terça-feira, 24 de maio de 2016

A Resignação Consciente


Autor Guilhermina Batista Cruz - guilherminabcruz@bol.com.br


“Existem males que não dependem da maneira de agir e que ferem o homem mais justo. Não há algum meio de se preservar deles? – O atingido deve resignar-se e sofrer sem queixas se deseja progredir. Entretanto, terá sempre uma consolação da sua própria consciência, que lhe dá a esperança de um futuro melhor, desde que faça o necessário para obtê-lo.”(Allan Kardec - O Livro dos Espíritos, questão 924)



Muita gente acha que Resignação quer dizer conformismo com as coisas, tem a ver com aceitar o sofrimento ou aceitar uma condição ou situação desagradável por que é assim mesmo, dizem, está escrito em algum lugar ou é vontade de Deus e está acabado. A Doutrina Espírita conceitua a resignação como aceitar os desígnios divinos sem revolta, porém isso não quer dizer cruzar os braços em situações adversas e esperar que tudo se resolva como num passe de mágica, sem esforço algum de nossa parte. Embora resignação e conformação sejam palavras sinônimas, o conceito espírita sobre a resignação se adequa mais a palavra compreensão, ou seja, com o entendimento de que as situações que enfrentamos são necessárias ao nosso desenvolvimento moral e espiritual, mas que sempre podem ser minoradas de alguma forma, pelo nosso esforço.

O Espírito Lázaro, no Evangelho Segundo o Espiritismo, nos fala o seguinte sobre a Resignação:”A doutrina de Jesus ensina sempre a obediência e a resignação, duas virtudes companheiras da doçura, muito ativas, embora os homens as confundam erroneamente com a negação do sentimento e da vontade. A obediência é o consentimento da razão, a resignação é o consentimento do coração. Ambas são forças ativas, porque levam o fardo das provas que a revolta insensata deixa cair. O pusilânime não pode ser resignado, do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes. Jesus foi a encarnação dessas virtudes que a antiguidade material desprezava." É a compreensão sobre o que estamos passando que deve ditar nosso conduta, é a aceitação de que os problemas pelos quais passamos precisam ser encarados sem revolta , com resignação, mas sem inércia.

O entendimento de que o homem é um pecador, e de que poderá ser castigado por seus pecados é que faz com que muita gente se conforme com certas situações, por entenderem que a não conformação pode lhes acarretar o castigo divino. É importante entendermos que Deus não é aquele Pai que nos castiga, que fica lá no céu vendo nossos atos errados e providenciando a punição para os mesmos. Fomos criados todos iguais, sem qualquer tipo de privilégio. O que nos torna diferentes uns dos outros é o caminho do aprendizado que escolhemos para seguir, pelo nosso livre arbítrio, e, através dessa escolha, é que colheremos o que tivermos semeado durante o percurso. As consequências pelos atos que praticamos estão baseadas na Lei universal de Causa e efeito, ou de Ação e Reação, como muitos conhecem. É por esta Lei que vamos colher as consequências das ações praticadas, sejam elas boas ou más, na vida atual ou nas próximas etapas reencarnatórias.

Jesus, em seu evangelho de amor, sempre pregou a resignação, mas não aquela resignação passiva. A resignação pregada por Jesus está longe de ser a da inércia e do desânimo. Em seus ensinamentos sempre estão presentes a serenidade e a fé, com que tratava os problemas, mesmo aqueles mais afligentes. Em todos os momentos era a ação no bem e no amor que ele incitava os discípulos a praticarem, até mesmo quando pregava a resignação. Em seu ensinamento ela nunca foi vista como desânimo ou passividade nociva.

No Livro Parábolas e Ensinos de Jesus, Cairbar Schutel nos fala:”Bem-aventurados os que se revoltam contra a injustiça, mas são resignados e calmos. Ai dos indiferentes, dos acomodatícios, dos covardes, dos servis, que em proveito próprio aplaudem a injustiça! Há muita diferença entre a resignação e a indiferença. A resignação é a conformidade ativa nos inevitáveis acontecimentos da vida. A indiferença é a submissão passiva às injustiças deprimentes. A resignação é cheia de amor, de sentimentos nobres, de elevadas paixões. A resignação nas provas é obediência aos decretos de Deus. O resignado não aparenta sofrimento, porque conhece a Lei de Deus e a ela se submete com humildade. A resignação é excelente virtude, que precisamos cultivar; a indiferença é manifestação do egoísmo, que precisamos extirpar”.

Podemos citar como exemplo de resignação ativa, pregada por Jesus em seu Evangelho de amor, o fato de nos esforçarmos para reagir e conter o sofrimento que poderia nos lançar num desespero irremediável, ao sermos atingidos por alguma desdita ou passarmos por algum acontecimento sério, que nos deixa desnorteado. O fato de esboçarmos essa reação benéfica para conter o desespero que, de outra forma, desestruturaria a nossa vida, nos traz mais serenidade para que readquiramos, pouco a pouco, o domínio de nós mesmos e nos fortaleçamos para os próximos embates. Ou seja, mesmo passando por acontecimentos desagradáveis ou sofridos procuramos reagir e não ficar atrelado às suas consequências nocivas.

No Evangelho vemos claramente que o significado relativo a resignação não se coaduna com desânimo, nem passividade. Segundo o Espírito Lacordaire : “Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: “Fui o mais forte.” Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso.“(O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 18).

As dificuldades poderão ser atenuadas paulatinamente se a resignação estiver presente. Aquele que se revolta com os revezes que acontece em sua vida, terá mais dificuldade para suplantar os obstáculos e aceitar mais serenamente os sofrimentos, do que aquele que os aceita com resignação, por entender que fazem parte de sua trajetória. O ensinamento de Jesus nos fala: Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados, ou seja, ele nos ensina que o sofrimento é passageiro, que ser resignado é ter a compreensão de que tudo passará, que estamos sofrendo as consequências de faltas passadas, que estão nos mostrando alguma lição que precisamos ainda aprender, e por esta razão, a resignação paciente é um prelúdio de cura, de libertação. A resignação então não é conformismo, mas sim, luta para a auto-superação e libertação de erros passados.

Acima de tudo devemos entender que a vida é sempre um aprendizado. Quando aceitamos as consequências de nossos atos, estamos tendo a compreensão de que elas, muitas vezes, estão lapidando nosso espírito e que devemos superá-las com força e determinação, mas nunca com revolta. E Jesus, num tributo de humildade a Deus, nos ensina a resignação, quando diz: “Pai nosso que estais no céu, seja feita a vossa vontade, assim na terra, como no céu”.

Paz e Luz a todos.

Autor: Guilhermina Batista Cruz  

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