segunda-feira, 20 de junho de 2016

Quem é o Espírito de Verdade? Parte 1 e 2

Quem é o Espírito de Verdade?  Parte 1



Espírito de Verdade, quem seria ele?

É o Espírito da Verdade, que o mundo… não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis… Voltarei a vós”. (Jesus, em João 14,17-18).

Introdução

A resposta a essa pergunta é um assunto ainda muito polêmico no meio Espírita.


Para uns o Espírito de Verdade é Jesus; outros dizem que não; e, completando, há os que não se preocupam nem um pouco com a sua identificação.




Podemos também encontrar aqueles que acham que é coisa de somenos importância e, finalmente, a turma do tanto faz. Embora esse assunto não seja objeto de grande destaque na mídia espírita, chama-nos a atenção o fato dele ser causa de tantas discussões, pois, a essa altura do campeonato – cerca de pouco mais de um século e meio de Doutrina –, nós, os Espíritas, já deveríamos ter plena certeza de quem, realmente, assinara nas obras da Codificação, usando este codinome.


Assim sendo, traremos nossa contribuição, na condição de ser apenas um estudioso, para, quem sabe, se não resolver, de uma vez por todas, a questão, pelo menos indicar um caminho que leve a deduzir claramente quem seria o Espírito de Verdade.


Esclarecemos, logo de início, que não temos a pretensão de refutar nenhum artigo escrito sobre o assunto. E fazemos questão de reafirmar que queremos apenas contribuir para elucidar essa questão.


Seria uma comunidade de Espíritos?

Tendo em vista que muitos companheiros consideram-no como sendo uma plêiade de Espíritos, é necessário, já de início, definirmos este ponto.


Encontramos, na Revista Espírita, algumas comunicações nas quais nos fundamentaremos para responder a este quesito.


Perguntou-se ao Espírito Jobard:


Vedes os Espíritos que estão aqui convosco?

– R. Eu vejo sobretudo Lázaro e Erasto; depois, mais distante, o Espírito de Verdade, planando no espaço; depois, uma multidão de Espíritos amigos que vos cercam, apressados e benevolentes.
(Revista Espírita 1862, p. 75; O Céu e o Inferno, p. 203, grifo nosso).


Ao Espírito Sanson, se fez a seguinte pergunta:


Não vedes outros Espíritos?

– R. Perdão; o Espírito de Verdade, Santo Agostinho, Lamennais, Sonnet, São Paulo, Luís e outros amigos que evocais, estão sempre em vossas sessões.
(Revista Espírita 1862, p. 175, grifo nosso).


Numa comunicação de Lacordaire, lemos:


Era preciso, aliás, completar o que não havia podido dizer então, porque não teria sido compreendido.


Foi porque uma multidão de Espíritos de todas as ordens, sob a direção do Espírito de Verdade, veio em todas as partes do mundo e em todos os povos, revelar as leis do mundo espiritual, das quais Jesus havia adiado o ensinamento, e lançar, pelo Espiritismo, os fundamentos da nova ordem social.


Quando todas as bases lhe forem postas, então virá o Messias que deverá coroar o edifício e presidir à reorganização com a ajuda dos elementos que terão sido preparados.
(Revista Espírita 1868, p. 47, grifo nosso).


Pela informação desses três Espíritos, podemos concluir que não se trata de uma coletividade, mas que o Espírito de Verdade é, sem receio, uma individualidade.


Mas sigamos em frente. Devemos, para dissipar as possíveis dúvidas, trazer o testemunho do próprio Kardec, que, analisando uma comunicação de um determinado espírito, assim a explicou:


O Espírito que ditou a comunicação acima é, pois, muito absoluto no que concerne a qualificação de santo, e não está na verdade dizendo que os Espíritos Superiores se dizem simplesmente Espíritos de verdade, qualificação que não seria senão um orgulho mascarado sob um outro nome, e que poderia induzir em erro se tomado ao pé da letra, porque ninguém pode se gabar de possuir a verdade absoluta, não mais do que a santidade absoluta.


A qualificação de Espírito de Verdade não pertence senão a um e pode ser considerado como nome próprio; ela é especificada no Evangelho. De resto, esse Espírito se comunica raramente, e somente em circunstâncias especiais; deve-se manter em guarda contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título: ão fáceis de se reconhecer, pela prolixidade e pela vulgaridade de sua linguagem. (Revista Espírita 1866, p. 222, grifo nosso).


Não restando, portanto, a nós mais dúvida quanto a não ser uma coletividade, uma vez que as explicações dadas acima, pelo Codificador, nos apontam para identificá-lo como sendo mesmo uma individualidade.


Inclusive, da judiciosa recomendação de que “deve-se manter em guarda contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título”, podemos perceber que se trata de um Espírito de elevada hierarquia que, embora não se manifestasse de forma rotineira, dele já se tinha uma ideia do estilo de linguagem, que estava bem longe da prolixidade e da vulgaridade.


Levando-se em conta que Kardec disse que a qualificação do Espírito de Verdade encontra-se especificada no Evangelho, seguiremos sua orientação, e, um pouco mais à frente, iremos ver o que lá poderemos encontrar sobre isso.

Quem seria o Consolador?

Importante também fazermos a distinção de quem seria o Consolador, pois alguns companheiros o têm como sendo Jesus, enquanto outros já o veem como o Espírito de Verdade.


Vejamos esta passagem de João 14,15-18 e 26:


“Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja eternamente convosco, o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós.

Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. (grifo nosso).


Por ter afirmado que enviaria outro Consolador, devemos concluir, com Kardec, que o Consolador não é Jesus. Entretanto, a passagem bíblica dá a entender que o Consolador é o Espírito de Verdade, fato que vem causando uma certa confusão para se identificar quem realmente ele seja, se apenas tomarmos esse passo como referência.

Mais à frente iremos ver que outras passagens bíblicas não trazem essa ideia, separando um do outro.


Em A Gênese, cap. XVII, item 39, Kardec vai nos esclarecer isso, pois, para ele, são duas coisas distintas; vejamos:
Qual deverá ser esse Enviado?

Dizendo: “Pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador”, Jesus claramente indica que esseConsolador não seria ele, pois, do contrário, dissera: “Voltarei a completar o que vos tenho ensinado”.


Não só tal não disse, como acrescentou: A fim de que fique eternamente convosco e ele estará em vós.

Esta proposição não poderia referir-se a uma individualidade encarnada, visto que não poderia ficar eternamente conosco, nem, ainda menos, estar em nós; compreendemo-la, porém, muito bem com referência a uma doutrina, a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado, poderá estar eternamente em nós.

O Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade.
(A Gênese, FEB, 2007e, p. 441, grifo nosso).


Desse modo, Kardec, reafirmando o que ele já havia dito alhures, relaciona o Consolador a uma doutrina soberanamente consoladora, qual seja, o Espiritismo, cujo inspirador foi o Espírito de Verdade.

Portanto, fica claro, para nós, que Kardec também separa um do outro, o que nos leva a concluir que o Espírito de Verdade não é o Consolador, o qual, ele mesmo, nessa sua fala acima, identifica como sendo o Espiritismo.

O que fica ainda mais nítido com estas suas duas outras falas:


Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VI, item 4, p. 135, grifo nosso).
[…] reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado.

Ora, como é o Espírito de Verdade quem preside ao grande movimento da regeneração, a promessa do seu advento se encontra realizada, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador. (A Gênese, item 42, IDE, p. 31, grifo nosso).


Caracteriza, portanto, o Espiritismo como sendo o Consolador prometido, ao qual lhe atribui a realização da promessa de Jesus quanto a seu envio, o que mostra claramente a separação que Kardec fazia entre Espírito de Verdade e o Consolador.


Nessa última fala, a que consta em A Gênese, ao dizer no final que “é ele o verdadeiro Consolador”, o “é ele” a que Kardec aqui está se referindo, s.m.j., é à expressão “seu advento”, o que, por conseguinte, nos remete ao Espiritismo e não ao Espírito de Verdade; ressaltamos, para que não se venha confundi-los no entendimento desse texto.

Para confirmar esse nosso entendimento, vejamos esta outra fala de Kardec, contida em O Evangelho Segundo o Espiritismo (p. 134): “O Espiritismo vem, na época predita, cumprir a promessa do Cristo: preside ao seu advento o Espírito de Verdade”. (grifo nosso).

Comparando essa fala com a que acima é dita “a promessa do seu advento se encontra realizada, porque, pelo fato, é ele o verdadeiro Consolador”, percebemos que nessa última frase o “seu advento” está se referindo ao Espiritismo, o que pode ser conferido com o que foi colocado na primeira frase.


Podemos observar, ainda, que, nessa passagem bíblica mencionada, Jesus diz “voltarei para vós” (João 14,18), profecia que se realizou quando da implantação do Espiritismo; isso ficará mais claro quando identificarmos quem usou o nome de Espírito de Verdade.

Quando aparece pela primeira vez?

No dia 24 de março de 1856, Kardec estava, em seu escritório, escrevendo um texto sobre os Espíritos e suas manifestações, quando, por várias vezes, ouviu repetidas batidas, cuja causa não logrou sucesso em encontrá-la.

No dia seguinte, ou seja, 25 de março, era dia de sessão na casa do Sr. Baudin e, lá, Kardec interroga ao Espírito Z (Zéfiro) sobre a origem das batidas.

Acontecimento que consta do livro Obras Póstumas, da seguinte forma:

Pergunta – Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; poderíeis dizer-me qual a causa daquelas pancadas que se fizeram ouvir com tanta persistência?


Resposta – Era teu Espírito Familiar.

P. – Com que fim foi ele bater daquele modo?

R. – Queria comunicar-se contigo.

P. – Poderíeis dizer-me quem é ele?

R. – Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.

P. – Meu Espírito familiar, quem quer que tu sejas, agradeço-te o me teres vindo visitar. Consentirás em dizer-me quem és?

R. – Para ti, chamar-me-ei A Verdade e todos os meses, aqui, durante um quarto de hora, estarei à tua disposição.

(Obras Póstumas, FEB, 2006, p. 304-306, grifo nosso).


Antes da próxima pergunta, Kardec colocou a seguinte nota: “Nessa época, ainda se não fazia distinção nenhuma entre as diversas categorias de Espíritos simpáticos.

Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos familiares”.

Esse fato nos leva, consequentemente, à conclusão de que não se deve tomar ao pé da letra a expressão “meu Espírito familiar” como se fosse algum parente já desencarnado; tratava-se, no caso, do guia espiritual de Kardec, conforme ele mesmo afirma isso com relação ao Espírito de Verdade, como será visto mais à frente.


Indagando sobre o porquê das batidas, teve como resposta que havia um erro no que estava escrevendo naquela ocasião, fato que depois se confirmou.


Voltando às perguntas, continua Kardec:

P. – O nome Verdade, que adotaste, constitui uma alusão à verdade que eu procuro?

R. – Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará.

P. – Poderei evocar-te em minha casa?

R. – Sim, para te assistir pelo pensamento; mas, para respostas escritas em tua casa, só daqui a muito tempo poderás obtê-las.

P. – Terás animado na Terra alguma personagem conhecida?

R. – Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer discrição: nada mais saberás a respeito.
(Obras Póstumas, FEB, 2006, p. 304-306, grifo nosso)


Em nota acrescida às respostas obtidas do Espírito de Verdade, realizada na casa do Sr. Baudin, a 09 de abril de 1856, portanto, cerca de quinze dias após as anteriores, Kardec, nos informa:


A proteção desse Espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar, jamais, de fato, me faltou.

A sua solicitude e a dos bons Espíritos que agiam sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias de minha vida, quer a me remover dificuldades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus trabalhos, quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus antagonistas, que foram sempre reduzidos à impotência. (
Obras Póstumas, FEB, 2006, p. 307, grifo nosso).


Diante disso, para nós, fica bem claro que Kardec ficou sabendo quem realmente era o Espírito de Verdade, visto ele confessar que estava longe de supor a sua superioridade, o que nos leva a concluir que deveria ser alguém de extraordinário valor, pois, se não fosse um Espírito de elevada categoria, teria dito o seu nome sem maiores reservas.

Por outro lado, foi um Espírito que esteve encarnado entre nós, ou seja, que foi reconhecido; caso contrário não se poderia supor a sua elevada evolução.

Além disso, o coloca à frente, na linha de comando, dos bons Espíritos, envolvidos nessa nova proposta de renovação da humanidade, ao afirmar que eles agiam sob suas ordens.


Algumas objeções têm-se feito quanto a essa superioridade, quando relacionada ao Espírito de Verdade, tendo em vista, principalmente, dois pontos: que dar pancadas não seria coisa que um Espírito superior faria, pois estaria se rebaixando, caso o fizesse; e também por ter sido tratado de Espírito familiar.


Para o primeiro ponto podemos encontrar uma explicação do próprio Kardec, em O Livro dos Médiuns, segunda parte – Cap. XI, item 145:


Resta-nos destruir um erro assaz espalhado: o de confundirem-se com os Espíritos batedores todos os Espíritos que se comunicam por meio de pancadas.

A tiptologia constitui um meio de comunicação como qualquer outro, e que não é, mais do que o da escrita, ou da palavra, indigno dos Espíritos elevados.

Todos os Espíritos, bons ou maus, podem servir-se dele, como dos diversos outros existentes.


O que caracteriza os Espíritos superiores é a elevação das ideias e não o instrumento de que se utilizem para exprimi-las. Sem dúvida, eles preferem os meios mais cômodos e, sobretudo, mais rápidos; mas, na falta de lápis e de papel, não escrupulizarão de valer-se da vulgar mesa falante e a prova disso é que, por esse meio, se obtém os mais sublimes ditados. […].


Assim, pois, nem todos os Espíritos que se manifestam por pancadas são batedores. Este qualificativo deve ser reservado para os que, poderíamos chamar de batedores de profissão e que, por este meio, se deleitam em pregar partidas, para divertimentos de umas tantas pessoas, em aborrecer com as suas importunações…

Acrescentemos que, além de agirem quase sempre por conta própria, também são amiúde instrumentos de que lançam mão os Espíritos superiores, quando querem produzir efeitos materiais.
(O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 198-199, grifo nosso).


Portanto, o que importa não é o meio pelo qual uma mensagem foi transmitida, mas tão-somente o seu conteúdo. Agora, quanto ao segundo ponto, ou seja, de ter sido identificado como um Espírito familiar, temos também a explicação de Kardec, já mencionada, de que, na época, não se fazia nenhuma distinção entre as diversas categorias de Espíritos simpáticos; eram todos genericamente chamados de Espíritos familiares.


Assim, o Espírito de Verdade se apresentou a Kardec e, por motivo de discrição, não disse absolutamente nada sobre si mesmo. Aliás, “muita discrição” foi a atitude que Ele recomendou ao Codificador
(Obras Póstumas, 2006, p. 313).


É importante observar que isso aconteceu antes do lançamento de O Livro dos Espíritos; porém, se Kardec tivesse dito quem, de fato, Ele era e divulgado tal coisa, será que, hoje em dia, estaríamos falando sobre o Espiritismo?

Considerando que ainda não estamos nos fins dos tempos, época em que, segundo creem alguns, deverá acontecer a parusia, alguém aceitaria, sem maiores reservas, que seria verdadeira a sua identidade, ou acreditaria na revelação desse Espírito?

Feito isso, teria o Espiritismo sobrevivido?

Sua sobrevivência se deve ao fato de que, no princípio, Kardec sempre procurou ressaltar o aspecto científico da Doutrina. E isso não foi porque quis fazer dessa forma, mas, certamente, por atender orientação do Espírito de Verdade.


De certa forma, essa era a opinião de Herculano Pires, quando disse: “Kardec teve de agir com prudência na divulgação do Espiritismo, para que a reação violenta e fanática das religiões não asfixiasse no berço a nova mundividência que nascia das pesquisas mediúnicas.” (PIRES, 1990, p. 13).


Em 9 de agosto de 1863, Kardec, prestes a lançar o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, fica sabendo o real objetivo do Espiritismo:


Aproxima-se a hora em que te será necessário apresentar o Espiritismo qual ele é, mostrando a todos onde se encontra a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo. Aproxima-se a hora em que, à face do céu e da Terra, terás de proclamar que o Espiritismo é a única tradição verdadeiramente cristã e a única instituição verdadeiramente divina e humana. […]. (Obras Póstumas, 2006, p. 340, grifo nosso).


Se o Espiritismo é a verdadeira doutrina ensinada pelo Cristo, não há como não aceitá-lo como uma religião, que, segundo o acima colocado, foi para o que veio. Teria algum bom motivo pelo qual Ele pessoalmente não viesse completar o que não pôde dizer naquela época?


Poucos dias depois, a 14 de setembro de 1863, Kardec recebe mais uma mensagem, da qual ressaltamos o seguinte trecho: “[…]

Nossa ação, sobretudo a do Espírito de Verdade, é constante ao teu derredor e tal que não a podes negar. […].

Com esta obra, o edifício começa a se livrar dos seus andaimes e já se lhe pode a cúpula a desenhar-se no horizonte. (Obras Póstumas, 2006, p. 341, grifo nosso).


Fica demonstrada de forma explícita a ação do Espírito de Verdade sobre Kardec, que também O reconhecia como seu guia espiritual, fato que podemos confirmar em seus escritos publicados na Revista Espírita 1861 (p. 356): “Sim, senhores, este fato é não só característico, mas é providencial. Eis, a este respeito, o que me dizia ainda ontem, antes da sessão, o meu guia espiritual: o Espírito de Verdade”. (grifo nosso).


Estranham algumas pessoas essa afirmativa de Kardec de que o Espírito de Verdade era seu guia espiritual. E aqui temos mais um bom motivo para que ele não o identificasse claramente como sendo Jesus, porquanto ridicularizariam tanto o Espiritismo quanto a ele, que, na melhor das hipóteses, seria tachado de mais um louco, entre milhares, que se dizem em contato com Jesus. Entretanto, a darmos crédito ao que Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, afirma sobre o Codificador, essa possibilidade é bem real. Vejamos:


Um dos mais lúcidos discípulos do Cristo baixa ao planeta, compenetrado de sua missão consoladora, e, dois meses antes de Napoleão Bonaparte sagrar-se imperador, obrigando o Papa Pio VII a coroá-lo na igreja de Notre Dame, em Paris, nascia Allan Kardec, aos 3 de outubro de 1804, com a sagrada missão de abrir caminho ao Espiritismo, a grande voz do Consolador prometido ao mundo pela misericórdia de Jesus Cristo. (XAVIER, 1987, p. 194, grifo nosso).


Emmanuel não deixa por menos, qualificando Kardec como “um dos mais lúcidos discípulos do Cristo”, fato que o coloca à altura da nobre missão que recebeu para trazer ao mundo a nova revelação, presidida, conforme vimos, pelo próprio Cristo.


Não vemos nenhuma impossibilidade de Jesus ter assistido a Kardec, pois algo parecido, como sabemos, aconteceu a Paulo, conforme relatado no Novo Testamento, no qual Jesus aparece ao apóstolo dos gentios, quando ele se diria a Damasco (At 9,3-5) e até mesmo o instrui a não ir a Bitínia (At 16,6-7). Aliás, é algo que todos nos aceitamos sem questionar, então, por que o fazemos em relação à Kardec?


Particularmente, acreditamos que esta condição de guia espiritual se relaciona ao período em que Kardec assumiu a missão de codificar a Doutrina Espírita, seguindo as orientações dos Espíritos Superiores, ou seja, um guia específico, que o ajudaria a cumprir essa missão. Quem teria sido Kardec, numa reencarnação passada, para que o Espírito de Verdade o chamasse de “meu apóstolo” (KARDEC, 1990, p. 137)?


Se, porventura, Kardec houvesse mesmo sido o reformador checo Jan Huss, em nova roupagem (INCONTRI, 2004, p. 22-24) ou talvez, quem sabe, o ressurgimento do antigo precursor, João Batista (ALEIXO, 2001, p. 40-41), teremos que vê-lo, em qualquer dessas hipóteses, como um missionário, cujas reencarnações estariam relacionadas à missão de anunciar e/ou restabelecer a revelação divina aos homens. Porém, isto fica no campo da suposição, já que não temos como provar tais alegações.


Em janeiro de 1862, Kardec publica na Revista Espírita um artigo intitulado “Ensaio sobre a interpretação da doutrina dos anjos decaídos”, sobre o qual houve várias mensagens dos Espíritos. Dentre elas, destacamos uma recebida em Haia (Holanda), cujo teor é:


Sobre este artigo não tenho senão poucas palavras a dizer, senão que é sublime de verdade; nada há a acrescentar, nada há a suprimir; bem felizes aqueles que unirem fé a essas belas palavras, aqueles que aceitarão esta Doutrina escrita por Kardec. Kardec é o homem eleito por Deus para instrução do homem desde o presente; são palavras inspiradas pelos Espíritos do bem, Espíritos muito superiores. Acrescentai-lhe fé; lede, estudai toda esta Doutrina: é um conselho que vos dou. (Revista Espírita 1862, p. 115, grifo nosso).


Aqui temos a informação de que Kardec foi “o homem eleito por Deus para instrução do homem”, e somando-se à afirmação do Espírito de Verdade de que iria à sua casa “para te assistir pelo pensamento”, podemos deduzir que o Codificador era um médium de intuição, fato que poderemos também corroborar tomando-se de suas próprias palavras:


Sem ter nenhuma das qualidades exteriores da mediunidade efetiva, não contestamos em sermos assistidos em nossos trabalhos pelos Espíritos, porque temos deles provas muito evidentes para disto duvidar, o que devemos, sem dúvida, à nossa boa vontade, e o que é dado a cada um de merecer.

Além das ideias que reconhecemos nos serem sugeridas, é notável que os assuntos de estudo e observação, em uma palavra, tudo o que pode ser útil à realização da obra, nos chega sempre a propósito, - em outros tempos eu teria dito: como por encantamento –, de sorte que os materiais e os documentos do trabalho jamais nos fazem falta.


Se temos que tratar de um assunto, estamos certos de que, sem pedi-lo, os elementos necessários à sua elaboração nos são fornecidos, e isto por meios que nada têm senão de muito natural, mas que são, sem dúvida, provocados por colaboradores invisíveis, como tantas coisas que o mundo atribui ao acaso. (Revista Espírita 1867, p. 274, grifo nosso).


Um pouco mais à frente, em agosto de 1863, numa mensagem a respeito da publicação da Imitação do Evangelho, título da primeira publicação de O Evangelho Segundo o Espiritismo, entre outras coisas, foi dito a Kardec:
[…] Ao te escolherem, os Espíritos conheciam a solidez das tuas convicções e sabiam que a tua fé, qual muro de aço, resistiria a todos os ataques.


Entretanto, amigo, se a tua coragem ainda não desfaleceu sob a tarefa tão pesada que aceitaste, fica sabendo bem que foste feliz até ao presente, mas que é chegada a hora das dificuldades. Sim, caro Mestre, prepara-se a grande batalha; o fanatismo e a intolerância, exacerbados pelo bom êxito da tua propaganda, vão atacar-te e aos teus com armas envenenadas. Prepara-te para a luta. Tenho, porém, fé em ti, como tens fé em nós, e sei que a tua fé é das que transportam montanhas e fazem caminhar por sobre as águas.

Coragem, pois, e que a tua obra se complete. Conta conosco e conta, sobretudo, com a grande alma do Mestre de todos nós, que te protege de modo tão particular. (Obras Póstumas, p. 340-341, grifo nosso).


Nesta mensagem confirma-se que Kardec recebia uma proteção “de modo tão particular” de Jesus, designado como “Mestre de todos nós”, o que vem corroborar tudo quanto estamos citando a seu respeito em relação a ele ser uma pessoa especial, que o qualificava para a missão de trazer ao mundo a terceira revelação divina e ser assistido por quem pensamos que foi.


Além disso, podemos ainda citar do Espírito de Verdade: “As grandes missões só aos homens de escol são confiadas e Deus mesmo os coloca, sem que eles o procurem, no meio e na posição em que possam prestar concurso eficaz” (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 488), o que nos permite, objetivamente, qualificar Kardec como um homem de escol.


Mas estaríamos, segundo alguns poderão supor, diante de uma outra dificuldade, qual seja: Jesus poderia se manifestar?

Não vemos nenhum problema nisso, desde que não o mantenhamos no pedestal em que foi colocado pelos teólogos de antanho, quando o transformaram num Deus, retirando-lhe a sua condição humana, da qual nunca negou ser.

É certo, pois nós, os espíritas, disso não duvidamos, que Ele é realmente um Espírito puro, e nessa condição, segundo a classificação dos Espíritos feita por Kardec, Jesus pode perfeitamente se comunicar, o que, por exemplo, pode ser corroborado pelo fato acontecido na estrada de Damasco, quando Ele aparece a Paulo de Tarso, questionando-o sobre porque Lhe perseguia (At 9,5) ou no episódio em que Ele não permite a Paulo e Silas seguirem para Bitínia (At 16,7).

Mais à frente, nesse estudo, ficará provado que além do Cristo estar em missão na Terra (Roustaing e São Paulo) era Ele quem presidia todos que participaram da codificação (Chateaubriand e Kardec), e que também Se manifestava (São José), situações que corroboram o que aqui expomos.


Quanto à natureza de Cristo, Kardec, até o mês de setembro de 1867, não quis entrar em maiores detalhes, argumentando:


[…] uma solução prematura, qualquer que ela seja, encontraria muita oposição de parte a parte, e afastaria do Espiritismo mais partidários do que ela lhe daria; eis por que a prudência nos faz um dever nos abstermos de toda polêmica sobre esse assunto, até que estejamos seguros de poder colocar o pé sobre um terreno sólido. (Revista Espírita 1867, p. 272, grifo nosso).


É dentro desta mesma prudência que vemos o porquê de Kardec não ter também dito claramente que Jesus era o Espírito de Verdade.


Em O Livro dos Espíritos, 2ª parte, cap. I, item 113, Kardec ao referir-se aos Espíritos Puros disse: “Podem os homens pôr-se em comunicação com eles, […]” (KARDEC, 2007a, p.115), serve-nos para crer na real possibilidade das comunicações atribuídas a Jesus.


Pessoalmente acreditamos que é muito menos complicado comunicarem-se conosco do que virem como um de nós, e serem aprisionados num corpo físico, como aconteceu com o nosso “guia e modelo”, quando esteve encarnado aqui entre nós por uns trinta e poucos anos.


Isso ocorre por pura questão de vibrações; a nossa é tão inferior, em relação aos Espíritos puros, que embora torne difícil sintonizarmos com eles, não impede que isso aconteça; porém, em relação a reencarnarem entre nós por vontade divina, é, julgamos, mil vezes mais complexo, visto não se tratar de vibrações equivalentes, mas de vencer as leis que mais objetivam a encarnação de Espíritos compatíveis com as emanações vibratórias dos mundos inferiores, ou seja, de Espíritos imperfeitos.


No Evangelho, a quem esse nome poderia qualificar?


Mas, afinal, a quem poderíamos qualificar com o codinome a Verdade? De onde podemos tirar algo para relacionar com ele? Se o Espiritismo, conforme sustentam os Espíritos superiores, é o Cristianismo redivivo, só podemos encontrar alguma coisa no Evangelho, o que, convém lembrar, também foi sugestão de Kardec para que, assim, procedêssemos.


Fizemos uma pesquisa, na qual procuramos eliminar as passagens comuns entre os quatro evangelistas e, como resultado, encontramos Jesus empregando, por sessenta vezes, a expressão “Em verdade vos digo”, quantidade que reportamos bem significativa.


Podemos enumerar mais duas outras passagens para demonstrar a importância que Ele dava à palavra verdade.

Primeira: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (João 14,6).

No desdobramento da parte inicial desse versículo, teremos os três epítetos a que Jesus se atribui:

“Eu sou o Caminho. Eu sou a Verdade. Eu sou a Vida”.

Será que por aqui já não daria para identificarmos quem poderia se denominar a Verdade?

Segunda: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8,32) que, se a colocássemos dessa forma: “E conhecereis a Jesus, e Jesus vos libertará”, ficaria plenamente inteligível e, além disso, poderia perfeitamente ser aplicada.


Somente essas passagens já nos levaram a concluir que Jesus é, de fato, o Espírito de Verdade, pois estariam nelas as razões de ter usado o nome: a Verdade.


E colocamos a seguinte pergunta: Algum Espírito superior teria a insensatez ou vaidade de usar o codinome a Verdade, sabendo que poderíamos relacioná-lo a Jesus? Improvável, pois a elevação que tais Espíritos atingiram não lhes permitiria dizer coisas dúbias que induziriam as pessoas a pensar coisas equivocadas, principalmente em se tratando de levar alguém a confundi-los com Jesus.

Quem é o Espírito de Verdade? Parte 2

Vejamos, agora, estas passagens do Evangelho:


“Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. (Jo 14,18).


“Quando vier o Paráclito, que vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da Verdade, que vem do Pai, dará testemunho de mim”. (Jo 15,26).


“No entanto, eu vos digo a verdade: é de interesse que eu parta, pois, se não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se for, envia-lo-ei a vós”. (Jo 16,7).


“Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras”. (Jo 16,12-13).


“[…] Chega a hora em que já não vos falarei em figuras, mas claramente vos falarei do Pai”. (Jo 16,25).
Então, temos aqui Jesus afirmando duas coisas: sobre a sua volta e que enviaria o Espírito de Verdade. Inclusive, condiciona a vinda dele com a sua partida para o mundo espiritual, o que seria perfeitamente aplicável se ambos fossem a mesma personalidade.


O problema que, geralmente, se vê é que Jesus trata o Espírito de Verdade como se fosse uma outra pessoa, razão pela qual alegam não poder ser Ele esse personagem. Entretanto, esquecem-se de que, repetidas vezes, usou desse expediente, conforme podemos ver nas narrativas dos Evangelhos. A designação de “Filho do Homem”, neles constante, certamente, só poderá nos levar atribuí-la a Jesus; porém, sempre utilizava essa expressão como se fosse para uma outra pessoa e não a Ele próprio.


Uma coisa bem interessante se encontra no livro Apocalipse, que é uma referência explícita de que Jesus viria com um novo nome:


“Venho logo! Segura com firmeza o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. Quanto ao vencedor, farei dele uma coluna no templo do meu Deus, e daí nunca mais sairá. Escreverei nele o nome do meu Deus e o nome da Cidade do meu Deus – a nova Jerusalém, que desce do céu, de junto do meu Deus – e o meu novo nome”. (Ap 3,11-12).


Portanto, há aqui uma previsão da volta de Jesus com um novo nome, que, por tudo quanto está sendo colocado nessa pesquisa, só nos leva a deduzir ser o Espírito de Verdade.

O que os Espíritos disseram?

a) No círculo de Kardec:

Vejamos algumas comunicações de Espíritos relacionados à Codificação Espírita:
Em 20 de janeiro de 1860, de Chateaubriand:


Sois guiados pelo verdadeiro Gênio do Cristianismo, eu vos disse; é porque o próprio Cristo preside aos trabalhos de toda natureza que estão em vias de cumprimento para abrir a era de renovação e de aperfeiçoamento que vos predizem os vossos guias espirituais. […]. (Revista Espírita 1860, p. 62, grifo nosso).
Em 19 de setembro de 1861, de Erasto aos Espíritas lionenses:


Não poderíeis crer o quanto nos é doce e agradável presidir ao vosso banquete, onde o rico e o artesão se acotovelam bebendo fraternalmente; onde o judeu, o católico e o protestante podem se sentar na mesma comunhão pascal. Não poderíeis crer o quanto estou orgulhoso em distribuir, a todos e a cada um, os elogios e os encorajamentos que o Espírito de Verdade, nosso mestre bem-amado, me ordenou conceder às vossas piedosas coortes […]. (Revista Espírita 1861, p. 305, grifo nosso).


Em 14 de outubro de 1861, Kardec lê a mensagem de Erasto aos Espíritas de Bordeaux:

Sei o quanto vossa fé em Deus é profunda, e quão fervorosos adeptos sois da nova revelação; é por isso que vos digo, em toda a efusão de minha ternura por vós, estaria desolado, estaríamos todos desolados, nós que somos, sob a direção do Espírito de Verdade, os iniciadores do Espiritismo na França, se a concórdia das quais destes, até este dia, provas brilhantes viessem a desaparecer de vosso meio. […]. Devo vos fazer ouvir uma voz tanto mais severa, meus bem-amados, quanto o Espírito de Verdade, mestre de nós todos, espera mais de vós. (Revista Espírita 1861, p. 348/350, grifo nosso).


Em 21 de novembro de 1862, de Antoine (Espírito que foi o pai de Kardec):

Aquele, diz-se, que tiver resistido a essas tristes tentações, pode não esperar a mudança dos decretos de Deus, os quais são imutáveis, mas contar com a benevolência sincera e afetuosa do Espírito de Verdade, o Filho de Deus, o qual saberá, de maneira incomparável, inundar sua alma da felicidade de compreender o Espírito de justiça perfeita e de bondade infinita, e, por consequência, salvaguardá-lo de toda nova armadilha semelhante. (Revista Espírita 1862, p. 343, grifo nosso).


Em 17 de setembro de 1863, de São José:

Compreendei bem que quanto mais conduzirdes os homens a vos imitar, mais o conjunto de vossas preces terá poder. Tomai os homens pela mão, e conduzi-os no verdadeiro caminho onde engrossarão a vossa falange.

Pregai a boa doutrina, a doutrina de Jesus, a que o próprio Divino Mestre ensina em suas comunicações, que não fazem senão repetir e confirmar a doutrina dos Evangelhos. Aqueles que viverem verão coisas admiráveis, eu vo-lo digo. (Revista Espírita 1863, p. 365-366, grifo nosso).


Em Paris, 1863, de Erasto:

Eis, meus filhos, a verdadeira lei do Espiritismo, a verdadeira conquista de um futuro próximo. Caminhai, pois, em vosso caminho, imperturbavelmente, sem vos preocupar com as zombarias de uns e amor-próprio ferido de outros. Estamos e ficaremos convosco, soba égide do Espírito de Verdade, meu senhor e o vosso. (Revista Espírita 1868, p. 51, grifo nosso).


Ressaltamos as expressões: “nosso Mestre bem-amado”, “Mestre de nós todos”, “o Filho de Deus”, “Divino Mestre” e “Meu senhor e o vosso”; a quem poderemos dar todos esses títulos?

Isso mesmo; só existe um ser a quem podemos aplicá-los, que não é outro senão o próprio Jesus. Isso fica claro se compararmos a expressão “nosso Mestre bem-amado”, usada por Erasto em setembro de 1861, para designar o Espírito de Verdade, com a que consta da sua outra mensagem, recebida em abril de 1862, na qual ele atribui essa mesma expressão a Cristo (Revista Espírita 1862, p. 111).

Inclusive, numa outra oportunidade, ele assim se expressou: “[…]

o que não sou senão um dos últimos e dos mais obscuros discípulos do Espírito de Verdade, […].” (Revista Espírita 1863, p. 384); esse teor não nos permite atribuí-lo a nenhuma outra pessoa a não ser ao próprio Jesus.

Poderemos, ainda, para reforçar, usar da fala de São José que disse taxativamente que “o próprio Divino Mestre ensina em suas comunicações”, o que, também, nos dá certeza de que Ele se manifestava, acabando com as dúvidas que possam surgir sobre essa possibilidade.


Merecem atenção especial as que são citadas por Erasto, pois, sabendo da sua efetiva participação nas obras da codificação com várias orientações e instruções, como poder-se-á vê-las em O Evangelho Segundo o Espiritismo, em O Livro dos Médiuns e na Revista Espírita, deveríamos levar em conta o que ele nos informa.

Esse Espírito, citado pelo codificador como “sábio” (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 129), “cujas comunicações todas trazem o cunho incontestável de profundeza e lógica” (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 124), era considerado por Kardec, em relação a outros espíritos, como sendo “muito mais instruído do ponto de vista teórico” (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 129).


Assim, não há o que se discutir sobre o que ele aqui fala a respeito do Espírito de Verdade, pois, se o que ele diz não serve neste ponto, também não servirá nos outros.
Em Paris, 1863, de João Evangelista:


Jesus queria que os homens se entregassem a ele com a confiança desses pequenos seres de passos vacilantes, cujo apelo lhe conquistaria o coração das mulheres, que são todas mães. Assim, ele submetia as almas à sua terna e misteriosa autoridade.

Ele foi a flama que espancou as trevas, o clarim matinal que tocou a alvorada.

Foi o iniciador do Espiritismo, que deve, por sua vez, chamar a si, não as crianças, mas os homens de boa vontade. A ação viril está iniciada; não se trata mais de crer instintivamente e obedecer de maneira mecânica; é necessário que o homem siga a lei inteligente, que lhe revela a sua universalidade.


Meus bem-amados, eis chegados os tempos em que os erros explicados se transformarão em verdades. Nós vos ensinaremos o verdadeiro sentido das parábolas.

Nós vos mostraremos a correlação poderosa, que liga o que foi ao que é. Eu vos digo, em verdade: a manifestação espírita se eleva no horizonte, e eis aqui o seu enviado; que vai resplandecer como o sol sobre o cume dos montes. (O Evangelho Segundo o Espiritismo – EME, 2004, p. 98, grifo nosso).


Aqui tomaremos a informação meio que por via indireta; levando-se em consideração o que consta em outros pontos desse estudo, onde foi informado que o Espírito de Verdade presidia o movimento de regeneração e aqui se afirma que Jesus foi o iniciador do Espiritismo; vê-se, que a relação entre os dois, mais uma vez, fica bem clara.


Em janeiro de 1864, junto à Sociedade Espírita de Paris, lemos nas instruções do Espírito Hahnemann:

“[…] cada um procurará, pela melhoria de sua conduta, adquirir esse direito que o Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido.” (Revista Espírita 1864, p. 16, grifo nosso).


A quem cabe a direção do nosso globo? Segundo nos informam os Espíritos, a Jesus; assim, via de consequência, não há como negar que é Ele o Espírito de Verdade.


Em 5 de janeiro de 1866, de Sonnez:


1866, possas tu, pelos anos a vir, ser essa estrela luminosa que conduziu os reis magos para a manjedoura de um humilde filho do povo; vinham prestar homenagem à encarnação que deveria representar, no sentido mais amplo, o Espírito de Verdade, essa luz benfazeja que transformou a humanidade.

Por esta criança tudo foi compreendido! Foi bem ela que eternizou a graça da simplicidade, da caridade, da benevolência, do amor e da liberdade. (Revista Espírita 1867, p. 58, grifo nosso).


Nessa comunicação, a relação de Jesus como sendo o Espírito de Verdade é direta, sem meio termo, o que poderá, caso não haja preconceito ou cristalização de opinião, dissipar todas as possíveis dúvidas quanto a esse fato. Veja-se que ao falar dos reis magos visitando um humilde filho do provo, prestavam homenagem a Jesus que representaria, no sentido mais amplo, o Espírito de Verdade; portanto, a relação de Jesus com o Espírito de Verdade é bem direta, sem rodeios.


Em 30 de janeiro de 1866, de Inocente (em vida, arcebispo de Táurida):


[…] A Alemanha assiste, como em todos os tempos, à emigração de seus habitantes às centenas de milhares, o que não faz honra aos seus governos; o Papa, príncipe temporal, espalha o erro pelo mundo, em vez do Espírito de Verdade, de que ele se constituiu o emblema artificial. […]. (Obras Póstumas, FEB, 2006, p. 346, grifo nosso).


Considerando que o Papa é visto pelos líderes católicos como o “Vigário do Filho de Deus”, ou seja, Vigário de Jesus, a citação acima, em se referindo ao Espírito de Verdade, leva-nos à conclusão de que se fala da mesma personalidade.


Em 11 de março de 1867, numa mensagem sobre a regeneração da humanidade, cuja assinatura consta simplesmente Um Espírito:


[…] Coragem! O que foi predito pelo Cristo deve-se realizar. Nesses tempos de aspiração à verdade, a luz que ilumina todo homem vindo a este mundo, brilha de novo sobre vós; perseverai na luta, sede firmes e desconfiai das armadilhas que vos são estendidas; ficai ligados a esta bandeira onde vós haveis escrito:

Fora da caridade não há salvação, e depois esperai, porque aquele que recebeu a missão de vos regenerar retorna, e ele disse: Bem-aventurados aqueles que conhecerem o meu novo nome! (Revista Espírita 1868, p. 96, grifo nosso).


Fala-se claramente do retorno de Cristo, com a missão de regenerar os homens, agora com um novo nome. Essa previsão de sua volta com um novo nome se encontra no livro Apocalipse (Ap 3,11-12), conforme já o mencionamos um pouco mais atrás.


b) Fora do meio de Kardec:


Destacamos este trecho da carta do Sr. Jean-Baptiste Roustaing, de Bordeaux, a Kardec:


Agradeço com alegria e humildade esses divinos mensageiros por terem vindo nos ensinar que o Cristo está em missão sobre a Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo, essa terceira explosão da bondade divina, para cumprir esta palavra final do Evangelho: ‘Unum ovile et unus pastor’, por terem vindo nos dizer: ‘Não temais nada!

O Cristo (chamado por eles Espírito de Verdade), a Verdade é o primeiro e o mais santo missionário das ideias espíritas’.

Estas palavras me tocaram vivamente, e me perguntava: ‘Mas onde está, pois, o Cristo em Missão na Terra?’

A Verdade comanda, segundo a expressão do Espírito de Marius, bispo das primeiras idades da Igreja, essa falange de Espíritos enviados por Deus em missão sobre a Terra, para a propagação e o sucesso do Espiritismo. (Revista Espírita 1861, p. 169, grifo nosso).


Assim, Roustaing diz a Kardec que os Espíritos com os quais ele tinha relação diziam ser o Cristo, aquele a quem chamavam de o Espírito de Verdade.


No Círculo Cristiano Espiritista de Lérida (Espanha), em meados de 1873, encontramos duas mensagens.


A primeira foi assinada por S. Paulo:

Ensinai aos que não têm fé as excelentes e doces verdades do Espiritismo que o bom Senhor vos concedeu por seus enviados, porque a Verdade se aproxima e é necessário que os enviados lhe preparem o caminho.


Em verdade vos digo: que o Cristo já recebeu a palavra de Deus – já desceu da região de luz – e está entre vós. (PELLÍCER, 1982, p. 121, grifo nosso).


Dizendo que a Verdade se aproxima e depois afirmando que o Cristo está “entre vós”, a relação entre um e outro é evidente demais para não se a considerar.


A outra, por S. Luís Gonzaga:  “Preparai-vos, não durmais; porque, em vossos dias, o Espírito da Verdade virá, com seus eleitos, operar a mais importante das renovações que a Humanidade jamais tem presenciado e admirado.” (PELLÍCER, 1982, p. 132, grifo nosso).


Embora aqui a identidade do Espírito de Verdade não tenha sido revelada, não podemos deixar de relacioná-la a alguém a quem poderá aplicar-se a expressão “com seus eleitos”.

Esse alguém, sem nenhuma impropriedade, não é outro senão o próprio Jesus.


E por falar em “seus eleitos”, ei-los na lista: Afonso de Liguori, Arago, Benjamim Franklin, Channing, Chateaubriand, Delphine de Girardin, Emmanuel, Erasto, Fénelon, Francisco Xavier, Galileu Galilei, Hahnemann, Henri Heine, Rousseau, Joana d'Arc, João Evangelista, Lacordaire, Lamennais, Lázaro, Massillon, Pascal, Paulo de Tarso, Platão, Sanson, Santo Agostinho, São Bento, São Luís, Sócrates, Swedenborg, Timóteo, Joana de Angelis (um espírito amigo), Cura D'Ars, Vicente de Paulo, Adolfo (bispo de Argel), Dr. Barry, Cárita, Dufêtre (bispo de Nevers), François (de Génève), Isabel (de França), Jean Reynaud, João (bispo de Bordéus), Julio Olivier, Morlot e V. Monod. (MARCON, 2002).

Apenas poderíamos questionar sobre quem, a não ser Jesus, poderia coordenar este rol de Espíritos?Hermínio Corrêa de Miranda (1920-2013), também nos dá uma informação bem interessante:


A identificação do Espírito Verdade com Jesus é confirmada em outro livro de boa fonte mediúnica, publicado após a partida de Allan Kardec para o plano espiritual.

Chama-se este Rayonnements de la vie spirituelle, tendo funcionado como médium, a sra. W. Krell, de Bordéus, autora também, do prefácio. (Suponho ter sido ela a médium que recebeu, 1861, a mensagem subscrita pelo Espírito Verdade e incluída por Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo). Rayonnements… é uma coletânea de comunicações de escritores e poetas da língua francesa, como André Chénier, Lamartine, Musset e mensagens outras de autoria de espíritos respeitáveis, inclusive Kardec e o próprio Espírito Verdade, que comparece em cinco textos de elevado teor.


No Natal de 1873, por exemplo, o Grupo de Bordéus recebeu a famosa Prece de Cáritas, e, no Natal seguinte, em 1874, o Espírito Verdade traz uma luminosa palavra de consolo e encorajamento, que assim começa:


– Qual o país que, nesta noite, meu nome não seja pronunciado? Por toda a parte, onde se encontrem corações sinceros, envio um raio de luz, mas, como outrora, não manifestarei minha presença entre o incenso, o ouro e as flores; como outrora, não escolho um palácio, mas humilde manjedoura, berço de devotamento e de amor, asilo de felicidade!


Em abril de 1873, uma “sexta-feira santa”, escreve o Espírito Verdade, por intermédio da Sra. Krell:


– Filhos, por toda a parte, nesta noite, glorifica-se a morte do Cristo, por toda parte, o engano, pois não é a sua morte que vos resgatou, é a vida!


Não é, também, pelo seu sofrimento de algumas horas – prossegue – que o ser humano se resgata, porque muitos outros foram martirizados por suas ideias, e sim pela sua doação “na plenitude da minha vontade e do meu amor”.


– O que resgata a terra é a realidade espiritual, cuja existência demonstrei; é o meio de vencer a matéria e chegar à perfeição, que ensinei em cada momento de minha vida aqui embaixo.


– Um só caminho – diz, mais adiante – leva à perfeição: a Caridade! Ensinai a minha doutrina em toda a sua simplicidade.

Mostrai aos cegos que vos cercam, a puerilidade dos seus costumes, a vaidade de seus cultos.


Mostrai que é somente a Deus que se deve adorar. Dizei-lhes que o mais belo templo é um coração puro; que a melhor prece, é o trabalho, é o pensamento de amor pelas criaturas e de reconhecimento ao Criador!


– Pregai não somente por palavras – é o ensinamento final desta bela mensagem – mas sobretudo, pelo exemplo!

Eu vos dou meu pensamento, eu vos atraio a mim, caminhai em paz à sombra do meu estandarte.


Na Introdução, também recebida mediunicamente por Madame Krell, Melanchthon (espírito) diz que é a entidade que hoje se chama Espírito Verdade, que devem ser dirigidas as nossas homenagens, “a esse espírito sempre grande, espírito perfeito que jamais se desviou do caminho da virtude”.  (MIRANDA,1993, p. 47-48, itálico do original, grifo nosso).


Em fevereiro de 2003, a Editora Camille Flammarion publicou uma versão em português dessa obra com o título de Irradiações da Vida Espiritual, na qual às páginas 244 e 130, respectivamente, confirmamos o teor das mensagens aqui mencionadas por Hermínio Miranda.


E sobre a médium Mme Krell, encontramos essa informação na obra Cáritas e sua prece histórica, do escritor Regis de Morais (1940- ):


[…] Madame W. Krell, psicografando em transe, anotou a bela e profunda prece assinada pelo espírito de Cárita.

[…] a Mme. Krell é tida como um dos maiores médiuns psicográficos de toda a história do Espiritismo; a fidedignidade de seus trabalhos psicográficos nem em seu tempo, nem em tempos posteriores foi discutida.

A psicografia da prece de Cáritas se deu em reunião natalina do círculo espírita de Bordéus (França). […]. (MORAIS, 2006, p. 34-35, grifo nosso).


Informação necessária para ressaltarmos a “qualidade mediúnica” de Mme Krell. Em relação ao nome da autora espiritual, Morais explica: “Cárita, hoje conhecida como Cáritas, […]”. (MORAIS, 2006, p. 3).


E, mais recentemente, poderemos colocar do livro Missionários da Luz a explicação do espírito Alexandre a André Luiz:

– Mediunidade – prosseguiu ele, arrebatando-nos os corações – constitui meio de comunicação; e o próprio Jesus nos afirma: “eu sou a porta… se alguém entrar por mim será salvo e entrará, sairá e achará pastagens!” Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor? (XAVIER, 1986, p. 99, grifo nosso).


Aqui se afirma, mais uma vez, agora com uma informação mais atual, próxima a nós, que o Espírito de Verdade é o Senhor, ou seja, Jesus.


Julgamos importante essas informações por elas terem vindo de fora do círculo ao qual o Codificador estava vinculado.

Kardec disse alguma coisa?

A primeira vez em que Kardec fala, em suas obras, sobre esse episódio, foi no livro Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas (Iniciação Espírita, p. 231-232), onde diz que o Espírito usou um nome alegórico e que soube depois, por outros Espíritos, ter sido ele “um ilustre filósofo da antiguidade”.

Entretanto, quando lança O Livro dos Médiuns, que, segundo ele mesmo, substitui o primeiro por ser “muito mais completo e sobre um outro plano” (Revista Espírita 1860, p. 256), ao relatar novamente essa mesma comunicação, já fala que “ele pertencia a uma ordem muito elevada, e que desempenhou um papel muito importante sobre a Terra” (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 110, grifo nosso); e, finalmente, no livro Obras Póstumas (p. 305-306), quando relata todo o acontecimento, ele fala que o Espírito usou o codinome “A Verdade”, se abstendo de revelar quem realmente Ele teria sido. (ver item IV).


Por que será que Kardec muda a fala?

Para encontrarmos a explicação, devemos ver algumas observações que ele faz a respeito das comunicações:


a)  Recebida em 11 de dezembro de 1855: “Vê-se, por estas perguntas, que eu era ainda muito noviço acerca das coisas do mundo espiritual”. (p. 302).


b)  Recebida em 25 de março de 1856: “Nessa época, ainda não se fazia distinção nenhuma entre as diversas categorias de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos familiares”. (p. 305).

Considerando que essas três comunicações, constantes do livro Obras Póstumas, são os documentos originais que Kardec possuía e que, por sua vez, também são anteriores à época da publicação do livro Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas, que se deu no ano de 1858, e que em sua substituição veio O Livro dos Médiuns,disponível ao público em data posterior, qual seja, no ano de 1861, e que neste último livro já mudava o “um ilustre filósofo da antiguidade”, (se colocássemos o mais ilustre caberia como uma luva a Jesus), para qualificá-lo como sendo um Espírito “que pertence a uma categoria muito elevada e que desempenhou na Terra importante papel” (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 110) (se disséssemos o de uma categoria mais elevada que desempenhou o papel mais importante sobre a Terra, ficaríamos com a impressão de que, de fato, estaríamos falando de Jesus). E concluímos que essas últimas expressões devam prevalecer sobre aquelas.

Quer dizer, as comunicações constantes do livro Obras Póstumas são as que devemos considerar como a realidade dos acontecimentos, enquanto que, para as outras, acreditamos na hipótese de Kardec ter colocado a questão de modo diferente, por absoluta discrição, e também para que não atraísse a si, nem à Doutrina nascente, a ira dos religiosos de seu tempo, como aconteceu em relação ao Cristianismo, quando esse ainda se encontrava no início.


Em 1868, há uma interessante observação de Kardec, que nos ajudará no esclarecimento do uso, no livro Instruções Práticas, da expressão “um ilustre filósofo”, cujo teor poderemos encontrar no item 41, do cap. I, de A Gênese:


O Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza, que revela tudo quanto o Cristo disse e fez; elucida os pontos obscuros dos seus ensinamentos, de tal sorte que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem e admitem, sem dificuldade, com auxílio desta doutrina; veem melhor o seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria; o Cristo lhes parece maior: jánão é simplesmente um filósofo, é um Messias divino. (A Gênese, FEB, 2007e, p. 42-43, grifo nosso).


Fica evidente que a expressão “um ilustre filósofo” foi tomada pelo uso comum, mas nesta fala Kardec eleva Jesus à categoria de um Messias divino.


Em Obras Póstumas, lemos que em 07 de maio de 1856 na casa do Sr. Roustan, pela médium Srta Japhet, veio a informação do espírito Hahnemnn, confirmando a Kardec a missão de que estava incumbido. (Obras Póstumas, 2006, p. 309).

Pouco mais de um mês depois, 12 de junho de 1856, na casa do Sr. C…, médium Srta. Aline C…, Kardec, em diálogo com o Espírito de Verdade, pede-lhe para confirmar se tem mesmo uma missão, ao que lhe foi dito: “Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te muita descrição, se quiseres sair-te bem. […]”. (Obras Póstumas, 2006, p. 313, grifo nosso).


Continuando o diálogo com o Espírito de Verdade, a certa altura Kardec lhe disse: “[…]

Nesse caso, reclamo a tua assistência e a dos bons Espíritos, no sentido de me ajudarem e ampararem na minha tarefa”.

E ao final, expressou-se da seguinte forma:

Espírito Verdade, eu vos agradeço pelos vossos sábios conselhos. Aceito tudo sem restrição e sem dissimulação.
Senhor!

Se vos dignastes lançar os olhos sobre mim para o cumprimento de vossos desígnios, que seja feita a vossa vontade!

A minha vida está em vossas mãos, disponde do vosso servidor.

Em presença de uma tão grande tarefa, reconheço a minha fraqueza; minha boa vontade não faltará, mas, talvez, as minhas forças me trairão.

Supri a minha insuficiência; dai-me as forças físicas e morais que me forem necessárias.

Sustentai-me nos momentos difíceis, e com a vossa ajuda, e a de vossos celestes mensageiros, esforçar-me-ei para corresponder aos vossos objetivos. (Obras Póstumas, 2006, p. 314-315).


Dois pontos queremos levantar:

1º) Ao dizer “reclamo a tua assistência e a dos bons Espíritos”, Kardec, certamente, colocava o Espírito de Verdade numa condição superior à dos bons Espíritos;

2º) Se inicia o agradecimento nominando o Espírito de Verdade para logo após dizer Senhor, não estaria aí o relacionando a uma figura que todos nós denominamos de Senhor, ou seja, Jesus? Esse é o entendimento do editor Paulo Henrique de Figueiredo (1966- ) (FIGUEIREDO, 2007, p. 51), que no artigo “A Verdade” fala exatamente desse assunto que estamos tratando no momento.


c)    Recebida em 09 de abril de 1856, com o detalhe que nessa a pergunta é feita ao Espírito que se identificou como A Verdade: “A proteção desse Espírito, cuja superioridade estava longe de imaginar, de fato, jamais me faltou. […]”. (p. 307).


Ademais, significativo é o fato de que, nas primeiras páginas do livro O pensamento de Emmanuel, o autor José Martins Peralva (1918-2007) coloca exatamente essa fala de Kardec, dizendo: “Cântico de Allan Kardec ao ser informado pelo Espírito de Verdade da missão que lhe caberia desempenhar como Codificador do Espiritismo. (Obras Póstumas, de Allan Kardec, pág. 254, 12ª edição da FEB).” (PERALVA, 1987, p. 11)


Portanto, estabelece a ligação entre Espírito de Verdade e Senhor.


Como a seguir citaremos algo importante em O Livro dos Médiuns, julgamos necessário fazer uma consideração, já que pode ocorrer que essa obra seja considerada como de menor valor que O Livro dos Espíritos, por ser este de respostas às perguntas feitas aos Espíritos Superiores, enquanto o outro não é visto dessa forma. Ledo engano! Vejamos essas considerações de Kardec na Introdução da primeira obra citada:


Importantes alterações para melhor foram introduzidas nesta segunda edição, muito mais completa do que a primeira. Acrescentando-lhe grande número de notas e instruções do maior interesse, os Espíritos a corrigiram, com particular cuidado.

Como reviram tudo, aprovando-a, ou modificando-a à sua vontade, pode dizer-se que ela é, em grande parte, obra deles, porquanto a intervenção que tiveram não se limitou aos artigos que trazem assinaturas. São poucos esses artigos, porque apenas apusemos nomes quando isso nos pareceu necessário, para assinalar que algumas citações um tanto extensas provieram deles textualmente.

A não ser assim, houvéramos de citá-los quase que em todas as páginas, especialmente em seguida a todas as respostas dadas às perguntas que lhes foram feitas, o que se nos afigurou de nenhuma utilidade.

Os nomes, como se sabe, importam pouco, em tais assuntos. O essencial é que o conjunto do trabalho corresponda ao fim que colimamos.

O acolhimento dado à primeira edição, posto que imperfeita, faz-nos esperar que a presente não encontre menos receptividade. (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 17-18, grifo nosso).


Portanto, está no mesmo nível de O Livro dos Espíritos, sendo, como assevera Kardec, O Livro dos Médiuns um seguimento dela. (KARDEC, 2007b, p. 3). Diante disso, o que vamos citar do guia dos médiuns e dos evocadores assume um caráter bem especial, ou seja, de tudo que dele transcrevermos foi sancionado pelos Espíritos Superiores.


Dito isso, analisemos, em O Livro dos Médiuns, a comunicação IX, inserida no capítulo XXXI, intitulado Dissertações Espíritas, da qual destacamos, em negrito, alguns trechos:


Venho, eu, vosso Salvador e vosso juiz; venho, como outrora, aos filhos transviados de Israel; venho trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me.

O Espiritismo, como outrora a minha palavra, tem que lembrar aos materialistas que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar a planta e que levanta as ondas.

Revelei a Doutrina Divina; como o ceifeiro, atei em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: Vinde a mim, vós todos que sofreis!


Mas, ingratos, os homens se desviaram do caminho reto e largo que conduz ao reino de meu Pai e se perderam nas ásperas veredas da impiedade.

Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer, não mais por meio de profetas, não mais por meio de apóstolos, porém, que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto a morte não existe, vos socorrais e que a voz dos que já não existem ainda se faça ouvir, clamando-vos:

Orai e crede! por isso que a morte é a ressurreição, e a vida – a prova escolhida, durante a qual, cultivadas, as vossas virtudes têm que crescer e desenvolver-se como o cedro.


Crede nas vozes que vos respondem: são as próprias almas dos que evocais. Só muito raramente me comunico. Meus amigos, os quehão assistido à minha vida e à minha morte são os intérpretes divinos das vontades de meu Pai.


Homens fracos, que acreditais no erro das vossas inteligências obscuras, não apagueis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos, para vos clarear a estrada e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.


Em verdade vos digo: crede na diversidade, na multiplicidade dos Espíritos que vos cercam. Estou infinitamente tocado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa imensa fraqueza, para deixar de estender mão protetora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem no abismo do erro.

Crede, amai, compreendei as verdades que vos são reveladas; não mistureis o joio com o bom grão, os sistemas com as verdades.


Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensino; instrui-vos, eis o segundo.

Todas as verdades se encontram no Cristianismo; são de origem humana os erros que nele se enraizaram.

Eis que do além-túmulo, que julgais o nada, vos clamam vozes: Irmãos! nada perece; Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade. (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 482-483, grifo nosso).


Examinando as expressões usadas aqui nessa mensagem, as quais realçamos em negrito, não há como não relacioná-las a Jesus.

Na realidade, elas dão-nos a impressão de estarmos ouvindo-O falar.

Entretanto, o mais importante dessa comunicação é a nota que Kardec coloca logo após; vejamo-la:


Esta comunicação, obtida por um dos melhores médiuns da Sociedade Espírita de Paris, foi assinada com um nome que o respeito não nos permite reproduzir, senão sob todas as reservas, tão grande seria o insigne favor de sua autenticidade e porque dele se há muitas vezes abusado demais, em comunicações evidentemente apócrifas.

Esse nome é o de Jesus de Nazaré.

De modo algum duvidamos de que ele possa manifestar-se; mas, se os Espíritos verdadeiramente superiores não o fazem, senão em circunstâncias excepcionais, a razão nos inibe de acreditar que o Espírito por excelência puro responda ao chamado do primeiro que apareça. Em todos os casos, haveria profanação, no se lhe atribuir uma linguagem indigna dele.


Por estas considerações, é que nos temos abstido sempre de publicar o que traz esse nome.

E julgamos que ninguém será circunspecto em excesso no tocante a publicações deste gênero, que apenas para o amor-próprio têm autenticidade e cujo menor inconveniente é fornecer armas aos adversários do Espiritismo.


Como já dissemos, quanto mais elevados são os Espíritos na hierarquia, com tanto mais desconfiança devem os seus nomes ser acolhidos nos ditados. Fora mister ser dotado de bem grande dose de orgulho, para poder alguém vangloriar-se de ter o privilégio das comunicações por eles dadas e considerar-se digno de com eles confabular, como com os que lhe são iguais.


Na comunicação acima, apenas uma coisa reconhecemos: é a superioridade incontestável da linguagem e das ideias, deixando que cada um julgue por si mesmo de quem ela traz o nome, que não a renegaria. (KARDEC, O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 483-484, grifo nosso).


Primeiramente, gostaríamos de chamar a atenção para o que Kardec coloca, logo no início da nota, para ressaltar as qualidades do médium que recebeu a comunicação, visando nos alertar para a confiabilidade que depositava nele, visto o que, na sequência, haveria de falar sobre quem assinou tal mensagem.


E quando ele coloca que “temos abstido sempre de publicar o que traz esse nome” ao se referir à assinatura de Jesus de Nazaré, nos parece que existiram várias comunicações deste tipo, porquanto o Espírito São José confirma isso quando diz que “o próprio Divino Mestre ensina em suas comunicações”.

A pergunta é: onde estão essas mensagens, considerando que nas obras de Kardec encontramos apenas três, sendo que duas delas ele as considerou apócrifas? E, quanto à outra, disse que “ela leva, na forma e no fundo dos pensamentos, na simplicidade junto à nobreza do estilo, uma marca de identidade que não se poderia desconhecer” (Revista Espírita 1868, p. 288).

Devemos considerar as assinadas pelo Espírito de Verdade, como sendo a resposta a essa questão, fato que se confirmará a seguir.


Também está aqui explicado por que Kardec não quis colocar a assinatura na mensagem: “não fornecer armas aos adversários do Espiritismo”.

Entretanto, quando de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ele coloca esta mesma mensagem no Capítulo VI – O Cristo Consolador, item 5 (p. 135-136) (a pequena divergência ficou por conta dos trechos sublinhados, que não constam da mensagem do ESE), agora assinada pelo Espírito de Verdade, datando-a como ocorrida em Paris, em 1860, ou seja, bem no início do Espiritismo. Isso quer dizer que, ao afirmar que essa comunicação tem a assinatura de Jesus, mas em vez desse nome coloca o de Espírito de Verdade, devemos pressupor que, para ele, ambas provinham da mesma individualidade.

Fato que fica mais claro quando, em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXXI, ao tratar das Comunicações *Apócrifas (*sem identidade confirmada) (p. 502-511), Kardec coloca duas comunicações assinadas por Jesus (item XXXIII), às quais, em nota, nos explica o seguinte:


Indubitavelmente, nada há de mau nestas duas comunicações; porém, teve o Cristo alguma vez essa linguagem pretensiosa, enfática e empolada?

Faça-se a sua comparação com a que citamos acima, firmada pelo mesmo nome, e ver-se-á de que lado está o cunho da autenticidade. (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 508, grifo nosso).


Para nós fica claro que, ao pedir para comparar essas duas mensagens com a anterior, e ver onde se encontra o “cunho da autenticidade”, é porque admite como autêntica a primeira, que é exatamente a que citamos um pouco mais acima, ou seja, aquela “firmada pelo mesmo nome”, na qual consta a assinatura Jesus de Nazaré.

O que, em outras palavras, podemos dizer é que Kardec admitia como verdadeira a comunicação dada por Jesus e que, ao colocá-la em outra ocasião como assinada pelo Espírito de Verdade, é porque sabia que se tratava do mesmo Espírito e, dessa forma, também mantinha-se a descrição que lhe foi sugerida.


Um ponto também interessante é que na mensagem está se afirmando que “Só muito raramente me comunico”, exatamente o que o Espírito de Verdade disse a Kardec, logo no início, que aconteceria.


Segundo afirma o codificador, Jesus é o “Espírito puro por excelência”, situação em que acreditamos, e ninguém duvida dela; daí termos encontrado, acreditamos, mais uma forte razão para tê-lo como o coordenador da Terceira Revelação Divina, porquanto “Só os puros Espíritos recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la” (Revista Espírita 1867, p. 260).


Ainda em O Livro dos Médiuns, quando Kardec fala dos Sistemas, ao se referir ao Sistema unispírita ou monoespírita(item 48), ele faz uma colocação pela qual podemos concluir claramente que Cristo e o Espírito de Verdade são a mesma personalidade; vejamos:


Como variedade do sistema otimista, temos o que se baseia na crença de que um único Espírito se comunica com os homens, sendo esse Espírito o Cristo, que é o protetor da Terra. […].

Assim, enquanto uns atribuem todas as comunicações ao diabo, que pode dizer coisas excelentes para tentar, pensam outros que só Jesus se manifesta e que pode dizer coisas detestáveis, para experimentar os homens. […].


Quando se lhes objeta com os fatos de identidade, que atestam, por meio de manifestações escritas, visuais, ou outras, a presença de parentes ou conhecidos dos circunstantes, respondem que é sempre o mesmo Espírito, o diabo, segundo aqueles, o Cristo, segundo estes, que toma todas as formas.

Porém, não nos dizem por que motivo os outros Espíritos não se podem comunicar, com que fim o Espírito da Verdade nos viria enganar, apresentando-se sob falsas aparências, iludir uma pobre mãe, fazendo-lhe crer que tem ao seu lado o filho por quem derrama lágrimas. A razão se nega a admitir que o Espírito, entre todos santo, desça a representar semelhante comédia. […]. (O Livro dos Médiuns, FEB, 2007b, p. 69, grifo nosso).


Não podemos deixar de ressaltar que, aí, Kardec faz uma relação objetiva entre o Cristo e o Espírito de Verdade de forma a não deixar dúvida alguma quanto à sua identidade.

Na hipótese de que somente o Cristo se manifesta, contra-argumenta o codificador indagando “com qual objetivo o Espírito de Verdade nos viria enganar, apresentando-se sob falsas aparências…” e, concluindo, que “a razão se recusa a admitir que o Espírito, entre todos santo, se rebaixe para executar uma semelhante comédia”, o que nos leva a deduzir que não há a mínima possibilidade de entendimento, senão, o de que os dois são a mesma personalidade, porquanto o questionamento coerente com o texto deveria ser: “com qual objetivo o Cristo nos viria enganar, apresentando-se sob falsas aparências…”.

Merece destaque esta expressão “entre todos santo” usada por Kardec, que, a nosso ver, só caberia a Jesus.

Na tradução feita por Renata Barbosa da Silva (?- ) e Simone T. N. Bele da Silva (?- ), em publicação da Petit Editora (p. 48-49), fica ainda mais nítida esta questão: “o Espírito, entre todos o mais santo”.


Podemos ainda corroborar isso, em se comparando essas duas falas de Kardec:

[…] o Espiritismo […]. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. I, item 7, 1990, p. 59-60, grifo nosso).


[…] reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo com respeito ao Consolador anunciado. Ora, como é oEspírito de Verdade que preside ao grande movimento de regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador. (A Gênese, cap. I, item 42, FEB, 2007e, p. 43, grifo nosso).


Aqui é oportuno lembrar que O Evangelho Segundo o Espiritismo foi publicado em abril de 1864, enquanto que o livro A Gênese, o foi em janeiro de 1868. Queremos chamar a sua atenção, caro leitor, para que observe a comparação que faremos entre essas duas mensagens:


“obra do Cristo, que preside… à regeneração que se opera”; e

“é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração.”


Falando do Espiritismo, Kardec afirma, primeiramente, que o Cristo o preside; depois disse que o Espírito de Verdade é quem o preside, do que podemos concluir que os dois são, indubitavelmente, a mesma personalidade, porquanto a coordenação geral do movimento de regeneração coube somente a um.

Então, percebe-se claramente que ele fala da mesma individualidade, usando nomes diferentes; o que vem fortalecer, em nós, a convicção de que ele sabia perfeitamente quem era o Espírito de Verdade, que, para ele, não era outro senão o próprio Jesus.


Um outro fato importante é que, no já citado capítulo VI – O Cristo Consolador, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, com o subtítulo Advento do Espírito de Verdade, existem, nas Instruções dos Espíritos (itens 5 a 8), cinco mensagens assinadas pelo Espírito de Verdade.

Aliás, para nós, certamente, há uma relação direta entre o título “O Cristo Consolador” com as quatro mensagens assinadas pelo Espírito de Verdade. A primeira delas é a que consta de O Livro dos Médiuns, comunicação IX, do capítulo XXXI, da qual transcrevemos alguns trechos mais acima, mas com a assinatura de Jesus de Nazaré. Vejamos o que se pode realçar em três delas:


5. Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. […].


Mas, ingratos, os homens afastaram-se do caminho reto e largo que conduz ao reino de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; […].


Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro…
Espíritas!

Amai-vos, este o primeiro ensinamento, instrui-vos, este o segundo […]. (O Espírito de Verdade – Paris, 1860). (O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1990, p. 135-136, grifo nosso)


6. Venho instruir e consolar os pobres deserdados. Venho dizer-lhes que elevem a sua resignação ao nível de suas provas, que chorem, porquanto a dor foi sagrada no Jardim das Oliveiras; mas, que esperem, pois que também a eles os anjos consoladores lhes virão enxugar as lágrimas.


[…] o trabalho das vossas mãos vos fornece aos corpos o pão terrestre; vossas almas, porém, não estão esquecidas; e eu, o jardineiro divino, as cultivo […]. Nada fica perdido no reino de nosso Pai […].


Em verdade vos digo: os que carregam seus fardos e assistem os seus irmãos são bem-amados meus. Instrui-vos na preciosa doutrina que dissipa o erro das revoltas e vos mostra o sublime objetivo da provação humana… Estou convosco e meu apóstolo vos instrui. (O Espírito de Verdade – Paris, 1861). (O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1990, p. 136-137, grifo nosso).


7. Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados […]. (O Espírito de Verdade). (O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1990, p. 137-138, grifo nosso).


Não há como não relacioná-las a Jesus, tão evidente fica o estilo de linguagem que lhe é próprio. Inclusive, um detalhe bem particular em uma delas é dito algo importante para relacionar o Espírito de Verdade a Jesus, mas que passa despercebido a muitos.

Trata-se da expressão “o jardineiro divino”; embora Jesus nunca a tenha usado, referindo-se a si próprio, ela tem significado relevante, pois, após a sua ressurreição, Ele aparece a Madalena, que o confunde com o jardineiro (Jo 20,15); assim, cabe-nos dar um caráter alegórico para essa visão, no sentido de nos considerarmos “plantas” do seu jardim.

Julgamos fora de propósito que Kardec tenha se enganado ou que nos tenha deixado ver uma coisa onde ela não está. Portanto, não vemos outra opção senão aceitá-las como sendo mesmo de Jesus, uma vez que a primeira, conforme dito em O Livro dos Médiuns, leva essa assinatura. A expressão “meu apóstolo vos instrui”, certamente é a Kardec que se refere, demonstrando, mais uma vez, sua condição de Espírito de uma categoria mais elevada.

O Espírito de Verdade deixou-nos alguma pista?

A essa pergunta responderemos que sim, pois, pelo menos, é o que, diante dos fatos, nos parece; e no que acreditamos. Vejamos uma comunicação assinada pelo Espírito de Verdade, a propósito de A Imitação do Evangelho(O Evangelho Segundo o Espiritismo), dada em Bordeaux, em maio de 1864:

Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear o vosso caminho. Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade.

Esta palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo, vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado sobre vossa Terra. […].

Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos.

Estas palavras o Espiritismo veio fazer compreendê-las. (Revista Espírita 1864, p. 399, grifo nosso).


A respeito da assinatura, Kardec faz a seguinte observação:

Sabe-se que tomamos tanto menos a responsabilidade dos nomes quanto pertençam a seres mais elevados.

Nós não garantimos mais essa assinatura do que muitas outras, nos limitamos a entregar esta comunicação á apreciação de todo Espírita esclarecido.

Diremos, no entanto, que não se pode nela desconhecer a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de todo supérfluo.

Se se a compara àquelas que estão reportadas em A Imitação do Evangelho (prefácio, e cap. III – O Cristo Consolador[1], e que levam a mesma assinatura, embora obtidas por médiuns diferentes e em diferentes épocas, nota-se entre elas uma analogia evidente de tom, de estilo e de pensamento que acusa uma fonte única.

Por nós, dizemos que ela pode ser de O Espírito de Verdade, porque é digna dele; ao passo que delas vimos massas assinadas com este nome venerado, ou o de Jesus, cuja prolixidade, verborragia, vulgaridade, às vezes mesmo a trivialidade das ideias, traem a origem apócrifa aos olhos dos menos clarividentes. […]. (Revista Espírita 1864, p. 399-400, grifo nosso).


Kardec, embora muito reservado e não fugindo a essa sua característica, diz que tal comunicação pode ter vindo do Espírito que a assinou, por ser digna dele e, além disso, por “ter uma analogia de tom, de estilo e de pensamento”, quando comparada às outras, “que acusa uma única fonte”.

O que não fica difícil de aceitar se considerarmos que, ao falar das comunicações apócrifas, Kardec coloca que apareceram várias delas assinadas por Jesus e pelo Espírito de Verdade, do qual disse ser um nome venerado, o que significa que igualou os dois.


Ressaltamos as expressões: “há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai” e “eu lhes disse há dezoito séculos”, que deixam transparecer que se trata mesmo de Jesus, embora tenha assinado como Espírito de Verdade.

Conclusão

Antes de terminar, queremos, ainda, colocar também o pensamento de outros autores Espíritas, objetivando demonstrar que não estamos sozinhos nessa ideia, quiçá maluca, para alguns, uma vez que a nossa conclusão pode não ser convincente para os que pouco ou nenhum valor dão à opinião de autores ainda desconhecidos do grande público Espírita, como é, especificamente, o nosso caso. Embora haja quem não comungue com o nosso ponto de vista, é bom que se diga que não estamos sozinhos no nosso entendimento, mas com outros autores contemporâneos, dentre os quais citamos: Hermínio C. Miranda, Sérgio Fernandes Aleixo (1970- ) e Lamartine Palhano Júnior (1946-2000).


Hermínio C. Miranda:

Não há como duvidar, portanto, de que, em algum momento, presumivelmente entre 1861 e 1863, Kardec foi informado de que o Espírito Verdade era o próprio Cristo.

Essa identificação está clara, aliás, nos textos das mensagens reproduzidas em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no já mencionado Capítulo VI – O Cristo Consolador.

[…].

Não há, pois, como ignorar a óbvia e indiscutível conclusão de que, sob o nome de Espírito Verdade, o Cristo dirigiu pessoalmente os trabalhos de formulação e implementação da Doutrina dos Espíritos, caracterizando-a como o Consolador que prometera há dezoito séculos. A Doutrina Espírita é a sua doutrina.

Os espíritos que nela colaboraram, a ele estão subordinados, Kardec é o seu apóstolo […]. (MIRANDA, 1993, p. 46-49).


Sérgio F. Aleixo:

Vemos que, em termos rigorosamente kardecianos, está dirimida esta dúvida quanto à individualidade e à identidade do Espírito de Verdade.

Ele é único! Ele é Jesus! A menos que não tenhamos motivos para confiar em Kardec e nos espíritos da codificação. (ALEIXO, 2001, p. 61).


L. Palhano Jr.:

No advento do Espírito de Verdade, em 1857, é o próprio Jesus de Nazaré quem preside os acontecimentos da nova Ciência, da nova Filosofia e da nova Religião, cuja moral é a verdadeira, pois preconiza aquela que está escrita na consciência. (PALHANO JR., 2001, p. 31).


Porém, mensagens assinadas pelo Espírito de Verdade foram, de fato, assinadas por Jesus. Kardec, por cuidado, é que omitiu esse detalhe. (PALHANO JR., 1999, p. 92-93).


De uma forma indireta, podemos também citar Léon Denis (1846-1927), ressaltando que ele é considerado como um dos principais seguidores de Allan Kardec e difusor da Doutrina Espírita.

Quando afirma que Jesus opera a Nova Revelação sob direção oculta, nos remete ao Espírito que, em resposta a Kardec, disse se chamar a Verdade; vejamos:


A passagem de Jesus pela Terra, seus ensinamentos e exemplos, deixaram traços indeléveis; sua influência se estenderá pelos séculos vindouros. Ainda hoje, ele preside os destinos do globo em que viveu, amou, sofreu.


Governador espiritual deste planeta, veio, com seu sacrifício, encarreirá-lo para a senda do bem, e é sob a sua direção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revelação, que, sob o nome de moderno espiritualismo, vem restabelecer sua doutrina, restituir aos homens o sentimento dos próprios deveres, o conhecimento de sua natureza e dos seus destinos. (DENIS, 1987, p. 79, grifo nosso).


Podemos destacar as três principais causas, pelas quais algumas pessoas se apoiam, para não aceitar a conclusão a que chegamos. Uma delas é que considerando, mesmo que inconscientemente, Jesus uma divindade, não O admitem se comunicando com os homens. Isso, muitas das vezes, trazemos das religiões das quais viemos.


Entretanto, é bom lembrar que Jesus nunca se colocou como tal; ao contrário, se igualava a nós: “Subo a meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20,17); chegou mesmo a dizer:“quem crê em mim fará as obras que eu faço e fará maiores do que elas…” (João 14,12).


A prova de que Ele se comunica podemos ver nas narrativas bíblicas com Ele orientando Paulo de Tarso, conforme já o dissemos, fora a questão de que já havia se apresentado a seus discípulos, logo após a sua ressurreição, passando-lhes suas últimas orientações diretas. E o próprio codificador afirmou: “De modo algum duvidamos de que ele possa manifestar-se”. (KARDEC, O Livro dos Médiuns, 2007b, p. 483).


Na segunda causa, a visão que se tem de Jesus é que Ele é um Espírito puro; mas, nem assim, nessa condição desmistificada, acreditam que Ele possa se manifestar, contrariando o que Kardec disse sobre essa única classe dos Espíritos de primeira ordem:

“Os homens podem comunicar-se com eles, mas bem presunçoso seria quem pretendesse tê-los constantemente às suas ordens”. (KARDEC, O Livro dos Espíritos, 2006, p. 125).


Vejamos o que se pode encontrar em A Gênese que dá sustentação à manifestação de Espíritos puros:


9. A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito.

Os Espíritos inferiores não podem mudar de envoltório a seu bel-prazer, pelo que não podem passar, à vontade, de um mundo para outro. […].

Esses Espíritos, cujo número é avultado, permanecem na superfície da Terra, como os encarnados, julgando-se entregues às suas ocupações terrenas.

Outros um pouco mais desmaterializados não o são, contudo, suficientemente, para se elevarem acima das regiões terrestres.


Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos inferiores, e, até, encarnar neles.

Tiram, dos elementos constitutivos do mundo onde entram, os materiais para a formação do envoltório fluídico ou carnal apropriado ao meio em que se encontrem.

Fazem como o nobre que despe temporariamente suas vestes, para envergar os trajes plebeus, sem deixar por isso de ser nobre.


É assim que os Espíritos da categoria mais elevada podem manifestar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes. Tais Espíritos trazem consigo, não o invólucro, mas a lembrança, por intuição, das regiões donde vieram e que, em pensamento, eles veem. São videntes entre cegos. (KARDEC, 2007e, p. 318-319, grifo nosso).


2. Sem nada prejulgar quanto à natureza do Cristo, natureza cujo exame não entra no quadro desta obra, considerando-o apenas um Espírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo um dos de ordem mais elevada e colocado, por suas virtudes, muitíssimo acima da humanidade terrestre. […].


[…] porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível. […]. (KARDEC, 2007e, p. 354-355, grifo nosso).


A designação de Espírito(s) Superior(es) não é aquela adotada por Kardec para classificar as diversas categorias de Espíritos, aqui, nestas duas transcrições, ele separa os Espíritos em apenas duas categorias: a dos superiores e a dos inferiores.


Como visto acima, o Codificador deixa claro que os Espíritos superiores “podem manifestar-se aos habitantes da Terra”. Acreditamos que isso não quer dizer necessariamente que eles possam estar “fisicamente” no local em que se manifesta, porquanto “[…]

O pensamento do Espírito é como uma centelha que projeta sua claridade e pode ser vista de todos os pontos do horizonte. Quanto mais puro é o Espírito tanto mais o seu pensamento se irradia e se estende, como a luz. […].” (KARDEC,2007b, p. 380).


Há que se somar a tudo isso que, à pergunta “Podem ser evocados os puros Espíritos, os que hão terminado a série de suas encarnações?”, Kardec obteve a seguinte resposta: “Podem, mas muito raramente atenderão.

Eles só se comunicam com os de coração puro e sincero e não com os orgulhosos e egoístas, […]” (KARDEC, 2007b, p. 381).
Cabe-nos, finalmente, perguntar, esquecendo-nos um pouco que os Espíritos confirmaram as duas possibilidades: o que seria mais fácil para um Espírito puro, se comunicar conosco ou encarnar em nosso meio?


Na última, argumentam que, no Evangelho, Jesus diz tratar-se de outra personalidade. Como explicamos, era comum ele referir-se a si mesmo dessa maneira.

Podemos até abrir mão desse argumento, mas o fato é que, pelas obras da codificação, isto se torna claro, sem margem a dúvidas; daí, para nós, é irrelevante esse ponto de objeção.
Embora sabendo que algumas pessoas não aceitarão a nossa opinião, mesmo assim externamo-la, afirmando que o Espírito de Verdade é realmente Jesus.

Chegamos a esse entendimento pelos motivos apresentados ao longo deste estudo – informação dos Espíritos, pela fala de Kardec, pela opinião de outros autores espíritas, pelo Evangelho e pelas comunicações atribuídas ao Espírito de Verdade –, que foram as bases com as quais estruturamos e fortalecemos nossa convicção.


Entretanto, é bom esclarecer que não pretendemos ser o “dono da verdade”, mas este nosso entendimento se baseia nessa pesquisa criteriosa, que veio solidificar a nossa verdade, independentemente daquela que cada um tenha. Usando Kardec, diríamos:

“Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros”. (Obras Póstumas, p. 384).


Por isso, na medida de nossa capacidade, tentamos abranger, com esse estudo, tudo quanto foi possível encontrar nas obras de Kardec sobre o assunto, para que pudéssemos, de maneira efetiva, dar a resposta à nossa questão inicial: quem seria o Espírito de Verdade?


Esperamos que, com os dados aqui apresentados, possa você também, caro leitor, tirar a sua própria conclusão, já que aqui não pretendemos impor nada. Apenas estamos apresentando os dados, para que você tenha condições de tirar suas próprias conclusões, a exemplo do que aconteceu conosco ao analisarmos os referidos dados, com base nos quais chegamos ao nosso convencimento.


E, finalizando, visando completar esse estudo, recomendamos, a você, caro leitor, que também leia o texto “Jesus é o Espirito de Verdade”, disponível em nosso site www.paulosnetos.net, na Categoria “Artigos e Estudos”.
Paulo da Silva Neto Sobrinho

Referências bibliográficas

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I
Este artigo foi publicado:

– Jornal Espírita nº 355, São Paulo: FEESP, mar/2005, p. 11 (de forma reduzida);
– Revista Internacional de Espiritismo – RIE, ano LXXXIII, nº 01, Matão; O Clarim, fev/2008, p. 38-40;
– Revista Espírita Histórica e Filosófica, Porto Alegre: GEFE, nº 005, julho/ago 2010, p. 6-14 (parte 1) e Porto Alegre: Maria Carolina Gurgacz, nº 006, set/out 2010, p. 6-14 (parte 2);
– revista Espiritismo & Ciência Especial, São Paulo: Mythos Editora, nº 61, p. 18-33 (primeira parte), abr/2013 e nº 62, p. 48-66 (segunda parte), mai/2013, com o título “Quem seria o Espírito de Verdade?”.

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