundo o Espiritismo. 
Mas, quem foi Mamon? 
R: Mamon era um dos deuses adorados pelos sírios, na antiqüidade. Ele representava as riquezas. Por isso, suas estátuas eram fundidas em ouro ou prata.
Por isso Jesus disse: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque aborrecerá a um e amará a outro ou se unirá a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e as riquezas.”
Lendo estas palavras, parece que Jesus tinha horror à riqueza e muita má vontade com os ricos. O que não é verdade.
Ao proclamar que não se pode servir a Deus e às riquezas, o Mestre refere-se ao problema do apego. É bem próprio das tendências humanas que o indivíduo, quanto mais ganhe, mais deseje ganhar. E, quanto mais se empolga pelas riquezas, menos sensível se faz às misérias alheias. Então, complica-se, porque, ao invés de servir-se da riqueza para aproximar-se de Deus, afasta-se de Deus por servir à riqueza.

Vejamos estes dois exemplos:
A Condessa Paula, que está no livro O Céu e o Inferno, que enquanto encarnada foi bela, rica, de família ilustre, de qualidades intelectuais e morais. Ela era boa, meiga e indulgente, soube administrar a fortuna levando grande parte aos necessitados. Em sua comunicação mediúnica disse:
“ . . . ricos, tenham sempre em mente que a verdadeira fortuna imorredoura, não existe na Terra; procure antes saber o preço pelo qual possa alcançar os benefícios do Todo-Poderoso.”
Já no O Evangelho Segundo o Espiritismo, temos o depoimento da Rainha de França, que não soube administrar a riqueza para o bem, e se utilizava de seu poder para humilhar seus súditos. Sua comunicação após a desencarnação dizia assim:
“ Quem melhor do que eu poderá compreender as palavras de Nosso Senhor, quando Ele disse: ‘Meu Reino não é deste mundo?’ O orgulho me perdeu sobre a Terra; quem, pois compreenderia a insignificância dos reinos deste mundo, se eu não o compreendesse? Que carreguei comigo da minha realeza terrestre? Nada, absolutamente nada; e como para tornar a lição mais terrível, ela não me seguiu até o túmulo! Rainha eu fui entre os homens, rainha eu acreditava entrar no Reino dos Céus. Que desilusão! Que humilhação, ao invés de ser recebida como soberana, vi acima de mim, mas bem acima, homens que eu acreditava pequenos e que desprezei porque não eram de um sangue nobre. . .” 

Por isso, Pascal disse: “O homem não possui seu, senão aquilo que pode levar deste mundo. O que é, então, que possuímos? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais . . .” 
"O problema é quando o dinheiro deixa de ser um meio de vida e se converte na finalidade dela, quando deixamos de ser senhores do dinheiro e nos transformamos em escravos dele.
O portador de dinheiro amoedado esquece que está na Terra para evoluir, não para acumular bens materiais de que jamais usufruirá, ainda que estenda por milênios a jornada humana."(Richard Simonetti)


Compilação de Rudymara

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Reino de Deus - Momento Espírita


Você sabe o que quer dizer reino dos Céus? Ou reino de Deus?
Ao longo dos séculos, o conceito a propósito do reino de Deus ou reino dos Céus tem se modificado.
Antes de Cristo e até pouco tempo, algumas religiões prometiam aos seus fiéis um local bem alto, acima das nossas cabeças, destinado a ser a morada da alma depois desta vida. Ali a alma ficaria em contemplação, sem trabalho, estagnada.
Durante algum tempo se acreditou na existência de vários céus, uns sobre os outros, à semelhança de um edifício de apartamentos.
Segundo a opinião mais comum, havia sete céus. Por isso mesmo é que ainda hoje se ouve a expressão estar no sétimo céu, querendo expressar a mais pura alegria. A felicidade suprema.
Os muçulmanos acreditam na existência de nove céus. Em cada um deles os crentes têm a sua felicidade aumentada.
O astrônomo Ptolomeu contava onze céus. O último era o lugar da glória eterna e se chamava Empireu.
Jesus veio dar um novo conceito para o reino dos Céus. Ele disse: O reino dos céus não está aqui, nem ali, nem acolá, porque já está entre vós.
Comparou esse reino a um tesouro escondido num campo, a uma pérola de grande valor, ao grão de mostarda que se fez grande árvore e que aninhou em seus galhos as aves.
O grão de mostarda que um homem plantou representa a necessidade de cada um de nós de cultivar a decisão da reforma interior. Renovação íntima.
A pérola de grande valor ou o tesouro escondido simbolizam o interesse que devemos ter para nosso aprimoramento.
Aprimoramento que se faz devagar, lento, mas que deve ser preciso. O que equivale a dizer que cada dia devemos nos examinar e ir trabalhando uma virtude, até conseguir adquiri-la.
Uma boa tática é estabelecer um tempo para alcançar o que pretendemos. Por exemplo, num exame de consciência, descobrimos que não possuímos a virtude da paciência. Somos muito irritados, impacientes. Então estipulamos um tempo para trabalhar esta virtude. Uns seis meses, digamos.
Durante este tempo, todos os momentos em que estivermos a ponto de explodir, estourar, gritar, faremos o exercício da pausa, da reflexão, do silêncio.
Com certeza, mesmo assim, muitas vezes iremos estourar. Explodir. Mas não se deve desistir.
Após os seis meses, faremos um novo exame para descobrir se melhoramos e quanto. O quanto de paciência já conquistamos.
Aí nos daremos novo prazo e assim, pouco a pouco, iremos trabalhando a nossa intimidade.
Quando acreditarmos que estamos melhorando em um ponto, começaremos a burilar outro. Até chegarmos à tão falada e esperada renovação íntima.
O importante é fazer dia por dia a construção da nossa nova personalidade, do homem novo. Ir pedra por pedra construindo o edifício do mundo novo em nós.
Importante não é realizar coisas grandiosas. Importante é fazer pequenas coisas, todos os dias, e muito bem feitas.
Se pensarmos assim e nos esmerarmos, logo, logo o reino dos Céus, que não vem com aparências exteriores, se fará em nossos corações.
Exatamente como disse Jesus: O reino de Deus está dentro de vós.
Cabe-nos despertá-lo e permitir que cresça em nós.
*   *   *
Você sabia que Jesus comparou o reino dos Céus ao fermento que uma mulher, tomando-o, escondeu em três porções de farinha, até que tudo levedou?
No Evangelho de Lucas é que encontramos tal comparação.
E você sabia que o fermento representa a Doutrina que Jesus nos deixou, o Cristianismo?
Em três milênios deve produzir seus frutos.
A Humanidade já viveu os dois primeiros milênios. O terceiro será decisivo. Nele, a Doutrina de Jesus deverá atingir a sua plenitude.
Pensemos nisso e façamos a nossa parte.

Redação do Momento Espírita, com base no cap. A parábola do reino dos Céus, do livro As maravilhosas parábolas de Jesus, de Paulo Alves Godoy,ed. Feesp.
Em 03.01.2012.

O reino de Deus que está em nós



POR CéLIA ELMY

Um homem do povo vivia uma vida sem esperanças, com grandes tribulações e sofrimentos. Um dia foi localizado por emissários do rei que o conduziram ao palácio real e ele foi investido na condição de herdeiro daquele reino. Imediatamente foi banhado e perfumado, vestido com roupas suntuosas. Calçaram-lhe os pés com sapatos finos e colocaram-lhe no dedo precioso anel, símbolo de sua condição real. Levado para conhecer o reino deslumbrou-se: como era belo, vasto e cheio de recursos! E isso tudo era seu, pois o rei tudo colocara a sua disposição.

Que diríamos nós se tal acontecesse conosco? Se fôssemos destacados de nossa condição de simples pessoas do povo e elevados à condição de herdeiros de um grande reino? “E se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo”.1 “Ah, esse reino eu não quero, é depois da morte e eu não quero morrer tão cedo.” “O Reino de Deus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos”.2

Humm... Jesus diz que o Reino de Deus cresce, se desenvolve. Mas que reino seria esse? Onde ele está? “O Reino de Deus está dentro de vós.”3 E como é que eu faço pra tomar posse desse reino? É necessário empreender a grande viagem para dentro de si mesmo, o auto-conhecimento. “Ah, mas eu não quero mexer com isso não, se conhecer dá muito trabalho, tá bom assim.” Não está nada bom, a pessoa tem crises, vive mal humorada, descontente, triste e ansiosa... Mas como encarar o medo de se defrontar consigo mesma?

Qual a imagem que temos de nós mesmos? A nossa auto-imagem geralmente não é muito boa. Ela está fortemente tisnada pela montanha de nãos que ouvimos desde pequenos. Não fomos bons o bastante pra contentar a nossa mãe: “Não põe a mão aí!” “Não pode fazer isso.” Não queremos em absoluto dizer que criança não deva ter limite, mas alguns pais extrapolam. Não fomos bons o bastante para agradar nossos professores e achamos que valíamos pela nota que tirávamos. Os colegas também ajudavam a desconstruir essa imagem com apelidos e brincadeiras cruéis. E hoje achamos que não somos bons o bastante pra agradar nossa esposa, nossos filhos, nosso chefe. Sempre achamos que estamos devendo. Temos uma auto-rejeição muito forte que às vezes se camufla em orgulho e vaidade, mas lá no fundo temos medo de encarar nossa própria imagem no espelho. A cultura do pecado e da punição pelos nossos atos por Deus, que nos foi incutida há milênios, também não ajuda a melhorar nossa auto-imagem. Mas o que nos diz Jesus? “Sois deuses”4. “Em verdade vos digo: quem crê em mim fará as obras que faço e fará até maiores do que elas”5. Mas como? “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”6. A verdade sobre nós mesmos, nossa origem divina, nossa potencialidade. Somos herdeiros do reino, o reino de Deus está dentro de nós. Precisamos tomar posse dele. “Ah, mas eu não tenho coragem de olhar dentro do porão da minha inconsciência, tenho medo de encontrar um esqueleto no armário. Tudo bem, pode ser que tenha um esqueleto no armário. Mas se aprofundarmos nossa visão, veremos que tem também um oásis. Um oásis verdejante de paz. Não seria bom encontrar um pouco de paz? Que preço pagaríamos pela nossa paz?

Todos nós temos dois lados, um lado sombra e um lado luz. É duro conviver com o nosso lado sombra, é difícil até mesmo admitir que temos um lado sombra caracterizado pelo lado obscuro da nossa personalidade, nossos defeitos, nossa dificuldade nos relacionamentos, mas a sombra tem uma característica: ela não é permanente, ela é temporária, ela se dissolve ao contato com a luz.

Qual o sentido da vida? Porque estamos encarnados? Para buscar a nossa iluminação. Através do auto-conhecimento vamos detectando quais os lados da nossa personalidade que precisam ser iluminados. E iluminados através do conhecimento: boas leituras, palestras, cursos, tudo isso devidamente aplicado através da vivência com os que convivem conosco.

Todas as qualidades jazem em germe dentro de nós. “O Reino de Deus é semelhante a um grão de mostarda...”, todas as nossas potencialidades, todo o projeto do que seremos: gênios, Einsteins, Mahatmas Gandhis, Madres Terezas, homens empreendedores e colecionadores de sucessos. Nós não somos o que estamos. Somos muito mais! Não é grandioso isso? Saber que tudo já está dentro de nós, nos pertence e apenas precisamos tomar posse? E o artífice do homem novo seremos nós mesmos. Somos a semente e somos o jardineiro. Somos os herdeiros. O reino nos pertence. “Sois deuses!”


1 Epístola de Paulo aos Romanos, 8:17.
2 Mateus, 13:31-32.
3 Lucas, 17:21.
4 João, 10:34.
5 João, 14:12.
6 João, 8:32.

O Reino


José Argemiro da Silveira

de Ribeirão Preto, SP

“Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” - Jesus.

Em várias passagens do Evangelho Jesus acentua a importância do Reino de Deus, ou Reino dos Céus. Podemos considerar este ensino como sendo o tema central, a coluna mestra de sua Doutrina. “O Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procurava pérolas preciosas; descobriu uma pérola de grande valor, foi vender tudo que possuía e a comprou”. Em outro lugar: “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro que, oculto no campo, foi achado e escondido por um homem, o qual, movido de gozo, foi vender tudo o que possuía e comprou aquele campo”. J. Herculano Pires, grande filósofo e escritor espírita, escreveu um livro sobre “O Reino”, onde ele fala da tese do Reino. Diz ele: “A tese do Reino de Deus tem permanecido oculta nos Evangelhos, porque os homens insistem na tentativa de servir a dois senhores. Mas o anseio do Reino os arrasta cada vez mais à descoberta da tese”. Conquistar esse Reino significa o desabrochar das potencialidades do Espírito para compreender e viver de acordo com as Leis Divinas, ou seja, realizar a evolução espiritual. O Reino de Deus está em nós, afirmou o Mestre. Logo, para conquistá-lo não temos que buscá-lo fora, e sim trabalhar por despertar as potencialidades existentes em nosso íntimo. A medida que o ser evolui, passa a trabalhar para melhorar o meio em que vive.

Diz Herculano: “Para obtermos um verdadeiro mundo de luz é necessário acendermos a luz nas almas. Esse é o primeiro tema da tese do Reino. Mas, se o mundo é o reflexo do homem, esse reflexo também condiciona o homem. Não basta melhorar apenas o homem; é necessário trabalhar para melhorar o meio onde esse homem vive. Assim, o segundo tema da tese do Reino é a modificação do meio. Ao mesmo tempo que acendemos a luz nas almas, temos de fazê-la brilhar no meio social. As almas iluminadas iluminam a sociedade, mas a sociedade iluminada deve iluminar as almas. Não podemos nos esquecer dessa reciprocidade”. E cita José Ingenieros: “Num meio em que todos rastejam, é difícil alguém andar em pé”.

É preciso lutar para criar condições sociais adequadas ao aprimoramento do homem. Segundo Herculano, o terceiro tema da tese do Reino é o da escolaridade. “o Reino exige a preparação dos candidatos, exige escola, Os candidatos do Reino estão todos na escola da vida, mas é evidente que a maioria pertence às classes primárias”. A escola da vida são as tarefas confiadas a cada um; os deveres da profissão, da família, da vida social. Há sempre oportunidades para aprender e nos exercitarmos na vivência dos valores que nos levarão ao despertamento, a desenvolver as qualidades que estão em nós, ainda latentes. As religiões e escolas espiritualistas são processos pedagógicos, com seus diferentes métodos didáticos em desenvolvimento no Mundo. Muitas delas estão deturpadas, comprometidas com o homem velho de que falava Jesus, mas todas as criaturas humanas dispõem de recursos didáticos para auxiliarem os sistemas pedagógicos deficientes. Não só ensinar, mas acima de tudo dar o exemplo. Quem ensina aprende, e vice-versa. A escolaridade é então o processo da experiência.

O quarto tema da tese do Reino é a obrigatoriedade, afirma J. Herculano. “Esse tema nos mostra que as almas obedecem a leis morais, como os corpos obedecem a leis físicas. Umas e outras são leis de Deus que nos conduzem obrigatoriamente para o Reino”. A palavra “obrigatoriedade” pode causar alguma estranheza, considerando a afirmativa de Paulo que “onde há o Espírito do Cristo aí há liberdade”. Mas o mesmo Paulo afirmou: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Deus nos dá o livre-arbítrio, podemos fazer opções, escolher caminhos. Tudo nos é permitido, mas somos responsáveis pelas nossas escolhas. Daí o alerta de que “nem tudo nos convém”. O livre-arbítrio não colide com as leis divinas, pois ele mesmo é parte da Lei. Enquanto não nos enquadrarmos na Lei, não agirmos de acordo com ela, não vamos adiante, não progredimos. Portanto, para o Espírito evoluir, construir o Reino de Deus no seus íntimo, terá obrigatoriamente que observar os princípios éticos, as leis morais, assim como os corpos obedecem as leis físicas. Sabemos que, no plano físico, as leis da Física, da Química, da Biologia, da Gravidade, etc. funcionam matematicamente, não se podendo burlá-las. O mesmo ocorre em relação às leis morais, às leis divinas, que vigoram no plano espiritual. Lei de causa e efeito, lei de evolução, de justiça, de amor, etc. Podemos agir em desacordo com a Lei, mas receberemos sempre resultados equivalentes às ações praticadas; somos responsáveis por tudo que fazemos.

Nesses quatro temas temos um roteiro para trabalhar a nossa evolução espiritual, ou seja, edificar, paulatinamente, o Reino dos Céus em nosso íntimo. Esta é a meta de nossas vidas, o caminho da felicidade que todos buscamos.

Bibliografia:

O Reino - José Herculano Pires - Editora EDICEL.
(Jornal Verdade e Luz Nº 168 de Janeiro de 2000)

O Reino de Deus - Gregório


Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Notícias Históricas. 4. Fundação do Reino de Deus. 5. Alguns Textos Evangélicos. 6. Ter ou Ser?: 6.1. A Importância da Diferença entre Ter e Ser; 6.2. Ensinamento dos Grandes Pensadores; 6.3. Experiência Cotidiana. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

De acordo com a Teologia, o Reino de Deus é tema central da pregação de Jesus. Ele ocupa lugar de destaque em várias de suas parábolas - principalmente o grão de mostarda - , a menor das sementes que, depois de plantada, dará a maior das árvores. Assim, o objetivo deste estudo, à semelhança do grão de mostarda, é enaltecer o desenvolvimento das potencialidades interiores de cada um de nós, a fim de que nos tornemos árvores frondosas em virtude e sabedoria.

2. CONCEITO

Reino - 1) Nação ou Estado governado por um rei ou uma rainha. 2) Domínio longínquo pertencente ao rei.

Reino dos Céus/Deus

Catolicismo: realidade misteriosa cuja natureza só Jesus pode dar a conhecer.

Espiritismo: estado de felicidade proporcional ao grau de perfeição adquirida; materialização da felicidade dos bem-aventurados; obra divina no coração dos homens; estado de sublimação da alma, criado por ela própria, através de reencarnações incessantes. (Espiritismo de A a Z, FEB)

3. NOTÍCIAS HISTÓRICAS

O conceito de Reino de Deus vem do Antigo Testamento:

desde a época da instalação de Israel em Canaã, Iavé é reconhecido como seu Rei e mais tarde como rei de todas as nações;
dado o regime monárquico de Israel, a realeza humana passa a ser considerada como uma participação da de Iavé, o rei davídico, sentado no trono régio do Senhor, como seu representante;
as infidelidades dos reis denunciados pelos profetas e sobretudo a queda da monarquia favoreceram a espiritualização do tema e contribuíram para que se pensasse na realização do reino de deus nos fins dos tempos. (Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura)
No Novo Testamento, observamos:

os judeus nos tempos de Cristo entenderam-no como um reino messiânico, isto é, uma nova era em que Iavé, Deus de Israel e Deus do mundo, tendo triunfado dos seus inimigos que eram também os do povo eleito, havia de implantar o seu reinado no universo graças ao estabelecimento da supremacia política e religiosa desse povo.
Jesus, porém, interpretou-o de forma diferente, ou seja, sem o caráter de nacionalismo, reservado somente aos descendentes de Abraão. Evocava, por assim dizer, a grande esperança na vida futura e a transcendência pelo qual importava sacrificar tudo na terra, inclusive a própria vida. Para ele, não é apenas esse reino futuro de justiça definitiva, mas posto ao alcance de todas as boas vontades no combate ao mal. Isento de seitas, referia-se à construção do reino de Deus dentro dos próprios corações. (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira)
4. FUNDAÇÃO DO REINO DE DEUS

João Batista, o precursor do mestre, dizia: "Arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus"... "Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo". (Mateus, 3, 2 a 11)
O Espírito Irmão X, no capítulo 3, do livro Boa Nova, dá-nos uma idéia da implantação do reino de Deus feita por Jesus.

Estando Jesus sentado nas adjacências do Templo, em Jerusalém, Hanã, sacerdote, dirigiu-se a ele e lhe perguntou:

- "Galileu, que fazes na cidade?

- Passo por Jerusalém, buscando a fundação do Reino de Deus! - exclamou o Cristo, com modesta nobreza.

- Reino de Deus? - tornou o sacerdote com acentuada ironia. - E que pensas tu venha a ser isso?

- Esse Reino é obra divina no coração dos homens! - esclareceu Jesus, com grande serenidade.

- Obra divina em tuas mãos? - revidou Hanã, com uma gargalhada de desprezo".

Continuando a conversa, perguntou-lhe sobre quem os ajudaria e como levaria a cabo tamanho empreendimento. Jesus sempre respondia com firmeza e tranqüilidade.

Daí a algum tempo, na cercanias de Cafarnaum, dirigiu-se a um grupo de alegres pescadores, convidando-os a pescar homens.

5. ALGUNS TEXTOS EVANGÉLICOS

"Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça." (Mateus, 6, 33)

Muitos procuram o evangelho para a realização dos próprios caprichos: mandar e fazer-se obedecer, ter privilégios... Raros aceitam a condição do discipulado. Querem ser favoritos de Deus. Busquemos, sim, em primeiro lugar a vontade Deus. (Vinha de Luz, 18)

"O reino de Deus não vem com aparência exterior." (Lucas, 17, 20)

Lembremo-nos de que a prática do proselitismo é, muitas vezes, prejudicial aos elevados projetos de realização. Por que apresentar pompas e números vaidosamente, nos grupos de fé? A realização divina começará no íntimo de cada um. No corpo que se vai, a maioria pode ver apenas a carne. Por que constrangê-lo a ver o Espírito se ainda não é a sua hora? (Caminho Verdade e Vida, 107)

"O Reino de Deus está no meio de Vós." (Lucas, 17, 21)

Nem nas obras sem fé que se reduzem a pedra e pó. Nem na fé sem obras que é estagnação da alma. Nem no movimento sem ideal de elevação que é cansaço vazio. Nem no ideal de elevação sem movimento que é ociosidade brilhante. Nem exigência a todo o instante. Nem desculpa sem fim. A edificação do Reino Divino é obra de aprimoramento, de ordem, esforço, aplicação aos desígnios do Mestre, com bases no trabalho metódico e na harmonia necessária. (Vinha de Luz,177)

"Aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus." (João, 3, 3)

Conservemos do passado apenas o que for bom e justo, belo e nobre. Cada hora na atualidade pode ser o reajustamento de uma atitude. Alguém nos magoa? Reiniciemos o esforço da boa compreensão. Alguém não nos entende? Perseveremos em demonstrar os nossos intuitos mais nobres. (Fonte Viva, 56)

"Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no Reino dos Céus." (Mateus, 5, 20)

Os escribas e fariseus não eram criminosos, cumpriam os seus deveres, respeitavam as leis, jejuavam, pagavam impostos... Adoravam o eterno Pai, mas não vacilavam em humilhar o irmão de jornada. O cristão não surgiu na Terra para circunscrever-se à casinhola da personalidade, mas para transformar vidas e aperfeiçoá-las com a própria existência. (Vinha de Luz, 161)

"E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus." (Lucas, 9, 62)

Por que Jesus usou o símbolo do arado? É pesado, demanda esforços, provoca suor, fere a terra... Contudo, depois chegam semeaduras e colheitas, pães e pratos e celeiros guarnecidos. (Pão Nosso, 3)

6. TER OU SER?

6.1. A IMPORTÂNCIA DA DIFERENÇA ENTRE TER E SER

Ter é uma função normal de nossa vida: ter casa, ter parentes, consumir etc. Como, porém, descortinar uma alternativa entre ter e ser, se temos a impressão de que a própria essência de ser é ter: de que se alguém nada tem, não é?

6.2. ENSINAMENTO DOS GRANDES PENSADORES

Buda ensinava que, para chegarmos ao mais elevado estádio do desenvolvimento humano, não devemos ansiar pelas posses.

Jesus ensinava que devíamos perder a própria vida para salvá-la.

Mestre Eckhart ensinava que ter nada e tornar-se aberto e "vazio", e não colocar o eu no centro, é condição para conseguir riqueza e robustez espiritual.

Marx ensinava que o luxo é tanto um mal como a miséria, e que nosso ideal deve consistir em ser muito, e não ter muito.

6.3. EXPERIÊNCIA COTIDIANA

Estudante - No modo ter é memorizar e passar de ano: no modo ser, é raciocinar junto com o professor.

Fé - No modo ter é a posse de uma resposta àquilo para o que não se tem qualquer prova racional; no modo ser, é uma orientação íntima, uma atitude. Seria preferível dizer estar na fé em vez de ter fé.

Amor - No modo ter implica confinamento, aprisionamento ou controle do objeto que se "ama"; no modo ser, liberdade, ajuda mútua, crescimento. O namoro geralmente é modo ser, enquanto o casamento pode tornar-se modo ter, pois se cada um pode querer exercer domínio sobre o outro. Observe que a palavra "cair de amor" é de uso incorreto, porque amar é uma atividade criativa, pois só se poder estar em amor ou andar no amor; não se pode cair no amor, porque cair denota passividade. (Fromm, 1977)

7. CONCLUSÃO

O reino de Deus não é um lugar circunscrito, mas "obra divina no coração dos homens", ou seja, a edificação da sabedoria e a conquista do amor, através do trabalho incessante na prática do bem. É o desapego aos bens materiais, o perdão às ofensas dos inimigos, enfim, é a lembrança das Leis Divinas ou Naturais, gravadas por Deus em nossa consciência. Nesse sentido, todo o esforço despendido em auxiliar o próximo, em silenciar uma crítica, em pensar duas vezes antes de querelar com o vizinho assume papel relevante na prática da perfeição.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Lisboa, Verbo, s. d. p.
EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro, FEB, 1995.
FROMM, E. Ter ou Ser? Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa/Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, s.d. p.
XAVIER, F. C. Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos. 11. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.
XAVIER, F. C. Caminho, Verdade e Vida, pelo Espírito Emmanuel. 6. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1973.
XAVIER, F. C. Fonte Viva, pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro, FEB, s.d.p.
XAVIER, F. C. Pão Nosso, pelo Espírito Emmanuel. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977
XAVIER, F. C. Vinha de Luz, pelo Espírito Emmanuel. 3. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1971.

O Reino de Deus - Vinícius


Tendo os fariseus perguntado a Jesus quando viria o reino de Deus, ele respondeu: O reino de Deus não vem com mostras exteriores. Por isso ninguém poderá dizer: ei-lo aqui, ou ei-lo acolá, pois o reino de Deus está dentro de vós.
Concluímos da resposta do Mestre que o reino de Deus está em nós próprios. Não obstante, é ele mesmo quem assim nos adverte: Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça; tudo o mais vos será dado por acréscimo. Como ? Buscar aquilo que está em nós? E depender dessa pesquisa todo o nosso bem?
A explicação nos é dada pela seguinte parábola: O reino de Deus é semelhante a um tesouro oculto no campo, que foi encontrado por um homem, o qual, movido de grande gozo, foi vender tudo que possuía e adquiriu aquele campo.
Agora podemos entender: o reino de Deus está em nosso Espírito mesmo, porém oculto e ignorado. Possuir e ignorar que possui, equivale a não possuir. Ter e não saber que tem, é como se não tivesse. Daí a necessidade de procurá-lo. E, pelo dizer da semelhança, é de inestimável valor esse tesouro ou reino de Deus. Tanto assim, que todo aquele que o descobre, coloca-o desde logo acima de tudo o mais. Este asserto é corroborado por outra parábola : O reino de Deus é semelhante a um negociante de pérolas que, encontrando uma de subido valor, foi vender tudo o que possuía e a comprou.
Já sabemos algo de importante sobre o caso. Mas, que será, afinal, o reino de Deus e que idéia devemos fazer desse tesouro oculto em nosso Espírito? O reino de Deus é o conjunto de energias e faculdades que jazem latentes em nossa alma. E’ o reino da vida, da imortalidade e do poder, do qual só nos apercebemos depois que começamos a sentir em nós as vibrações da vida espiritual, cuja atividade se exerce através do amor e da justiça, empolgando nosso ser. Que é, de fato, o reino da força que tudo vence, nos diz este outro apólogo: O reino de Deus é semelhante a uma semente de mostarda, que um homem semeou no campo. Esta semente é, na verdade, a menor de todas; mas, depois de haver crescido, é a maior de todas as hortaliças, e se faz árvore, de sorte que as aves do céu fazem ninhos em seus ramos. Tal é como o Mestre revela a incomparável energia de ação e de expansão que se esconde no reino de Deus. E que essa ação se verifica através do sentimento da justiça, sabemos por esta admoestação do Senhor: Se a vossa justiça não for superior à dos escribas é fariseus, não possuireis o reino de Deus.
O roteiro, portanto, que conduz ao tesouro oculto é um só: o cumprimento do dever, a prática do bem, a conduta reta. “Nem todo o que me diz Senhor! Senhor! entrará no reino de Deus, mas somente aqueles que fizerem a vontade de meu Pai. Naquele dia, muitos me dirão: Senhor, em teu nome nós profetizamos, expelimos demônios e obramos maravilhas. Mas eu lhes direi abertamente: Não vos conheço; apartai-vos de mim, vós que vivestes na iniqüidade.” E o Rei, então, dirá: Vinde, benditos de meu Pai; possuí como herança o reino que vos está destinado desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro, e me recolhestes; estava nu, e me vestistes; enfermo e preso, e me visitastes. Então, perguntarão os justos: Quando, Senhor, te vimos com tais necessidades e te assistimos? E o Rei retrucará:” Em verdade vos digo que quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes.”
Sabemos então, já, o que é o reino de Deus, onde se oculta, e o que nos cumpre fazer para possuí-lo.
LIVRO: EM TORNO DO MESTRE
AUTOR: PEDRO DE CAMARGO – PSEUDÔNIMO VINICIUS
EDITORA: FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA – 6ª EDIÇÃO – BRASILIA – DF
ANO DE PUBLICAÇÃO: 1939 (PAG. 204 – 206).

A proclamação do reino - Herculano Pires


“O que pensa que o Reino está longe terá que andar muito para encontrá-lo, mas o que sabe que o Reino já está aqui mesmo, ao nosso lado, já o traz dentro de si. Ai, porém, do que pensar que o Reino já está nele e deixar de buscá-lo!" -  Herculano Pires, (Ir. Saulo) no Aviso ao Leitor, que inicia o livro O REINO.

Sempre que releio alguma obra de Herculano Pires, fico pensando como faz falta o seu pensamento lúcido, poético, racional, filosófico, nos estudos das Casas Espíritas. Como seu estilo, embasado em sua veia literária, de uma beleza às vezes comovente e sempre elegante e profunda, ainda não foi superado por nenhum autor espírita!

Deteve-se, um grupo de estudos em que faço parte, na análise de seu livro O Reino em que ele assina Irmão Saulo, pseudônimo que utilizava em suas obras inspiradas. É um poema.

No entanto, quanta profundidade!

Os teólogos católicos, que criaram a Teologia da Libertação, lembram-nos de que a principal mensagem do Evangelho é a do REINO DE DEUS. Há no Evangelho mais de uma centena de passagens onde Jesus fala sobre o Reino. E apenas três ou quatro em que fala da Igreja, que para eles é a herdeira única do Cristo. O Livro dos Espíritos, mais de uma centena de anos antes dessa Teologia muito esclarecida, já nos dizia que esse é o objetivo do homem: Instaurar na Terra uma sociedade que seja a sonhada por Jesus em seu Evangelho, ou seja, O Reino de Deus. (Ver questão 1018 de O Livro dos Espíritos.) [1]

No capítulo A Proclamação do Reino, Pires cita Isaías, de cujas palavras Jesus se serve para anunciar, na modesta Sinagoga de Nazaré, que, na sua pessoa, aquelas palavras se cumpriam.

“O espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e a restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o Ano Aceitável ao Senhor." - Isaías, 6:1; 2 e Lc, 4:18.

 É comum ouvirmos e lermos sobre o Reino de Deus em nós, e poucos se detêm, como Herculano, na análise dessa Proclamação. Ninguém sabe o que era para o judeu o Ano Aceitável ao Senhor.

Herculano explica isso no capítulo A PROCLAMAÇÃO.

Depois de nos dizer que Jesus se apresentou como pregoeiro (o que vem fazer o pregão de uma notícia ao povo), portanto, aquele que anunciava a Boa Nova. Ele vinha estabelecer o Ano Aceitável ao Senhor, especialmente aos pobres, explicando que viera libertar os cativos e restaurar a vista aos cegos, libertar os oprimidos. Herculano nos explica o que vem a ser o Ano Aceitável ao Senhor que Jesus anuncia ter vindo estabelecer.

O povo judeu, a cada 50 anos, proclamava esse quinquagésimo ano como o Ano Aceitável ao Senhor. Nesse ano, eram redistribuídas as terras, todos os trabalhadores do campo recebiam um pedaço de terra para ganhar seu sustento, as dívidas eram perdoadas, os cativos libertos. Essa proclamação não tem nada de comparativa, como querem alguns “homens de Deus”. Ela é real, porque, se conseguirmos a sua proposição, se for estabelecido na Terra, e esse ano aceitável ao Senhor, não a cada cinqüenta anos, mas, como maneira de se viver no mundo, teremos o que prevê a questão 1018 de O Livro dos Espíritos - o Reinado do Bem sobre a Terra.

Quando Jesus se anuncia como aquele que vem proclamar o estabelecimento do Reino de Deus, na Terra, ele não diz que vem reinar, ou que haveria um Rei que seria ele. Coloca-se tão-somente como o pregoeiro, aquele que anuncia que um Reinado se estabelece. É o Reino de Deus, ou dos Céus.  Não é um reinado sobre os Espíritos, embora também o seja, mas ao dizer que esse Reino estabelecia para sempre o Ano Aceitável ao Senhor, sua fala denota os objetivos de mudança e renovação social que esse Reino dos Céus trará.

O Ano Aceitável ao Senhor era uma invenção do sacerdócio de Israel, com nítida ação social, evitando muitas revoltas contra a hipocrisia, a dominação cruel que era feita contra os povos hebreus. A cada cinquenta anos eram perdoadas as dívidas, redistribuídas as terras, libertados os cativos. O povo aprendia a esperar esse tempo e, paciente, não se revoltava. Ainda que a boca dos profetas denunciasse a injustiça e defendesse o povo de Israel contra seus próprios dirigentes, o povo tinha na existência do Ano Santo (ou aceitável) do Senhor, um motivo de esperança, para não se revoltar. Logo após a redistribuição e o perdão das dívidas, a pretensa igualdade era destruída rapidamente, pois o povo, sem tostão, sem quem os amparasse até que pudessem colher e vender, emprestava dinheiro dos mais abastados.  Continuava a depender do dinheiro dos mais ricos para plantar, colher e vender. Assim, logo se endividavam e eram obrigados a entregar novamente as terras. Bastava uma colheita ruim, um pai de família que falecesse, ou ficasse doente, para que as terras mudassem novamente de mãos e as dívidas se amontoassem reduzindo o povo à miséria. A lei era tão injusta que diante de um juiz, a que fosse arrastado um devedor, tudo deveria entregar, até mesmo o manto, ficando reduzido tão só à túnica que lhe cobria a nudez.

 No entanto, o Jovem Carpinteiro vem apregoar que Jeová estabelecia com ele, seu apregoador, o Reino de Deus, onde todos seriam justiçados e para sempre. É de admirar que depois dessa proclamação, os estudiosos da Lei, os companheiros de Nazaré, ouvindo Joshua de Nazaré sobre Isaías, se revoltassem?  O Reino de Deus, esclarece nosso autor, não se fundamentava na injustiça, na ganância e no ódio, sob a maldição da violência.

É de se admirar que os galileus de Nazaré, saturados de rituais farisaicos, defendendo suas poucas ou maiores posses, ficassem revoltados? E mais ainda ficaram com as palavras seguintes de Jesus. O Evangelho nos conta que, revoltados, consideraram Jesus um feiticeiro, o agarraram e o arrastaram para fora. Tencionavam atirá-lo do lado esquerdo de Nazaré, onde perigosa escarpa de pedras e rochas pontiagudas, eriçados espinheiros levariam à morte quem de lá fosse lançado.

Herculano, com a característica beleza dos literatos, explica:

“Mas, quando tudo parecia perdido, os homens que o agarravam com mãos de ferro, viram que estavam enganados. Na verdade, haviam-se agarrado uns aos outros e, se não percebessem a tempo, se teriam arrojado pelo precipício abaixo. Pararam assustados à beira do abismo e suas pernas e seus braços tremiam de horror”.

Enquanto isso, o Jovem Carpinteiro, passando tranquilamente entre eles, descia a encosta em direção à cidade.

Assim, Jesus passou entre os homens e, até hoje, ao querer destruí-lo e ao Reino de Deus, apenas nos destruiremos a nós mesmos. O Reino foi instaurado e, se não conseguirmos ao longo dos séculos fazê-lo presente na sociedade dos homens, nos lançaremos no abismo.


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